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Casa fica sozinha no meio de uma estrada nova na China após morador recusar acordo, obra avança ao redor do imóvel e imagem impressionante mostra até onde uma disputa por indenização pode chegar

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 27/06/2026 às 14:21 Atualizado em 27/06/2026 às 14:23
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Um imóvel cercado por uma nova rodovia na China reacendeu a discussão sobre indenizações, obras públicas e resistência de proprietários que não aceitam deixar suas casas mesmo quando grandes projetos urbanos avançam ao redor.

A imagem parece montagem, mas virou um dos retratos mais fortes da urbanização acelerada na China. Em Jinxi, na província de Jiangxi, uma residência ficou isolada entre pistas da G206 depois que o proprietário recusou um acordo de indenização e as obras avançaram ao redor do imóvel.

Segundo o South China Morning Post, a casa ganhou o apelido de “Eye of Jinxi”, ou “Olho de Jinxi”, porque, vista de cima, lembra um olho cercado pelo asfalto. O caso chamou atenção não apenas pelo impacto visual, mas pelo que revela sobre um fenômeno conhecido no país como “nail houses”, casas que permanecem de pé enquanto tudo ao redor é demolido ou transformado.

O proprietário, identificado em diferentes relatos como Huang Ping, teria recusado uma oferta de 1,6 milhão de yuans, cerca de US$ 220 mil. A obra seguiu mesmo assim, com a estrada contornando a residência e uma rota especial de acesso para manter a família conectada ao exterior.

O que são as “nail houses” chinesas

O termo “nail house”, conhecido em chinês como dingzihu, descreve imóveis que resistem à demolição após desacordo entre moradores, autoridades ou incorporadoras. The Guardian define esse tipo de casa como uma propriedade cujo dono rejeita a compensação oferecida para sair do local.

A imagem é forte porque transforma uma disputa administrativa em cena urbana quase surreal. Em vez de desaparecer com o avanço da obra, a casa permanece como um ponto isolado, cercado por escavações, canteiros, prédios derrubados, viadutos ou novas vias.

Reuters também usa o termo para explicar imóveis que ficam como “pregos” difíceis de remover dentro de áreas já liberadas para novos empreendimentos. No caso de Jinxi, o efeito visual ficou ainda mais chamativo porque a rodovia foi construída ao redor da casa, criando uma cena que viralizou rapidamente.

Caso de Jinxi ganhou força após a abertura da rodovia

Em outro caso emblemático na China, Luo Baogen observa de sua casa em Wenling a estrada construída ao redor do imóvel, episódio de 2012 que ficou conhecido mundialmente antes da demolição da residência após um acordo com autoridades locais.
Em outro caso emblemático na China, Luo Baogen observa de sua casa em Wenling a estrada construída ao redor do imóvel, episódio de 2012 que ficou conhecido mundialmente antes da demolição da residência após um acordo com autoridades locais.

O caso de Jinxi não terminou quando o asfalto ficou pronto. Reportagens de Oddity Central e Cadena SER apontaram que a família acabou deixando o imóvel depois que a estrada entrou em operação, diante do barulho, da vibração e do tráfego constante.

Essa virada deu outro peso à história. A casa que antes simbolizava resistência passou a mostrar também o custo prático de permanecer cercado por uma grande obra. Mesmo com acesso criado pela equipe de construção, o cotidiano dentro da residência mudou completamente.

A força da imagem ajudou o caso a circular pelo mundo, mas a discussão vai além da curiosidade visual. Ela passa por indenização, direito de permanência, pressão urbana e o limite entre uma obra pública e a vida de quem está no caminho do projeto.

Wenling virou um dos casos mais famosos em 2012

Antes de Jinxi, um dos episódios mais conhecidos ocorreu em Wenling, na província de Zhejiang, em 2012. Luo Baogen, um agricultor de patos de 67 anos, e sua esposa ficaram como os últimos moradores de uma área demolida para abrir uma estrada até uma estação ferroviária.

Segundo China Daily, mais de 500 famílias começaram a sair da região a partir de 2008. Luo, no entanto, considerava a compensação insuficiente para construir outra casa na aldeia. O valor citado era de 260 mil yuans, cerca de US$ 41,7 mil na época.

CBS/AP informou que Luo dizia ter gasto cerca de 600 mil yuans, aproximadamente US$ 95 mil, para construir a casa. A oferta inicial teria sido de 220 mil yuans e depois subido para 260 mil yuans. A estrada já estava concluída, mas ainda não havia sido aberta ao tráfego.

O desfecho veio em 1º de dezembro de 2012. Reuters registrou que a casa foi demolida depois que Luo aceitou um acordo, após conversas com o governo local e familiares. The Guardian também relatou a demolição após a aceitação da compensação.

Demolição da casa de Luo Baogen em Wenling, na China, após o proprietário aceitar um acordo para deixar o imóvel que ficou isolado no meio de uma estrada recém-construída e virou um dos casos mais conhecidos das “nail houses”.
Demolição da casa de Luo Baogen em Wenling, na China, após o proprietário aceitar um acordo para deixar o imóvel que ficou isolado no meio de uma estrada recém-construída e virou um dos casos mais conhecidos das “nail houses”.

Viaduto em Guangzhou também contornou moradores

Outro exemplo marcante apareceu em Guangzhou, na província de Guangdong. Em 2015, a ABC News mostrou um antigo prédio residencial cercado por um viaduto circular recém construído. Alguns moradores haviam recusado sair de um bloco marcado para demolição desde 2008.

A solução encontrada foi construir a grande via ao redor do edifício. Mais uma vez, o resultado chamou atenção porque a obra não apagou a resistência, apenas a enquadrou dentro da nova infraestrutura.

Segundo a ABC News, muitos moradores de “nail houses” recusam sair por acreditar que a compensação oferecida não é suficiente. Esse ponto aparece em diferentes casos, de Wenling a Jinxi, sempre com o mesmo pano de fundo: a disputa entre grandes projetos urbanos e moradores que não aceitam os termos da remoção.

A disputa por trás da imagem viral

As “nail houses” não são apenas curiosidades arquitetônicas. Elas revelam uma tensão social mais profunda, em um país que passou por transformações urbanas intensas e obras de grande escala.

China Daily citou o professor Shen Kui, da Universidade de Pequim, ao explicar que moradores tinham direito legal de permanecer enquanto não recebessem aquilo que buscavam, embora o governo também tivesse o dever de executar obras públicas. O mesmo especialista apontou padrões baixos de compensação em terras coletivas como uma das raízes do problema.

Reuters lembrou que a Lei de Propriedade chinesa de 2007 buscou reforçar a proteção de bens privados e conter desapropriações ilegais, embora sem privatizar plenamente terras rurais coletivas. Já a Anistia Internacional alertou, em 2012, que despejos forçados continuavam sendo uma fonte relevante de conflito na China, com compensações muitas vezes abaixo do valor real de mercado.

A casa isolada entre pistas, portanto, não chama atenção apenas por parecer impossível. Ela mostra como um imóvel comum pode se transformar em símbolo quando a cidade avança mais rápido do que o acordo entre quem constrói e quem mora.

No fim, o caso de Jinxi vai além de uma residência cercada por asfalto. Ele resume, em uma única imagem, o choque entre progresso urbano, indenização recusada e permanência, mostrando que até uma casa solitária pode obrigar uma grande obra a mudar de forma.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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