Ele trocou o inverno de Toronto por uma cidade do Vale Europeu que muitos brasileiros nem conhecem, onde o filho anda de bicicleta sozinho e a picanha custa o preço de uma refeição comum. Mas, depois de cinco anos, sua avaliação foge do clichê do paraíso, e a família já prepara a próxima mudança.
Um canadense que já morou no Sri Lanka, na Índia e em Portugal escolheu a pequena Timbó, no interior de Santa Catarina, para criar os três filhos. Atraído principalmente pela segurança e pelo clima, ele faz um relato sincero sobre as vantagens e também os limites da vida de estrangeiro no sul do Brasil, fugindo da imagem idealizada que costuma circular nas redes sociais, num depoimento que mistura encantamento e realismo.
A história é de Saravan, que viveu quase 30 anos no Canadá antes de se mudar com a esposa, brasileira, e os filhos para o Brasil, chegando a Timbó em janeiro de 2021, logo após a pandemia. O relato foi registrado em uma entrevista em vídeo. Vale deixar claro, desde já, que as impressões e os valores citados ao longo do texto são da experiência pessoal dele, e não dados oficiais, e que cada família vive a mudança de país de forma diferente. Ainda assim, sua visão após cinco anos no município oferece um retrato honesto, com pontos positivos e ressalvas, como veremos a seguir.
Por que um canadense trocou Toronto por Timbó

Segundo Saravan, o principal motivo foi o clima, já que ele não gostava do inverno rigoroso do Canadá, especialmente com três crianças cheias de energia presas dentro de casa, além da atração pela praia, pela sensação de segurança e por um custo de vida considerado mais baixo, somados ao fato de a esposa ser brasileira e falar português.
-
Uma máquina de guerra de mais de 10 mil toneladas, capaz de destruir cidades inteiras, não pode simplesmente virar sucata, e desmontar um submarino nuclear aposentado virou uma das operações industriais mais perigosas do planeta, com reatores radioativos que precisam ser enterrados por séculos
-
Escassez de mão de obra volta a preocupar o Canadá: aposentadorias já tiram 25,5 mil trabalhadores por mês do mercado e país pode voltar a enfrentar falta de gente mesmo com desemprego ainda elevado
-
No Brasil, pescadores viram “faxineiros” dos manguezais e removem 46 toneladas de lixo para tentar ressuscitar berçários naturais sufocados por plástico, pneus, sofás e mais de 1 milhão de itens descartados nas baías de Guanabara e Sepetiba
-
Mais de 50 praias, 766 espécies marinhas e areia naturalmente radioativa no litoral: cidade brasileira conhecida como “Cidade Saúde” atraiu até Garrincha, ídolo da Seleção e do Botafogo, virou destino de quem busca alívio para dores e intriga pesquisadores após estudos apontarem menor incidência de câncer de mama
Ele conta que, como trabalha de forma remota e não tinha vínculo profissional que o prendesse ao Canadá, as opções de mudança se resumiam a lugares onde se falasse inglês ou português, o idioma da esposa. Assim, a escolha ficou entre Portugal e Brasil.
Timbó, no Vale Europeu catarinense, entrou na rota por indicação de amigos durante a pandemia, que a descreveram como uma cidade pequena, organizada e muito voltada para a família, com tudo o que era necessário para o dia a dia.
A cidade pequena que poucos estrangeiros conhecem
Timbó não é um destino óbvio para quem vem de fora do país.
Conhecida como a Pérola do Vale, a cidade de cerca de 45 mil habitantes fica no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, e já foi eleita a melhor cidade pequena do Brasil para se viver, na categoria de municípios com até 50 mil habitantes, em levantamento da revista IstoÉ com a agência Austin Rating, destacando-se por segurança, educação e gestão pública.
Para Saravan, é justamente essa escala que torna a vida agradável.
Ele descreve Timbó como uma cidade muito organizada, com o centro no meio e os bairros ao redor, de modo que levar e buscar os filhos leva poucos minutos de carro, às vezes dá até para ir a pé.
A região concentra outras cidades conhecidas pela qualidade de vida, como Blumenau, Pomerode e Jaraguá do Sul, além de Joinville, frequentemente lembradas em rankings nacionais de melhores lugares para morar.
Segurança: o que mais pesou na escolha
Esse foi, segundo ele, um dos pontos decisivos.
Saravan, que morou tanto no Nordeste quanto no Sul do Brasil, faz questão de diferenciar as regiões, afirmando que Santa Catarina se aproxima de cidades como Toronto em termos de segurança, bem diferente da imagem de violência associada a grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, que costumam dominar as manchetes vistas no exterior.
Ele ilustra a tranquilidade contando que o filho, de 12 anos, anda de bicicleta sozinho pela cidade, algo que lhe dá segurança como pai.
Por outro lado, não romantiza o país inteiro: relata ter conhecimento de casos de violência contra turistas em áreas movimentadas de grandes cidades e reforça que o Brasil é enorme, do tamanho de toda a Europa Ocidental, com realidades muito distintas entre uma região e outra.
