A União Europeia colocou a pá no chão em Cologne, na Alemanha, para o que vai se tornar o sistema nervoso das comunicações militares do continente — um hub terrestre do programa GOVSATCOM que vai conectar dezesseis países num canal criptografado de satélites governamentais que nenhum jammer russo consegue derrubar.
O que é o GOVSATCOM e por que é diferente de um satélite qualquer

O GOVSATCOM — Governmental Satellite Communications — é o braço de comunicações do programa espacial da União Europeia. Não é um satélite novo: é a espinha dorsal terrestre que distribui, roteia e protege sinais militares entre governos, forças armadas e serviços de emergência em toda a Europa.
A distinção importa. Qualquer país pode contratar satélites comerciais de comunicação. O que a Europa está construindo em Cologne é diferente: uma infraestrutura soberana, com criptografia de ponta a ponta controlada pela UE e sem dependência de contratos com empresas americanas, russas ou chinesas. Quando estiver operacional, o hub vai gerenciar o acesso de dezesseis estados-membros a canais que sobrevivem a ataques de jamming, spoofing e guerra eletrônica convencional.
A EUSPA — Agência da União Europeia para o Programa Espacial — vai operar o hub em parceria com a agência espacial alemã DLR. A escolha de Cologne tem história: a cidade já abriga o Centro Europeu de Astronautas da ESA e tem décadas de expertise em comunicações espaciais operacionais.
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O que a Ucrânia ensinou sobre comunicações em guerra
A cerimônia de groundbreaking aconteceu enquanto sistemas de jamming russos continuam causando problemas em rotas aéreas sobre o Báltico. A guerra na Ucrânia provou em campo o que os estrategistas debatiam em teoria: quem controla o espectro eletromagnético controla o campo de batalha.
Unidades ucranianas relataram quedas de GPS e interferências causadas por jammers russos Krasukha e Borisoglebsk-2. A resposta foi improviso: rádios Starlink, comunicação analógica de emergência, protocolos offline. O GOVSATCOM foi desenhado exatamente para não precisar desse improviso. Frequências militares dedicadas, roteamento redundante por múltiplos satélites e criptografia que exige décadas para ser quebrada por computação clássica.
Fico imaginando o que os chefes de estado dos países bálticos sentiram ao ver a notícia — são eles que vivem na sombra de Kaliningrado, onde a Rússia instalou sistemas S-400 e jammers de longa distância capazes de cobrir todo o Golfo da Finlândia.
Dois hubs, uma rede: a lógica da redundância

Cologne é o primeiro de dois hubs previstos. O segundo vai ser instalado em Portugal, criando redundância geográfica — se um sofrer ataque cibernético ou físico, o outro assume o controle sem interrupção.
É a mesma lógica dos data centers distribuídos que qualquer empresa de tecnologia usa, aplicada à defesa espacial de um continente. A diferença é que o custo de uma falha não é uma página fora do ar: é um general sem comunicação segura com suas tropas num momento crítico.
A construção física do prédio vai levar cerca de dois anos, com operação plena prevista para 2028. Até lá, o serviço GOVSATCOM já está ativo em modo limitado, usando capacidade de satélites comerciais europeus contratados temporariamente — incluindo a frota da SES, luxemburguesa que opera mais de vinte satélites em órbita geoestacionária.
O custo total do programa GOVSATCOM para o período 2021-2027 está orçado em 819 milhões de euros dentro do regulamento do programa espacial europeu. Para ter referência: é o equivalente a construir dois porta-aviões médios — mas em infraestrutura que vai durar décadas e proteger todos os governos da UE ao mesmo tempo.
O que o Brasil pode aprender com Cologne
Nos últimos dez anos, a China lançou mais de trezentos satélites militares e de uso duplo. Os EUA têm a constelação mais robusta do mundo. A Europa decidiu que não dá mais para depender de acordos bilaterais que podem ser renegociados quando o vento político muda. O GOVSATCOM é a declaração de independência estratégica europeia no domínio espacial.
O Brasil opera o SGDC-1 e o SGDC-2 — satélites geoestacionários de comunicação militar que representam avanços reais na soberania espacial nacional. Mas a infraestrutura terrestre de gestão e distribuição ainda é centralizada e vulnerável. O modelo de Cologne — hub físico protegido, redundância geográfica e criptografia soberana sem dependência externa — é o próximo passo que o Programa Estratégico de Sistemas Espaciais brasileiro precisa planejar.
A diferença de escala entre o Brasil e a União Europeia existe. A arquitetura do problema, não.
Leia também: a Índia que colocou 52 satélites espiões em órbita | a Polônia que assumiu controle de sua constelação de satélites radar.
Você acha que o Brasil deveria acelerar seu próprio hub de comunicações militares via satélite, ou prefere apostar em parcerias estratégicas com aliados? Comenta aqui embaixo.
