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Uma máquina de guerra de mais de 10 mil toneladas, capaz de destruir cidades inteiras, não pode simplesmente virar sucata, e desmontar um submarino nuclear aposentado virou uma das operações industriais mais perigosas do planeta, com reatores radioativos que precisam ser enterrados por séculos

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 04/06/2026 às 23:35
Atualizado em 04/06/2026 às 23:38
Assista o vídeoDesmontar um submarino nuclear aposentado é uma das operações mais perigosas do mundo, com reatores radioativos que precisam ficar isolados e enterrados por séculos.
Desmontar um submarino nuclear aposentado é uma das operações mais perigosas do mundo, com reatores radioativos que precisam ficar isolados e enterrados por séculos.
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O problema não é o tamanho, é o que fica para trás. Mesmo anos depois de desligado, o coração atômico da embarcação ainda emite radiação capaz de matar em minutos. Por isso o reator inteiro é cortado, lacrado e enterrado, enquanto o restante do aço ganha uma segunda vida pacífica.

Uma máquina de guerra de mais de 10 mil toneladas, capaz de destruir cidades inteiras, não pode simplesmente virar sucata comum. Desmontar um submarino nuclear aposentado se tornou uma das operações industriais mais perigosas e complexas do planeta, justamente porque, mesmo após décadas fora de serviço, restam em seu interior reatores e materiais radioativos que precisam ser isolados e enterrados por séculos, sob protocolos de segurança extremamente rígidos.

O processo é conduzido nos Estados Unidos em uma única instalação especializada, o Estaleiro Naval de Puget Sound, no estado de Washington, dentro de um programa oficial da Marinha americana. Antes de detalhar cada etapa, vale o contexto: trata-se de uma operação de engenharia e segurança, e não de um evento dramático ou acidente. A seguir, explicamos por que esses gigantes de aço são tão difíceis de desmontar e o que acontece, passo a passo, com cada parte da embarcação, com base em informações da Marinha e do Departamento de Energia dos Estados Unidos.

Por que um submarino nuclear não pode virar sucata comum

Desmontar um submarino nuclear aposentado é uma das operações mais perigosas do mundo, com reatores radioativos que precisam ficar isolados e enterrados por séculos.
A dificuldade começa pela própria natureza desses navios. 

Diferentemente dos submarinos convencionais a diesel, um submarino nuclear é movido por um reator que lhe permite operar por meses submerso sem reabastecer, e é justamente esse coração atômico que transforma o descarte em um enorme desafio de engenharia e de segurança radiológica, mesmo muito tempo depois de a embarcação ser desativada.

Os Estados Unidos construíram quase 200 submarinos nucleares desde o pioneiro USS Nautilus, lançado em 1954 sob a liderança do almirante Hyman Rickover, lembrado como o pai da marinha nuclear americana.

Com o fim da Guerra Fira, muitas dessas embarcações foram gradualmente aposentadas, criando um problema inédito: o que fazer com máquinas que um dia foram movidas a energia atômica e ainda guardam materiais perigosos em suas estruturas.

Submarinos lançadores de mísseis, como os da classe Ohio, chegam a carregar dezenas de mísseis de longo alcance, o que dá ideia do porte dessas embarcações.

O primeiro passo: a doca seca e a remoção do combustível

Tudo começa com a retirada da embarcação da água. 

O submarino, que pode ter quase 170 metros de comprimento, é rebocado para uma gigantesca doca seca, uma estrutura que é drenada até a embarcação ficar totalmente exposta, apoiada sobre blocos de aço, enquanto equipes de engenheiros nucleares monitoram continuamente os níveis de radiação e estabelecem zonas de acesso restrito ao redor.

O material mais perigoso a bordo é o combustível de urânio irradiado do reator, formado por cerca de 100 a 120 conjuntos.

Cada conjunto tem aproximadamente quatro metros e pesa cerca de 300 quilos, e, mesmo com o reator desligado há anos, pode emitir a um metro de distância níveis de radiação altíssimos, potencialmente fatais para quem se expuser diretamente.

Por isso, a remoção é feita por sistemas controlados remotamente, e cada conjunto é guardado em um contêiner de chumbo de paredes espessas, etapa que costuma levar de três a quatro meses.

O reator que vira um bloco lacrado

Retirar o combustível, porém, não elimina todo o perigo. 

Durante décadas de funcionamento, os nêutrons do reator bombardearam o aço ao redor, tornando o próprio metal radioativo num fenômeno conhecido como ativação, de modo que até a estrutura que envolve o reator passa a ser tratada como resíduo perigoso, o que exige uma solução especial.

Em vez de desmontar o reator peça por peça, o que seria arriscado e poderia espalhar contaminação, os engenheiros optam por remover o compartimento inteiro como uma única estrutura.

