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Pai não suporta a crise e vende filha de 10 anos para alimentar 5 crianças; mãe descobre acordo, tenta desfazer casamento e precisa devolver pagamento em acampamento onde a fome empurra famílias ao limite

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 28/06/2026 às 13:40 Atualizado em 28/06/2026 às 13:55
Pai vende filha de 10 anos no Afeganistão para alimentar filhos, e mãe tenta desfazer acordo em meio à fome e à pobreza extrema.
Pai vende filha de 10 anos no Afeganistão para alimentar filhos, e mãe tenta desfazer acordo em meio à fome e à pobreza extrema.
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Caso de Qandi Gul revela como fome, deslocamento e falta de renda levaram famílias afegãs a negociar crianças em casamentos arranjados, enquanto a crise humanitária segue grave em 2026, com milhões de pessoas dependentes de ajuda alimentar.

O pai de Qandi Gul, uma menina afegã de 10 anos, aceitou entregá-la em um acordo de casamento sem informar a esposa, após receber um adiantamento para alimentar os outros cinco filhos no oeste do Afeganistão.

Relatado pela Associated Press, o caso ocorreu no acampamento de Shedai, perto de Herat, em um assentamento de casas de barro ocupado por famílias deslocadas pela seca e pela guerra.

Segundo a reportagem, o homem afirmou à esposa, Aziz Gul, que todos poderiam morrer de fome caso ele não aceitasse o pagamento, resumindo a decisão com a ideia de que precisava sacrificar uma filha para salvar os demais.

Sem ter sido consultada, Aziz Gul descobriu que Qandi havia sido prometida em casamento e procurou o irmão e anciãos da comunidade para impedir que a criança fosse retirada de casa pela família do futuro noivo.

Acordo de casamento virou dívida para a mãe

A intervenção dos líderes locais conseguiu transformar o caso em uma espécie de “divórcio” para Qandi, mas a solução trouxe outra barreira para Aziz Gul, que teria de devolver 100 mil afeganes, cerca de US$ 1 mil.

Sem dinheiro para quitar a quantia, a mãe permaneceu sob pressão mesmo depois de conseguir barrar a saída da filha, já que a anulação do acordo dependia da devolução do pagamento recebido pelo marido.

Na prática, Qandi deixou de ser apenas uma criança prometida em uma negociação feita sem o conhecimento da mãe e passou a representar também uma dívida impossível para uma família sem comida suficiente.

A frase atribuída ao pai pela AP mostra a lógica de sobrevivência que cercava o caso: ele disse ter vendido uma filha para salvar os outros filhos, em uma família atingida pela miséria e sem renda estável.

Crise no Afeganistão continuou grave em 2026

1 de 17 | Qandi Gul segura seu irmão do lado de fora da casa onde moram, que abriga pessoas deslocadas pela guerra e pela seca perto de Herat, no Afeganistão. 16 de dezembro de 2021. O pai de Gul a vendeu em casamento sem o conhecimento da esposa, recebendo um adiantamento para poder alimentar seus cinco filhos. Sem esse dinheiro, disse ele, todos morreriam de fome. Ele precisava sacrificar um para salvar os outros. (Foto AP/Mstyslav Chernov)
1 de 17 | Qandi Gul segura seu irmão do lado de fora da casa onde moram, que abriga pessoas deslocadas pela guerra e pela seca perto de Herat, no Afeganistão. 16 de dezembro de 2021. O pai de Gul a vendeu em casamento sem o conhecimento da esposa, recebendo um adiantamento para poder alimentar seus cinco filhos. Sem esse dinheiro, disse ele, todos morreriam de fome. Ele precisava sacrificar um para salvar os outros. (Foto AP/Mstyslav Chernov)

A situação descrita no acampamento de Shedai fazia parte de uma crise mais ampla, agravada após a retomada do poder pelo Talibã em agosto de 2021 e pela suspensão de recursos externos ao governo afegão.

Na época, a AP relatou que funcionários públicos estavam sem salário havia meses, enquanto a desnutrição avançava entre os mais vulneráveis e organizações humanitárias alertavam para a escassez grave de alimentos.

Em 2026, os dados continuam indicando uma crise profunda: o Programa Mundial de Alimentos afirma que 17,4 milhões de pessoas precisam de assistência alimentar urgente no Afeganistão.

A mesma agência da ONU projeta que 3,7 milhões de crianças precisarão de tratamento contra desnutrição em 2026, em um país onde a fome segue associada à seca, deslocamentos, queda de financiamento e dificuldades econômicas.

