Na Cornualha, o casal Abi e Morveth Ward vendeu a própria casa e foi morar num trailer para transformar uma torre de subestação elétrica de granito, de 1910, em uma moradia premiada de 11 metros. A casa tem só 25 m² de base e hoje abriga a família com a filha Posy.
Poucas pessoas olhariam para uma torre de subestação elétrica abandonada e enxergariam um lar. O casal Abi e Morveth Ward, no entanto, fez exatamente isso na Cornualha, no sudoeste da Inglaterra. Os dois compraram uma torre de granito construída em 1910, que um dia distribuiu energia para a região, e a transformaram em uma casa premiada de 11 metros de altura. A história foi contada pela revista Homebuilding & Renovating.
A aposta foi tão grande quanto a torre. Para bancar a reforma, o casal vendeu a própria casa, juntou as economias e foi morar em um trailer fixo no terreno, ao lado da obra. Foi dessa base improvisada que eles acompanharam, dia após dia, o velho prédio elétrico virar o lar onde hoje vivem com a filha, Posy.
O resultado batizaram de Trevolt, um nome que conta a história em duas sílabas. No idioma da Cornualha, o córnico, “tre” significa lar ou propriedade, enquanto “volt” é uma homenagem direta ao passado elétrico do prédio. A casa une, no próprio nome, o que ela era e o que se tornou.
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A torre de subestação que virou casa
O ponto de partida era um prédio improvável de virar moradia. A construção é uma torre estreita e alta, de pedra granito local, erguida em 1910 para abrigar uma subestação de energia em uma área rural do oeste da Cornualha. Com 11 metros de altura e apenas 25 metros quadrados de base, ela é mais parecida com uma chaminé do que com uma casa.
Foi justamente essa estranheza que conquistou o casal. “A singularidade da torre foi o que nos vendeu a ideia. Era imponente e estava em ruínas, mas a gente conseguia visualizar pronta”, contou Morveth à Homebuilding. Onde a maioria via um problema, eles enxergaram um lar com personalidade única.
A localização ajudou a fechar o negócio. A torre fica em um ponto alto, numa península estreita da Cornualha, de onde é possível ver ao mesmo tempo a costa norte e a costa sul da região. É o tipo de vista que nenhuma casa comum oferece, e que transformou a subestação abandonada em um endereço cobiçado.
O casal que vendeu a casa e foi morar num trailer
Comprar a torre foi só o começo do sacrifício. Para custear a transformação, Abi e Morveth Ward tomaram uma decisão radical: venderam a casa onde moravam, colocaram todas as economias no projeto e se mudaram para um trailer fixo instalado no próprio terreno. Trocaram o conforto por uma obra de anos.
A divisão de tarefas manteve o projeto de pé. Abi, que é designer de interiores, ficou à frente da parte estética e da concepção dos ambientes, enquanto Morveth trabalhou como operário na própria obra, mão na massa do início ao fim. Juntos, dividiram a gestão de uma reforma muito maior do que tudo que já tinham feito.
Eles sabiam que estavam arriscando alto. “Já tínhamos feito reformas antes, mas nada nessa escala”, admitiu Morveth. Apostar a casa, a poupança e a rotina em uma torre em ruínas era um salto no escuro, do tipo que só compensa quando dá certo, e neste caso deu.
Morar no trailer, ao lado do canteiro, deu ao casal uma relação diária com cada detalhe. Acompanhar a obra de perto, mesmo no aperto de um trailer, permitiu ajustar decisões em tempo real e economizar onde dava. Foi um período duro, mas que eles encaram hoje como parte essencial da conquista.
O que era a subestação: um pedaço da história elétrica

Antes de ser casa, a torre teve um papel importante na vida da região. Construída em 1910, ela funcionava como uma subestação de energia, ajudando a levar eletricidade para as cidades e povoados ao redor, num tempo em que a luz elétrica ainda estava chegando ao interior. Era infraestrutura de ponta para a época.
Como tantas estruturas industriais, ela teve vida útil limitada. Com a modernização das redes elétricas, a subestação foi desativada por volta dos anos 1960 e, a partir daí, ficou abandonada por décadas. Sem uso, o prédio de granito virou um esqueleto no meio do campo, servindo no máximo de abrigo eventual para o gado dos fazendeiros.