Para ele, generalizar o país a partir das notícias dos grandes centros é um erro comum.
Custo de vida e a ressalva que muita gente esquece
Aqui o relato ganha um tom especialmente honesto e importante.
Saravan afirma que viver em Santa Catarina é cerca de 50% mais barato do que em Toronto, mas faz uma ressalva fundamental: isso só é verdade para quem ganha em moeda forte, como dólar ou por trabalho remoto, porque, para quem depende de um salário local, ter uma vida confortável seria bem mais difícil, e até pior em alguns aspectos.
Entre os exemplos que cita, com valores da sua experiência pessoal, estão o aluguel que pagava, em torno de 2 mil a 2,5 mil reais por mês, a escola dos filhos, cerca de 1.300 reais mensais, e refeições em restaurantes por quilo na faixa de 35 a 50 reais.
Ele se diz impressionado com o preço da carne, observando que cortes como a picanha podem custar bem menos do que no Canadá, e brinca que comer de forma saudável no Brasil chega a ser mais barato do que uma refeição de fast-food, o que considera uma grande vantagem para a família.
A surpresa com a saúde pública
Um dos aspectos que mais o surpreenderam foi o atendimento de saúde.
Segundo Saravan, em Timbó o hospital público funciona muito bem, a ponto de sua esposa ter feito uma cesárea na rede pública, com toda a estrutura e equipe do hospital, pagando apenas o cirurgião de forma particular, e de ele próprio ter sido atendido em cerca de dez minutos ao sofrer uma queimadura num acidente com churrasqueira, sem a longa espera que enfrentaria no Canadá.
Ele compara o serviço ao do Canadá, dizendo que a qualidade foi semelhante, mas sem as várias horas de espera típicas de um pronto-socorro canadense.
Mais uma vez, porém, evita generalizar: lembra que, quando morou em Natal, no Nordeste, a experiência foi diferente, e que ali considerava necessário ter plano de saúde particular.
A lição que tira é que a qualidade dos serviços públicos varia bastante conforme a região do Brasil, e que sua experiência positiva é específica daquela cidade.
Os limites da vida no Brasil, segundo ele
É no balanço final que o relato se mostra mais valioso e equilibrado.
Mesmo elogiando muito Timbó, Saravan aponta limites concretos, como a oferta restrita de culinária internacional fora do que se cozinha em casa e a dificuldade de alugar casas no padrão a que estava acostumado no Ocidente, já que, segundo ele, é mais fácil comprar do que alugar imóveis de melhor qualidade na região.
Mais do que isso, ele revela que a família já planeja a próxima mudança, de olho em destinos como a Malásia, na cidade de Penang, ou a Espanha, em Valência.
O motivo não é insatisfação com a cidade, mas a busca por escolas internacionais completas e por treinamento esportivo profissional para os filhos, já que a filha quer seguir no tênis e o filho no futebol.
Apesar disso, ele afirma que pretende manter o terreno que comprou em Timbó, sem descartar voltar no futuro.
O conselho de quem já trocou de país várias vezes
Talvez a parte mais útil do depoimento seja o alerta que ele faz.
Saravan afirma que cerca de um terço dos estrangeiros que se mudam, sejam aposentados ou famílias, acaba voltando ao país de origem em um ano, e que o principal motivo são as expectativas erradas, alimentadas por influenciadores que mostram apenas o lado positivo da vida no exterior, porque o algoritmo das redes premia esse tipo de conteúdo.
Seu conselho é mudar pelos motivos certos, e não para fugir de problemas, lembrando que a fase de encantamento inicial, parecida com a de um turista, costuma durar poucos meses, e que questões mal resolvidas tendem a reaparecer no novo lugar.
Ele também recomenda ter uma fonte de renda estável, como aposentadoria ou trabalho remoto, em vez de depender de salário local.
É um olhar maduro de quem, tendo saído do Sri Lanka ainda jovem por causa da guerra, aprendeu a diferença entre migrar por sobrevivência e migrar por escolha.
O relato do canadense que escolheu Timbó para criar os filhos é valioso justamente por não cair no clichê do paraíso tropical.
Ele reconhece as muitas qualidades do sul do Brasil, como segurança, clima, custo acessível para quem tem renda em moeda forte e uma saúde pública que o surpreendeu, mas também expõe limites reais e os cuidados que qualquer pessoa deveria ter antes de mudar de país.
Mais do que uma propaganda ou uma crítica, é o testemunho honesto de quem viveu em vários cantos do mundo e encontrou, ao menos por um tempo, um lar tranquilo no interior catarinense.
E você, o que acha da escolha desse canadense por uma cidade pequena do interior de Santa Catarina? Conhece estrangeiros que se mudaram para o sul do Brasil? Deixe seu comentário, compartilhe sua opinião sobre qualidade de vida no interior e ajude a divulgar a matéria para quem se interessa por essas histórias de quem cruza o mundo em busca de um bom lugar para viver.


-
1 pessoa reagiu a isso.