Outros pais relataram decisões extremas

A reportagem da AP também mostrou que o caso de Qandi não era isolado no oeste do Afeganistão, ao relatar outras famílias pressionadas por fome, dívidas e falta de atendimento médico.

Em outra área do acampamento, Hamid Abdullah, pai de quatro filhos, tentava negociar o casamento das filhas pequenas para conseguir dinheiro e tratar a esposa, que tinha uma doença crônica e estava grávida do quinto filho.

Três anos antes da reportagem, ele havia aceitado um adiantamento pelo casamento arranjado da filha mais velha, Hoshran, então com 7 anos, e dizia tentar negociar também a segunda filha, Nazia, de 6 anos.

A família que prometeu se casar com Hoshran aguardava a menina crescer para pagar o restante do valor e levá-la, enquanto Abdullah dizia não ter comida em casa nem condições de pagar o tratamento da esposa.

Na província vizinha de Badghis, outro casal deslocado relatou à AP que cogitava vender Salahuddin, de 8 anos, depois de dias sem comida para alimentar os demais filhos.

A mãe, Guldasta, disse à reportagem que não queria vender o filho, mas afirmou que a fome havia deixado a família sem alternativa, em uma decisão tomada contra a própria vontade.

Casamento infantil aparece ligado à pobreza

No Afeganistão, a AP descreveu que casamentos arranjados de meninas muito jovens eram comuns em algumas regiões, com pagamento feito pela família do noivo para selar o acordo.

Em geral, segundo a reportagem, a criança ficava com os pais até pelo menos os 15 anos, mas famílias sem comida passaram a aceitar que meninas mais novas fossem levadas ou prometeram filhos em troca de dinheiro.

A base de dados do Unicef indica que 29% das mulheres afegãs de 20 a 24 anos se casaram ou passaram a viver em união antes dos 18 anos, indicador usado para medir casamento infantil no país.

A relação entre pobreza e casamento infantil aparece de forma direta nesses casos, porque o pagamento antecipado funcionava como uma saída imediata para comprar comida, pagar dívidas ou cobrir despesas médicas urgentes.

Mãe resistiu em uma sociedade dominada por homens

A resistência de Aziz Gul chamou atenção porque ocorreu em uma sociedade descrita pela AP como profundamente patriarcal, onde decisões familiares envolvendo meninas costumam ser tomadas por homens da casa.

Casada à força aos 15 anos, Aziz procurou apoio comunitário ao descobrir o acordo e tentou impedir que a filha repetisse um destino que ela própria havia vivido ainda adolescente.

A reportagem também informou que o marido deixou a casa depois que o caso veio à tona, possivelmente por temer uma denúncia às autoridades em um período no qual o governo talibã havia anunciado a proibição de casamentos forçados.

Mesmo com a proibição, a AP mostrou que acordos informais continuavam a ocorrer em comunidades vulneráveis, onde parentes, líderes locais e credores acabavam tendo influência direta sobre o futuro de crianças.

World Vision alertou para impacto sobre crianças

Na época da reportagem, Asuntha Charles, diretora nacional da World Vision no Afeganistão, afirmou que a situação se deteriorava a cada dia e que as crianças sofriam de forma especial.

A organização mantinha uma clínica de saúde para deslocados perto de Herat, região onde famílias como a de Aziz Gul buscavam sobreviver em meio à falta de comida, trabalho e assistência regular.

Segundo a AP, Charles disse ter ficado com o coração partido ao ver famílias dispostas a vender filhos para alimentar outros parentes, declaração que reforçou o caráter extremo das escolhas relatadas no acampamento.

O apelo por mais ajuda humanitária também apareceu na fala da diretora da World Vision, que cobrou que promessas de financiamento internacional se transformassem em apoio real às famílias no terreno.

Fome mantém famílias sob pressão

A história de Qandi Gul ganhou repercussão por reunir três dimensões da crise afegã: um pai que aceitou vender a filha para alimentar os outros filhos, uma mãe que tentou desfazer o acordo e uma dívida que manteve a criança sob ameaça.

Os casos de Hamid Abdullah, Bibi Jan, Guldasta, Shakir e Salahuddin ampliaram esse retrato, mostrando que a negociação de crianças não aparecia como episódio isolado, mas como sintoma de um colapso econômico e humanitário.

Com milhões de afegãos ainda dependentes de assistência alimentar em 2026, a fome segue como fator de pressão sobre famílias deslocadas, endividadas e sem acesso suficiente a renda, saúde e proteção para crianças.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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