Entre muros, erosão e adaptação climática, ilhas do Pacífico testam os limites da engenharia para conter o avanço do mar e proteger áreas habitadas, em um cenário que mobiliza comunidades, governos e especialistas.
Em várias ilhas do Pacífico, a elevação do nível do mar deixou de ser apenas uma projeção climática e passou a orientar obras, políticas públicas e decisões locais.
Em Samoa, nas Ilhas Marshall e em Tuvalu, comunidades costeiras recorreram a muros, enrocamentos e áreas aterradas para tentar reduzir a erosão e conter alagamentos provocados por marés, ressacas e tempestades.
Em Nanumea, atol de Tuvalu, a proposta discutida por moradores vai além da proteção de trechos isolados da costa: o plano prevê uma barreira em torno de toda a ilha.
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A iniciativa expõe um dos principais impasses da adaptação climática em pequenos Estados insulares.
De um lado, obras costeiras oferecem proteção imediata para moradias, vias e estruturas essenciais.
De outro, pesquisadores e organismos internacionais apontam que esse tipo de intervenção exige manutenção constante, demanda alto investimento e não interrompe a tendência de elevação do nível do mar, que deve continuar por longo prazo.
Como o avanço do mar mudou a rotina em ilhas do Pacífico
Na vila de Lauli’i, em Samoa, a pressão do mar já havia se tornado parte da rotina antes da construção mais recente.
A água passou a invadir casas e superou uma antiga estrutura costeira erguida no mar.
Os danos atingiram residências e também túmulos de famílias da comunidade.
Em maio de 2025, a conclusão de um novo muro financiado pelo governo da Nova Zelândia foi recebida pelos moradores como uma medida de proteção diante das ressacas.
O caso de Lauli’i ajuda a explicar por que esse tipo de obra se multiplicou em partes do Pacífico.
Em ilhas baixas, pequenas variações no nível do mar já ampliam o alcance das ondas, aceleram a erosão e favorecem a entrada de água salgada em áreas ocupadas.
Quando casas, estradas, igrejas e cemitérios ficam próximos da faixa costeira, qualquer perda de terreno passa a ter impacto direto sobre a vida cotidiana.

Nesse contexto, a construção de barreiras costuma surgir como uma resposta imediata.
Especialistas em engenharia costeira e adaptação climática, no entanto, observam que o comportamento do litoral não depende apenas da presença de um muro.
Estruturas rígidas podem alterar a dinâmica das ondas, intensificar a erosão em áreas vizinhas, escavar o fundo marinho à frente da obra e deslocar o problema para outros pontos da costa.
Os limites dos muros costeiros contra a elevação do nível do mar
Pesquisadores também registram dificuldades de manutenção, sobretudo em localidades rurais e remotas.
Em ilhas menores, onde equipamentos, materiais e recursos técnicos são mais escassos, muitas estruturas acabam se deteriorando rapidamente.
Estudo publicado em 2021 descreveu trechos do litoral rural do Pacífico como áreas marcadas por restos de muros costeiros que não resistiram ao mar.
Em trabalhos anteriores, o pesquisador Patrick Nunn apontou que, em média, essas estruturas podem colapsar em prazo relativamente curto quando não contam com manutenção compatível com sua função.
A discussão, portanto, não se resume à viabilidade técnica de erguer um muro, mas à capacidade de sustentá-lo ao longo do tempo.
Países como os Países Baixos utilizam diques, barragens e sistemas hidráulicos como parte central da ocupação do território.
Nas ilhas do Pacífico, porém, o contexto é diferente.
Há menos terra disponível, menor capacidade fiscal e custos logísticos elevados para transportar máquinas, pedras e concreto até áreas isoladas.
Em Ebeye, uma das áreas mais populosas das Ilhas Marshall, esse desafio aparece de forma concreta.
O projeto em execução prevê o uso de cerca de 65 mil toneladas de rocha transportadas dos Emirados Árabes Unidos.