Vale lembrar o contexto da época. No início do século 20, a eletricidade ainda era novidade fora das grandes cidades, e levar energia ao campo exigia uma rede de subestações que ajustavam a tensão para o uso local. Uma torre como essa, de 1910, era símbolo de progresso, o equivalente, guardadas as proporções, a uma antena de internet chegando hoje a um vilarejo isolado.
Resgatar esse prédio é, de certa forma, preservar memória. Cada torre de subestação como essa conta um capítulo da eletrificação do país, um patrimônio que normalmente acaba demolido ou esquecido. Ao transformar a antiga subestação em moradia, o casal deu sobrevida a uma peça da história da energia, em vez de deixá-la cair.
11 metros de altura, 25 m² de base: morar na vertical

O grande desafio do projeto foi caber uma casa dentro de uma torre. Com apenas 25 metros quadrados de base, não havia como crescer para os lados, então a solução foi morar na vertical, empilhando os ambientes ao longo dos 11 metros de altura. A casa cresceu para cima, e não para os lados.
A distribuição ficou engenhosa. Segundo a Homebuilding, a moradia se organiza em três níveis mais um mezanino: no térreo ficam a cozinha com sala de jantar, um quarto e um lavabo; no primeiro andar, a sala de estar com varanda; no segundo, um quarto com banheiro; e, no topo, um mezanino que funciona como mais um dormitório. Cada andar tem sua função clara.
Para ganhar espaço, o casal ainda apostou em um anexo. Foi construída uma extensão de dois pavimentos com estrutura de madeira revestida de larício, encostada na torre, que ampliou a área útil sem descaracterizar a construção original. A torre antiga e o anexo novo convivem lado a lado, cada um com a sua linguagem.
O resultado interno surpreende quem imagina um espaço apertado. “Há muito espaço, com uma luz fantástica”, resume Abi sobre o ambiente que projetou. Morar em uma torre, nesse caso, virou sinônimo de pé-direito alto, luz natural e vistas que poucas casas térreas conseguem oferecer.
A reforma: granito, fidelidade ao passado e o nome Trevolt

(Crédito da imagem: Simon Burt Photography)
Trabalhar com um prédio de 1910 exige respeito ao material. As grossas paredes de granito, que garantiram a sobrevivência da torre por mais de um século, foram mantidas e tratadas, preservando a aparência rústica e a solidez originais. O granito, que antes protegia equipamentos elétricos, agora abriga uma família.
A obra teve a mão de um amigo de confiança. O projeto de arquitetura foi assinado por Jacob Down, amigo de infância de Morveth, o que ajudou a alinhar a visão do casal com as soluções técnicas necessárias. A reforma completa custou cerca de 400 mil libras, o equivalente a mais de 2,5 milhões de reais, um investimento alto bancado com a venda da casa antiga e as economias do casal.
Uma decisão de projeto define bem a filosofia deles: não fingir. Em vez de tentar imitar o granito antigo no anexo novo, o casal preferiu deixar claro o que era velho e o que era novo. “Nunca quisemos que combinasse, porque isso pareceria desonesto”, explicou um deles, defendendo o contraste entre a torre histórica e a parte moderna como uma escolha de honestidade arquitetônica.
Nem tudo foi simples no trato com a pedra. Paredes centenárias de granito costumam guardar umidade, e um dos maiores desafios da reforma foi controlar essa umidade e adaptar a torre para receber instalações modernas de água, luz e aquecimento sem agredir a estrutura original. Encaixar uma casa confortável dentro de um prédio industrial de 1910, andar por andar, exigiu soluções sob medida em cada detalhe.
A moradia premiada e a TV
O esforço todo acabou reconhecido por especialistas. A transformação da subestação rendeu ao casal o prêmio do Cornish Buildings Group em 2023, uma distinção que valoriza as melhores construções e reformas da Cornualha. Sair de uma torre em ruínas para uma casa premiada é a prova de que a aposta arriscada valeu a pena.
A história também ganhou as telas. O projeto foi destaque na série Remarkable Renovations, do arquiteto e apresentador George Clarke, exibida no canal britânico Channel 4, que percorre reformas fora do comum pelo Reino Unido. Diante da torre, o apresentador resumiu o espanto geral ao dizer que conseguir imaginar alguém morando ali já era, por si só, algo notável.
Esse reconhecimento dá ao caso um peso que vai além da família. Quando uma moradia improvável vira referência e aparece na televisão, ela inspira outras pessoas a olhar com outros olhos para prédios abandonados. A torre Trevolt deixou de ser uma curiosidade local para virar um exemplo de reaproveitamento.
