A Nova Zelândia terminou de perfurar o Big Ben — um poço geotérmico na Zona Vulcânica de Taupō que atingiu temperaturas acima de quatrocentos graus Celsius a menos de quatro quilômetros de profundidade, entrando no território do que os cientistas chamam de geotermia super-quente: uma categoria que pode multiplicar por dez a quantidade de energia extraída por metro perfurado em relação aos poços geotérmicos convencionais.
A diferença entre geotérmico convencional e super-quente

Geotérmico convencional você já conhece: perfura, encontra água quente ou vapor a 150-250 graus Celsius, usa esse calor para girar turbinas, gera eletricidade. É uma tecnologia centenária, estável e renovável — mas limitada em densidade energética. Um poço convencional produz tipicamente entre 5 e 10 megawatts elétricos.
Geotérmico super-quente é diferente. Acima de 350-400 graus Celsius e a pressões de mais de 220 bar, a água não existe nem como líquido nem como vapor tradicional: ela entra no estado supercrítico, onde tem propriedades intermediárias entre os dois. Nesse estado, o fluido supercrítico carrega cinco a dez vezes mais energia por quilograma do que o vapor geotérmico convencional.
O resultado prático: o mesmo poço que produziria 7 megawatts em condições convencionais pode produzir 50 megawatts em condições supercríticas. É a diferença entre uma usina modesta e uma usina industrial.
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Por que Taupō e por que agora
A Zona Vulcânica de Taupō, no centro da Ilha Norte da Nova Zelândia, é uma das regiões geotermicamente mais ativas do planeta. O lago Taupō, que ocupa a caldera do maior supervulcão da história humana, tem câmaras magmáticas a profundidades relativamente rasas — o que significa que calor extremo está acessível a custos de perfuração ainda gerenciáveis.
A Todd Energy, empresa neozelandesa, conduziu a perfuração do Big Ben com financiamento parcial do governo neozelandês dentro do programa de energia limpa. O poço atingiu 3.800 metros de profundidade antes de encontrar as condições supercríticas esperadas. Nas primeiras medições, os sensores registraram 427 graus Celsius e pressões de 340 bar — bem dentro do regime supercrítico.
Agora começa a parte mais difícil: extrair esse fluido sem destruir o equipamento. Materiais convencionais de poço não sobrevivem a temperaturas acima de 350 graus por longos períodos. O Big Ben vai precisar de ligas metálicas especiais e técnicas de revestimento que a indústria de petróleo e gás de alta temperatura está começando a desenvolver — justamente porque o setor viu o potencial desse mercado.
O Brasil e a fronteira geotérmica que quase ninguém discute

A geotérmia no Brasil tem uma reputação de “não funciona aqui” que é parcialmente verdadeira e amplamente exagerada. É correto que o território brasileiro não tem vulcões ativos e que o gradiente geotérmico médio é baixo. Mas o estado do Rio Grande do Sul tem anomalias geotérmicas significativas no sul da bacia do Paraná, e o Nordeste tem regiões de gradiente elevado associadas a rifts antigos.
Mais importante: o modelo neozelandês de geotérmia super-quente abre perspectivas para regiões vulcânicas da América do Sul que são vizinhas ao Brasil — Andes chilenos e bolivianos, que têm o potencial geotérmico mais subutilizado do continente.
A gente ainda não tem uma política energética brasileira que leve geotérmia a sério. A Nova Zelândia já gera mais de 20% de sua eletricidade de fontes geotérmicas — e o Big Ben pode empurrar esse número para territórios ainda maiores.
Quando a geotermia super-quente chega ao mercado
A estimativa mais conservadora dos pesquisadores de Taupō é que o Big Ben pode entrar em operação de testes de produção em 2027-2028. Se a extração funcionar como planejado, o poço pode se tornar o mais produtivo da Nova Zelândia — e possivelmente do hemisfério sul.
O interesse da indústria é global. Empresas como a americana Quaise Energy e a islandesa Reykjavik Geothermal estão monitorando de perto os resultados técnicos do Big Ben. Cada poço super-quente bem-sucedido é uma prova de conceito que reduz o risco percebido para o próximo investimento.
A perfuração do Big Ben não resolve o problema energético do mundo. Mas prova que existe uma fronteira geotérmica que ainda não foi explorada — e que está literalmente abaixo dos nossos pés em dezenas de países.
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Você acha que a geotermia super-quente tem futuro em escala global, ou vai ficar restrita a regiões vulcânicas específicas? Comenta aqui o que você pensa.
