Um megaprojeto hidrelétrico no Tibete recoloca a China no centro do debate global sobre energia, impactos ambientais e efeitos físicos extremos, ao ser comparado à barragem de Três Gargantas e a cálculos científicos sobre a redistribuição de grandes massas de água no planeta.
A China deu início a um megaprojeto hidrelétrico no rio Yarlung Zangbo, no Tibete, que deve reunir cinco usinas em cascata e gerar cerca de 300 bilhões de kWh por ano, segundo informações divulgadas pela agência estatal chinesa Xinhua e reproduzidas por veículos internacionais.
O empreendimento, estimado em aproximadamente US$ 170 bilhões, valor que em conversões amplamente divulgadas corresponde a cerca de R$ 875 bilhões, voltou a atrair atenção global pelo seu porte e por comparações com a usina de Três Gargantas, considerada até hoje a maior do mundo.
A discussão também trouxe novamente ao debate um efeito associado a grandes barragens: a redistribuição de grandes massas de água, que, de acordo com cálculos científicos, pode provocar alterações extremamente pequenas em parâmetros físicos do planeta, como a duração do dia e a posição do eixo de rotação.
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Barragem de Três Gargantas e rotação da Terra
O vínculo entre megabarragens e a rotação da Terra costuma ser associado à represa de Três Gargantas, construída no rio Yangtzé.
O princípio físico citado por pesquisadores é que a concentração de grandes volumes de água em um único reservatório altera o momento de inércia do planeta, o que pode resultar em variações mínimas na rotação.

Em 2005, o geofísico Benjamin Fong Chao, do Goddard Space Flight Center, ligado à Nasa, estimou que, com o reservatório completamente cheio, Três Gargantas poderia aumentar a duração do dia em cerca de 0,06 microssegundo.
Em cálculos divulgados posteriormente em materiais de divulgação científica, o mesmo fenômeno foi associado a um deslocamento aproximado de 2 centímetros no eixo da Terra, valor considerado imperceptível no cotidiano.
Essas estimativas não se referem a uma medição observável no dia a dia, mas a cálculos teóricos baseados na redistribuição de massa.
Especialistas explicam que esse tipo de variação pode ocorrer sempre que grandes volumes de água, gelo ou rochas se deslocam, seja por ação humana ou por processos naturais, como terremotos e derretimento de geleiras.
Capacidade do reservatório e impactos conhecidos
O reservatório da usina de Três Gargantas tem capacidade próxima de 39 bilhões de metros cúbicos de água, segundo dados técnicos amplamente divulgados em estudos e relatórios internacionais.
Esse volume ajuda a explicar por que a obra é frequentemente citada como referência quando se discute o impacto físico global de estruturas construídas pelo ser humano.
Além das discussões teóricas sobre a rotação do planeta, a barragem também é conhecida por efeitos diretos e amplamente documentados, como o deslocamento de populações, alterações ambientais ao longo do rio Yangtzé e preocupações geológicas em áreas do entorno.
Esses impactos, no entanto, concentram-se principalmente na região da obra e não têm relação prática com a variação microscópica do tempo de rotação da Terra.
Nova hidrelétrica no Tibete e tensões regionais
O novo complexo hidrelétrico anunciado para o rio Yarlung Zangbo está localizado em uma área considerada estratégica.
O curso d’água nasce no planalto tibetano e, ao atravessar fronteiras, passa a ser chamado de Brahmaputra, abastecendo milhões de pessoas na Índia e em Bangladesh.
Por esse motivo, autoridades e especialistas desses países têm manifestado preocupação com possíveis impactos no fluxo do rio, no transporte de sedimentos e na gestão de recursos hídricos.
Reportagens internacionais também destacam que a região apresenta histórico de atividade sísmica, o que reforça a atenção sobre padrões de segurança e engenharia adotados no projeto.
O governo chinês afirma que a obra faz parte de sua estratégia de ampliação da matriz energética limpa e que os impactos ambientais e transfronteiriços serão controlados.
Ainda assim, analistas ouvidos por agências de notícias apontam que a escassez de informações detalhadas sobre o empreendimento contribui para a cautela de países a jusante.
Escala do projeto, geração de energia e cronograma
Descrito por autoridades chinesas como o maior projeto hidrelétrico já planejado no país, o complexo no Tibete deve superar a capacidade instalada de Três Gargantas.
A meta divulgada é produzir cerca de 300 bilhões de kWh por ano, volume suficiente para atender grandes centros urbanos e reduzir o uso de fontes fósseis, segundo dados oficiais.
Apesar da magnitude anunciada, informações públicas sobre o cronograma detalhado, o número de pessoas potencialmente deslocadas e os estudos ambientais completos ainda são limitadas em reportagens internacionais.
O que se sabe, com base em declarações oficiais, é que a conclusão está prevista para a próxima década, seguindo o padrão de longos períodos de construção observados em projetos semelhantes na China.
Debate científico sobre efeitos físicos globais
Quando o tema da rotação do planeta surge associado ao novo empreendimento, especialistas costumam ressaltar que os dados mais citados até hoje se referem às estimativas feitas no contexto da barragem de Três Gargantas.
Não há, até o momento, divulgação de cálculos específicos e oficiais que indiquem qual seria o impacto potencial do novo reservatório do Tibete nesses mesmos parâmetros.
Pesquisadores explicam que, em termos científicos, qualquer redistribuição significativa de massa na Terra pode gerar efeitos mensuráveis em escalas extremamente pequenas.
Ainda assim, essas variações permanecem no campo teórico e não produzem alterações perceptíveis na duração dos dias ou na vida cotidiana da população.
Diante da dimensão do projeto e de sua localização em um rio internacional, o debate tende a se concentrar menos em microssegundos no relógio e mais em questões práticas, como segurança, transparência e cooperação entre países que compartilham o mesmo curso d’água.


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