A vida hoje na torre, com a filha Posy
Hoje, o que era uma subestação morta é uma casa cheia de vida. Abi e Morveth moram na torre com a filha, Posy, e transformaram o antigo prédio elétrico em um lar de verdade, com cozinha, quartos, sala e até varanda espalhados pelos andares. A família de três encontrou conforto onde antes só havia ruínas.
A sensação de morar ali é descrita com afeto pelos donos. “Adoro a sensação de liberdade que o prédio dá”, diz Abi, falando do espaço, da luz e das vistas que a torre proporciona. Viver no alto, com o campo e o mar ao redor, deu à família uma rotina diferente de tudo o que se imagina ao pensar em uma casa comum.
A torre também virou parte da identidade da família. Mais do que um endereço, Trevolt é um projeto de vida que uniu o casal em torno de um sonho, ergueu uma casa do zero dentro de uma ruína e ainda preservou um pedaço da história. É o tipo de lar que carrega uma história em cada parede de granito.
Moradias improváveis: a febre de reaproveitar o inusitado
O caso de Trevolt está longe de ser único no mundo. Cada vez mais gente transforma estruturas inusitadas em casas, de torres d’água a antigas igrejas, passando por silos, bunkers, vagões de trem e, como aqui, subestações elétricas. A moradia improvável virou uma tendência global, movida por criatividade e pela busca de algo único.
As razões para essa onda são práticas e emocionais. Reaproveitar um prédio antigo pode sair mais barato do que erguer algo do zero em certas situações, além de evitar a demolição de construções sólidas e cheias de história. Há também o apelo de morar em um lugar que ninguém mais tem, com caráter impossível de copiar.
Os exemplos se multiplicam mundo afora. Já houve quem transformasse faróis desativados, antigas estações de trem, capelas, hangares e até celeiros centenários em casas, sempre trocando a demolição por um endereço cheio de caráter. Cada um desses projetos reforça a ideia de que um prédio sem função não é, necessariamente, um prédio sem futuro.
O segredo, nesses casos, costuma ser enxergar potencial onde os outros veem problema. Foi o que Abi e Morveth fizeram com a torre de subestação: trocaram o medo do prédio em ruínas pela visão de um lar. Cada moradia improvável bem-sucedida prova que estruturas descartadas podem ganhar uma segunda vida surpreendente.
O que o Brasil tem a ver com isso
Por aqui, a ideia de reaproveitar o inusitado também ganha espaço. No Brasil, já se viu caixa-d’água, galpão industrial, contêiner e até vagão virarem moradia, na mesma lógica de transformar o incomum em lar. O país tem prédios antigos de sobra que poderiam seguir o caminho da torre Trevolt em vez de virar entulho.
A história fala ainda de patrimônio da energia. Assim como a Inglaterra tem suas velhas subestações, o Brasil está cheio de estruturas industriais e elétricas desativadas, de antigas usinas a galpões de concessionárias, que costumam ser abandonadas. Convertê-las em casas, museus ou espaços culturais é uma forma de preservar a memória da industrialização e da chegada da energia.
Há também uma oportunidade econômica e ambiental. Reformar e reaproveitar uma construção existente costuma gastar menos material e gerar menos entulho do que demolir e erguer tudo de novo, o que conversa direto com a agenda de sustentabilidade. Em cidades brasileiras cheias de imóveis ociosos, o chamado retrofit, que moderniza prédios antigos para novos usos, é um caminho de enorme potencial.
No fim, o recado é sobre olhar diferente para o que parece sem uso. A torre de subestação da Cornualha mostra que, com criatividade e disposição para arriscar, um prédio condenado pode virar uma casa premiada. É uma lição que cabe em qualquer cidade brasileira que ainda enxerga ruínas onde poderia haver moradia.
E você, moraria numa torre dessas?
A história de Abi e Morveth Ward prova que lar é onde a imaginação alcança: eles venderam a casa, foram morar num trailer e transformaram uma torre de subestação elétrica de granito de 1910, na Cornualha, em uma moradia premiada de 11 metros, onde hoje vivem com a filha Posy. Uma ruína virou um dos endereços mais originais do Reino Unido.
E você, teria coragem de vender tudo e morar num trailer para transformar um prédio abandonado em casa, como esse casal fez com a subestação elétrica? Conta aqui nos comentários que estrutura inusitada da sua cidade você acha que daria uma ótima moradia improvável.