Ele é cortado com maçaricos de oxigênio e acetileno, cuja chama chega a cerca de 3.200 graus Celsius, capaz de atravessar o aço espesso do casco.

O resultado é um cilindro gigante, com aproximadamente 10 metros de comprimento, quase 9 de diâmetro e cerca de 100 toneladas, que tem todas as aberturas cobertas com chapas de aço e completamente soldadas para evitar qualquer vazamento.

Enterrado por mais de seis séculos

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O destino desse bloco lacrado é o ponto mais impressionante da operação. 

Os compartimentos de reator selados são transportados por balsa e por veículos especiais até o sítio de Hanford, no leste de Washington, onde são depositados em uma vala conhecida como Trench 94, projetada para manter sua integridade por mais de 600 anos antes de qualquer risco de vazamento, segundo avaliações da Marinha americana.

É importante corrigir um número que costuma circular: embora se fale popularmente em algumas centenas de anos, as estimativas oficiais do programa apontam que os recipientes devem permanecer seguros por mais de seis séculos, e que um vazamento real só seria possível depois de milhares de anos.

O primeiro compartimento chegou a Hanford em 1986, e desde então mais de 140 estruturas semelhantes, vindas de submarinos e outros navios nucleares, já foram enterradas ali, num dos maiores depósitos do tipo no mundo.

A descontaminação do resto da embarcação

Mesmo sem o reator, o submarino ainda não está limpo. 

Por décadas, o líquido de refrigeração circulou por quilômetros de tubulações, deixando depósitos radioativos nas superfícies metálicas, de modo que até a fina camada de óxido no interior dos canos pode continuar emitindo radiação por anos, exigindo um cuidadoso processo de limpeza química.

Para isso, técnicos vestidos com trajes de proteção vedados inspecionam cada seção em busca de pontos contaminados.

Em seguida, uma solução ácida circula pelo sistema, dissolvendo a camada de óxido radioativo, que é então capturada por resinas especiais.

Esse material vira resíduo radioativo, misturado a cimento e selado em recipientes próprios.

Componentes que não podem ser descontaminados são separados ou envoltos em concreto e enviados a depósitos de resíduos nucleares. Só depois de milhares de inspeções é que o restante do metal pode ser tratado como sucata industrial comum.

O aço de guerra que vira ponte

É na etapa final que a história ganha um contorno simbólico. 

O casco de um submarino nuclear é feito de uma liga de grau militar, com 8 a 10 centímetros de espessura, projetada para resistir à pressão de centenas de metros de profundidade, e por isso precisa ser cortado com cortadores de plasma e lanças de oxigênio que atingem temperaturas altíssimas, na casa dos milhares de graus, capazes de derreter o aço em segundos.

Uma vez certificado como livre de contaminação, esse aço de altíssima resistência, rico em níquel, cromo e molibdênio, é fundido em fornos elétricos e transformado em chapas novas, que podem virar vigas de pontes e componentes de infraestrutura.

Cobre, titânio e alumínio também são recuperados e reaproveitados.

Assim, o metal que um dia navegou silenciosamente sob os oceanos como parte de uma arma de guerra ganha uma segunda vida em obras civis, num paradoxo curioso da tecnologia moderna.

Um desafio que o Brasil também vai enfrentar

O tema tem relevância crescente para o país. 

O Brasil desenvolve, no âmbito do seu programa de submarinos, o Álvaro Alberto, que será o primeiro submarino nuclear brasileiro, o que significa que, no futuro, o país também terá de lidar com o complexo desafio de operar e, um dia, descartar com segurança esse tipo de embarcação e seus materiais radioativos.

Por isso, acompanhar como potências como os Estados Unidos resolvem o desmantelamento de submarinos nucleares ajuda a entender a dimensão técnica, ambiental e financeira que acompanha o ingresso em um seleto grupo de países com propulsão nuclear naval.

Não se trata apenas de construir e operar a embarcação, mas de assumir um compromisso de longuíssimo prazo com a segurança nuclear, que se estende por séculos após o fim da vida útil do submarino.

O desmantelamento de um submarino nuclear é uma daquelas operações que mostram o quanto a tecnologia de guerra carrega responsabilidades que duram muito além do campo de batalha.

Da remoção cuidadosa do combustível ao enterro do reator por mais de seiscentos anos, cada etapa revela a complexidade de lidar com o legado da era atômica.

Ao mesmo tempo, o reaproveitamento do aço e de outros metais em obras civis traz uma mensagem simbólica poderosa: a de que até as máquinas criadas para a destruição podem, no fim de sua jornada, contribuir para usos pacíficos.

E você, já tinha ideia da complexidade e dos riscos envolvidos no desmantelamento de um submarino nuclear? O que acha do fato de esses reatores precisarem ficar isolados por séculos? Deixe seu comentário, compartilhe sua opinião e ajude a divulgar a matéria para quem se interessa por tecnologia, engenharia naval e energia nuclear.

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