A Ucrânia apresentou o Datum — um drone submarino autônomo que mergulha a trezentos metros de profundidade, navega sem guia remota e pode atacar navios de superfície ou embarcações submersas sem que nenhum operador humano precise estar no loop em tempo real, num avanço que está mudando silenciosamente a doutrina naval de países que não têm submarinos mas precisam de poder naval de negação de área.
O que é o Datum e o que ele consegue fazer

O Datum é um veículo subaquático não tripulado — UUV, na sigla em inglês — desenvolvido pela Datum Systems, empresa ucraniana de tecnologia de defesa que emergiu das cinzas da guerra de 2022. Ao contrário dos drones de superfície Sea Baby e Magura que a Ucrânia já usou para atacar navios russos no Mar Negro, o Datum opera completamente submerso.
O veículo tem formato de torpedo alongado com superfícies de controle traseiras e propulsão elétrica silenciosa. Comprimento de cerca de quatro metros, capacidade de carga de até 200 quilos — suficiente para uma ogiva de demolição ou sensores de vigilância de longa duração. A autonomia reportada chega a 72 horas em modo de patrulha.
O sistema de navegação combina INS — inertial navigation system — com SLAM subaquático, uma técnica de mapeamento simultâneo por sonar que permite ao drone navegar em águas desconhecidas sem GPS, que não penetra a coluna d’água. Quando chega à distância de ataque, usa sonar passivo para identificar a assinatura acústica do alvo e decide o vetor de aproximação de forma autônoma.
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Por que isso importa além da Ucrânia
A guerra naval moderna foi reinventada pelo Mar Negro. A Rússia tinha a maior força de superfície da região. A Ucrânia, sem marinha convencional depois de 2022, improvissou uma doutrina de negação de área usando drones de superfície, ataques com mísseis anti-navio e operações especiais. O resultado: a frota russa do Mar Negro perdeu o contraguardo, o Moskva — o maior navio de guerra afundado em combate desde a Segunda Guerra Mundial — e se retirou de Sevastopol.
O Datum leva essa doutrina para uma nova dimensão. Um país sem submarinos convencionais pode agora operar capacidade de negação subaquática a uma fração do custo. Um submarino convencional tipo Varshavyanka — que a Rússia opera no Mar Negro — custa entre 300 e 500 milhões de dólares. Um Datum custa ordens de grandeza menos e pode ser produzido em dezenas.
Para países como Finlândia, Polônia, Romênia e outros que têm litoral mas não têm submarinos nucleares ou convencionais em número suficiente, o conceito é estrategicamente interessante.
Os desafios técnicos que ninguém menciona

A autonomia subaquática é um problema difícil. Sensores de sonar passivo são excelentes para detectar navios de superfície — cujos motores, hélices e sistemas auxiliares emitem assinaturas acústicas razoavelmente previsíveis — mas têm limitações contra submarinos modernos com revestimento anecóico.
A comunicação também é um desafio. Rádio não penetra a água a qualquer profundidade útil. As únicas formas de se comunicar com um UUV em operação são ELF — frequências extremamente baixas, que exigem antenas quilométricas — ou comunicação acústica subaquática, que tem largura de banda muito limitada. Na prática, isso significa que o Datum precisa tomar suas próprias decisões táticas por longos períodos — o que levanta questões sérias de controle, identificação de alvos e direito internacional de conflito armado.
A gente ainda não tem um quadro jurídico estabelecido para drones armados que tomam decisões de ataque de forma autônoma. Essa lacuna vai precisar ser resolvida — e provavelmente vai ser resolvida primeiro na prática, e depois na lei.
O que a Rússia vai fazer em resposta
A Marinha Russa opera helicópteros Ka-27 especializados em guerra antisubmarina, além de sonobóias e torpedos de perseguição. Contra um UUV como o Datum, as contramedidas convencionais funcionam — mas exigem que você saiba onde procurar.
Um drone que lança às 23h a cinquenta quilômetros de distância e navega em silêncio por doze horas antes de chegar à zona de ataque é muito mais difícil de detectar do que um periscópio de submarino convencional. A assimetria de custo e de detecção é o argumento central do Datum como sistema de arma.
Para a indústria naval brasileira, que desenvolve o submarino convencional Álvaro Alberto e planeja o primeiro submarino nuclear nacional, o Datum representa um aviso: a guerra subaquática do futuro vai ter muito mais atores, e nem todos vão ter casco de aço.
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Você acha que drones submarinos autônomos armados vão mudar o equilíbrio de poder naval nos próximos dez anos, ou os sistemas de defesa antisubmarina vão acompanhar o ritmo? Conta aqui embaixo.
