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Trump recua em parte das tarifas e Brasil vê alívio só no suco de laranja; café, carne e manga continuam pagando imposto pesado de 40%

Publicado em 16/11/2025 às 14:20
Trump tira imposto de 10%, mas mantém tarifaço sobre produtos brasileiros — só suco de laranja se livra e vira símbolo do impasse nas negociações
Trump tira imposto de 10%, mas mantém tarifaço sobre produtos brasileiros — só suco de laranja se livra e vira símbolo do impasse nas negociações
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Ajuste parcial nas tarifas dos Estados Unidos tira a alíquota extra de 10% sobre o suco de laranja brasileiro, mas deixa café, carne, manga e outros produtos agro ainda presos à sobretaxa de 40% nas exportações ao mercado americano.

Segundo informações apuradas no portal do G1, a decisão do governo Donald Trump de recuar em parte das tarifas de importação alivia um ponto muito específico da pauta brasileira: o suco de laranja. O produto, que já estava livre da sobretaxa de 40% imposta ao Brasil, agora também escapa da cobrança adicional de 10%, tornando-se o principal beneficiado desse recuo parcial, enquanto café, carne bovina, manga e outros itens seguem pagando imposto pesado.

Na prática, o que caiu foi apenas a alíquota global de 10% anunciada em abril para diversos países, inclusive o Brasil. A sobretaxa de 40% criada em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro continua valendo para boa parte das exportações brasileiras, mantendo a pressão das tarifas sobre setores como o de café, de frutas e de proteína animal em um momento em que o país tenta recompor espaço no mercado americano.

O que exatamente mudou nas tarifas

Pela nova ordem executiva assinada na sexta-feira, Trump decidiu redesenhar o alcance das tarifas de 10%, retirando esse adicional de alguns produtos listados em anexo.

Entre eles, estão itens importantes da pauta agro brasileira, como café, vários cortes de carne bovina, açaí, castanha-do-pará, tapioca, mandioca e frutas como banana, laranja e coco.

Mesmo assim, o alívio é limitado. A sobretaxa de 40% criada especificamente para punir produtos brasileiros continua em vigor para a maior parte desses itens. Isso significa que, em muitos casos, o imposto total sai de 50% para 40%, o que reduz o aperto, mas não devolve a competitividade que o Brasil tinha antes da escalada das tarifas.

Segundo o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, a parcela das exportações brasileiras isentas de qualquer tarifa extra passou de 23% para 26%, o que representa cerca de 10 bilhões de dólares em vendas aos Estados Unidos.

Ainda assim, a maior parte da pauta segue sob forte incidência de tarifas adicionais, com impacto direto sobre margens, contratos e planejamento de longo prazo das empresas.

Suco de laranja vira o grande vencedor

No meio desse tabuleiro, o suco de laranja desponta como o símbolo do alívio. As exportações do produto para os Estados Unidos somam aproximadamente 1,2 bilhão de dólares por ano, e cerca de 40% de todo o suco brasileiro enviado ao exterior tem como destino o mercado americano, com forte concentração de produção em São Paulo.

O suco já estava fora da lista da sobretaxa de 40% aplicada ao Brasil. Agora, com a retirada também da alíquota de 10%, o produto passa a escapar completamente das novas tarifas, recuperando uma condição fiscal mais próxima da que existia antes do endurecimento da política comercial americana.

Para um setor que opera com contratos de longo prazo e margens pressionadas por custos logísticos e câmbio, essa diferença de 10 pontos percentuais nas tarifas tem peso real na decisão de compra dos importadores.

A leitura no governo é que esse movimento protege uma cadeia em que o Brasil é líder consolidado e em que os Estados Unidos têm forte dependência externa, o que limita a disposição de Trump de manter tarifas elevadas sem provocar repasse de preços ao consumidor americano.

Café, carne e manga seguem sob pressão das tarifas de 40%

O quadro é bem diferente para outros produtos. O café brasileiro, por exemplo, continua sujeito à sobretaxa de 40%. Alckmin tem insistido em público que não faz sentido manter tarifas tão altas sobre um item em que o Brasil é o maior fornecedor dos Estados Unidos e que já vinha registrando queda expressiva nos volumes embarcados.

Cálculo a partir de dados oficiais do comércio exterior mostra que, em setembro, a quantidade de café brasileiro enviada aos EUA caiu quase pela metade em relação ao mesmo mês do ano anterior, com retração de 47%.