A obra, apoiada pelo Banco Mundial e pelo Fundo Verde para o Clima, foi planejada para reduzir erosão e inundações em uma ilha onde casas e equipamentos urbanos ficam muito próximos do oceano.
O caso mostra que a engenharia costeira pode ser aplicada em ilhas de baixa altitude, mas evidencia também o custo material e financeiro dessas intervenções.
Além da execução, essas estruturas exigem monitoramento e reparos contínuos, sobretudo em regiões sujeitas a tempestades e variações intensas de maré.
Por isso, pesquisadores da área costumam tratar os muros costeiros como uma medida de proteção localizada, e não como solução definitiva para a elevação do mar.
Por que a terra segue no centro da adaptação climática
Ainda assim, a insistência nesse tipo de obra não decorre apenas de cálculo técnico.
Pesquisas sobre adaptação em pequenas ilhas mostram que a terra ocupa papel central na organização social, na memória coletiva e nos modos de vida.
Em muitas comunidades, a decisão de tentar proteger primeiro o local onde as famílias sempre viveram antecede qualquer debate sobre mudança para outras áreas.
Esse aspecto aparece com frequência em estudos sobre deslocamento planejado no Pacífico.
Segundo pesquisadores da área, antes de considerar a realocação, muitas aldeias tentam esgotar as alternativas de proteção física do território.
A construção de um muro, nesse cenário, é vista por parte dos moradores como uma forma de ganhar tempo e adiar a necessidade de abandonar áreas de valor histórico, cultural e familiar.
A proposta de Nanumea para cercar toda a ilha
É nesse ponto que o caso de Nanumea chama atenção.
Em Tuvalu, país formado por ilhas e atóis de baixa altitude, obras recentes já reforçaram trechos da costa e ampliaram áreas protegidas.
O projeto de adaptação costeira incluiu a criação de cerca de sete hectares de terra recuperada em Funafuti, capital do país, além de intervenções em Nanumea com blocos de concreto interligados e reforço de estruturas litorâneas.
Mesmo com essas obras, um grupo de moradores defende que a proteção em segmentos isolados não é suficiente.
A proposta conhecida como Nanumea Salvation Seawall Project prevê uma barreira contínua ao redor de toda a ilha.
Segundo os defensores da ideia, uma estrutura desse tipo poderia reduzir o impacto de ondas fortes e de eventos extremos em diferentes pontos da costa.
Até agora, porém, o projeto ainda depende de financiamento para estudos de viabilidade.
Esse detalhe é central.
Cercar uma ilha inteira não significa apenas ampliar um muro já existente.
Uma intervenção desse porte exigiria análise sobre correntes, transporte de sedimentos, drenagem, circulação de água entre oceano e lagoa e efeitos sobre a própria dinâmica costeira.
Especialistas observam que, em situações assim, a obra precisa ser tratada como um sistema permanente de engenharia, com exigências técnicas e financeiras contínuas.

Soluções baseadas na natureza e outras saídas em debate
Ao mesmo tempo, outras estratégias seguem em discussão na região.
Pesquisadores citam a recuperação de ecossistemas costeiros, o uso de manguezais, taludes rochosos menos verticais e vegetação como parte de abordagens que tentam reduzir a força das ondas sem depender apenas de estruturas rígidas.
Essas soluções, no entanto, também variam conforme o tipo de ilha, a densidade populacional e a infraestrutura existente.
Em áreas urbanas mais adensadas, onde se concentram aeroporto, hospital, escolas e sedes administrativas, a defesa costeira costuma ser tratada por governos e técnicos como prioridade.
Já em ilhas vulcânicas com relevo mais alto, ou em localidades onde há possibilidade de deslocamento interno, pesquisadores apontam que a mudança gradual para áreas mais elevadas pode ser considerada como alternativa de prazo mais longo.
No Pacífico, a adaptação climática não segue um único modelo.
Em alguns casos, a resposta passa por obras de grande porte.
Em outros, envolve soluções baseadas na natureza, reorganização do uso do solo ou planejamento de realocação.
O avanço do mar, porém, impõe uma mesma pergunta às comunidades insulares: o que deve ser protegido primeiro quando o território disponível é limitado e a pressão costeira continua aumentando?


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