Nesse segmento, as tarifas funcionam como freio direto sobre pedidos, afetando cooperativas, exportadores e produtores em toda a cadeia.

O mesmo vale para as frutas. O Brasil é o quarto maior fornecedor de mangas e goiabas para os americanos, com embarques em torno de 56 milhões de dólares em 2024, atrás de México, Peru e Equador.

Produtores brasileiros de manga relatam produção encalhada e cancelamento de pedidos desde que as tarifas foram ampliadas, enquanto os EUA seguem dependendo de importações para abastecer o consumo interno.

Na carne bovina, a situação é mais ambígua. O Brasil é o maior exportador mundial e responde por cerca de 23% das importações americanas. Porém, os Estados Unidos também são grande produtor e enfrentam hoje o menor número de cabeças de gado em mais de sete décadas, depois de anos de seca e preços baixos.

Nesse contexto, qualquer decisão sobre tarifas mexe com o balanço delicado entre o interesse do consumidor, que quer preço mais baixo, e o do produtor local, que teme concorrência maior.

Negociações em curso entre Brasília e Washington

Enquanto Trump ajusta o desenho das tarifas globais de 10%, o governo brasileiro tenta separar esse movimento do núcleo duro da disputa, que é a sobretaxa de 40% aplicada especificamente ao Brasil desde julho.

Alckmin, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o chanceler Mauro Vieira conduzem uma frente de negociação que envolve encontros em cúpulas multilaterais e viagens diretas a Washington.

Depois de um breve encontro entre Lula e Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, os dois países reabriram o canal de diálogo sobre tarifas.

Em outubro, os presidentes se reuniram na Malásia para tratar do tema, enquanto Vieira e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, mantiveram conversas no Canadá e em Washington ao longo de novembro.

Segundo o chanceler, o Brasil já apresentou uma proposta em resposta à primeira oferta americana, discutida em reunião na Casa Branca em outubro.

A ideia é fechar ainda neste mês um acordo que estabeleça um “mapa do caminho” para uma negociação mais ampla, com prazo estimado de dois ou três meses para tentar desmontar, de forma progressiva, o pacote de tarifas que hoje pesa sobre os produtos brasileiros.

Inflação nos EUA, cálculo político e recuo parcial de Trump

O recuo parcial nas tarifas de 10% não nasce apenas das mesas de negociação diplomática. Ele reflete também a pressão interna sobre Trump por causa da inflação americana.

O presidente sempre defendeu que suas tarifas não seriam repassadas aos consumidores, mas a alta disseminada de preços, com alimentos subindo mais de dois por cento em um ano, reforçou o temor de que o custo dos impostos de importação estivesse chegando às prateleiras dos supermercados.

O café é um exemplo didático. O produto acumula forte inflação nos EUA, e a sobretaxa sobre o principal fornecedor externo criou um choque adicional de oferta.

O próprio Trump admitiu, em conversa com Lula no início de outubro, que os Estados Unidos estavam “sentindo falta” de alguns produtos brasileiros afetados pelas tarifas, citando especificamente o café.

Na carne bovina, a combinação de menor rebanho e demanda firme também elevou os preços domésticos. Em meio a esse cenário, Trump chegou a declarar que compraria mais carne da Argentina, governada por Javier Milei, na tentativa de baratear o produto, o que irritou produtores americanos.

O alívio seletivo nas tarifas sobre carne beneficia tanto o Brasil quanto a Argentina, mas ainda não resolve a questão central: a permanência da sobretaxa de 40% sobre grande parte dos embarques brasileiros.

Ao publicar a ordem executiva que redesenha as tarifas de 10% e poupa alguns produtos, Trump envia um sinal duplo. Para o eleitorado interno, mostra preocupação com o custo de vida.

Para parceiros comerciais como o Brasil, indica disposição de ajustar medidas consideradas excessivas, sem abrir mão, por enquanto, da ferramenta de pressão que são as sobretaxas mais altas.

No fim das contas, o recuo parcial nas tarifas deixa o Brasil em um meio-termo desconfortável. O suco de laranja comemora um ganho claro de competitividade, enquanto café, carne, manga e outros setores seguem fazendo conta sob a sombra de um imposto de 40% que encarece contratos e desvia compradores para concorrentes.

Diante desse cenário, você acha que o Brasil deveria priorizar a derrubada rápida das tarifas sobre alguns produtos estratégicos, como café e carne, ou insistir em um acordo mais amplo que ataque de uma vez toda a estrutura de sobretaxas aplicada pelos Estados Unidos?

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Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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