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Uma Bíblia luterana impressa em 1747, trazida da Alemanha e preservada no Sul do Brasil, revela gravuras raras, capa de couro, textos de Martinho Lutero e técnicas artesanais que podiam levar até dois anos

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Escrito por Viviane Alves Publicado em 27/06/2026 às 15:28 Atualizado em 27/06/2026 às 15:30
Bíblia luterana de 1747 com capa de couro e página de rosto aberta, preservada como relíquia histórica ligada à Reforma Protestante
Exemplar da Bíblia luterana de 1747 mostra capa antiga com ferragens metálicas e página de rosto com referência a Martinho Lutero.
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Exposta no Memorial Anneken, em Rolante, a relíquia reúne retratos de Martinho Lutero, a Confissão de Augsburgo e métodos de impressão utilizados no século XVIII.

Uma Bíblia luterana publicada em 1747, na cidade alemã de Nuremberg, atravessou séculos e hoje está preservada no Rio Grande do Sul.

O exemplar está exposto no Memorial Anneken, localizado em Rolante, no vale do Paranhana. A obra foi adquirida em um sebo em fevereiro de 2026.

A aquisição foi realizada pela Caminho das Águas, cooperativa gaúcha fundada em 1923 e integrante do sistema Sicredi.

Segundo a instituição, o volume é considerado a Bíblia luterana mais antiga em exposição no Brasil. A peça foi trazida da Alemanha por imigrantes durante o século XX.

Bíblia luterana antiga aberta com retrato de estudioso, textos em alemão e gravura bíblica em páginas envelhecidas.
Páginas de uma Bíblia luterana antiga revelam retrato histórico, tipografia gótica e gravuras religiosas produzidas com técnicas artesanais.

Relíquia alemã chegou ao Brasil com imigrantes

A presença luterana no Brasil começou oficialmente em 1824, antes da chegada do exemplar atualmente exibido em Rolante.

Registros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil apontam a chegada de imigrantes germânicos a Nova Friburgo e São Leopoldo naquele ano.

Essa tradição religiosa remonta ao século XVI, quando Martinho Lutero liderou o movimento conhecido como Reforma Protestante.

Lutero era monge agostiniano e professor universitário em Wittenberg, na Saxônia. Em 1517, ele apresentou reflexões contrárias à venda de indulgências.

As críticas questionavam a concessão de perdão religioso mediante pagamentos. O movimento provocou mudanças profundas nas estruturas religiosas, sociais e políticas da Europa.

Tradução de Lutero deu origem a uma nova Bíblia

Martinho Lutero traduziu o Novo Testamento para o alemão em 1522. O trabalho utilizou como referência uma versão grega organizada por Erasmo de Roterdã.

A primeira versão completa da Bíblia luterana foi publicada em 1534. O Antigo Testamento foi traduzido com base nos textos hebraicos.

Sete livros foram separados por Lutero por serem considerados úteis, porém não divinamente inspirados. Esses textos seriam retirados de edições protestantes posteriores.

Um novo projeto editorial surgiu cerca de um século depois. O duque Ernesto I pediu ao impressor Wolfgang Endter uma Bíblia baseada no modelo luterano.

O resultado foi a Kurfürstenbibel, conhecida como Bíblia do Príncipe Eleitor. A obra iniciou a linhagem das chamadas Bíblias Ernestinas.

Essas edições foram impressas entre 1641 e 1758. O volume preservado em Rolante pertence a essa tradição histórica.

Pesquisador com luvas analisa uma Bíblia luterana antiga aberta sobre suporte de exposição em um museu.
Pesquisador examina uma Bíblia luterana antiga com luvas de proteção durante trabalho de preservação em espaço museológico.

Bíblia de 1747 guarda textos e retratos históricos

A edição exposta no Memorial Anneken conserva elementos que ajudam a explicar sua importância cultural e religiosa.

Entre os principais conteúdos presentes no exemplar estão:

  • prefácio escrito pelo teólogo J. Michael Dilherr;
  • retratos e pequenas biografias de Martinho Lutero;
  • imagens dos duques de Saxe-Gota;
  • Confissão de Augsburgo;
  • sete livros posteriormente retirados das novas edições protestantes;
  • ilustrações produzidas em madeira e chapas de cobre.

A Confissão de Augsburgo representa um dos principais documentos doutrinários adotados por igrejas luteranas.

Páginas foram produzidas com papel resistente ao tempo

O papel empregado na produção da Bíblia era conhecido como papel de trapo. Sua composição reunia fibras de linho e algodão.

Esse material apresentava maior resistência à acidez e ao desgaste provocado pelo tempo. As páginas não se tornavam quebradiças com facilidade.

A preservação do volume também está relacionada à qualidade dos materiais e aos métodos artesanais utilizados em sua fabricação.

Técnicas criadas após Gutenberg marcaram a impressão

A impressão da Bíblia de 1747 seguiu técnicas desenvolvidas depois da criação da prensa de tipos móveis.

Johannes Gutenberg começou a imprimir folhetos com esse método durante a década de 1440. Uma conhecida edição da Bíblia foi produzida por ele por volta de 1455.

Cada letra era representada por uma pequena peça metálica. O tipógrafo organizava as palavras manualmente, linha por linha, em uma bandeja.

Uma tinta oleosa era aplicada sobre os tipos metálicos. O papel era colocado sobre a composição e pressionado para receber textos e imagens.

Gravuras em madeira e cobre enriquecem a edição

As ilustrações menores foram produzidas por meio da xilogravura. A técnica utilizava desenhos talhados em blocos de madeira.

As imagens maiores, por outro lado, foram criadas com a calcografia. O método permitia gravar linhas muito finas em chapas de cobre.

O artista utilizava uma ferramenta de aço chamada buril. A tinta permanecia nos sulcos e era transferida ao papel pela pressão dos rolos.

As calcografias da Bíblia de 1747 foram produzidas por Andreas Nunzer. Os detalhes permitiam representar sombras, texturas e expressões faciais.

Encadernação podia levar até dois anos

As folhas impressas eram costuradas manualmente depois da secagem. A encadernação recebia uma capa de couro de porco curtido sobre placas de madeira.

A superfície da capa era decorada por meio de gravação a seco. Rolos metálicos aquecidos criavam desenhos diretamente no couro.

Fechos e cantoneiras de latão protegiam as extremidades e mantinham o livro fechado. A estrutura também evitava deformações causadas pela umidade.

A produção completa de uma Bíblia desse porte podia levar até dois anos.

Close da capa de uma Bíblia antiga com fecho metálico ornamentado e acabamento em relevo sobre couro escuro.
Detalhe da capa de uma Bíblia antiga destaca o fecho metálico e os relevos decorativos da encadernação histórica.

Obra preserva parte da história religiosa e editorial

A Bíblia de 1747 reúne aspectos técnicos, artísticos, religiosos e históricos em um único volume.

O exemplar também preserva a memória da imigração germânica e da presença luterana no Brasil, representada atualmente pela IECLB e pela IELB.

A exposição no Memorial Anneken permite que o público conheça métodos antigos de impressão e encadernação que permaneceram em uso durante séculos.

Uma obra capaz de atravessar quase três séculos deve ser vista apenas como um livro religioso ou como um patrimônio histórico de toda a sociedade?

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Viviane Alves

Redatora com foco na produção de conteúdos estratégicos voltados para macro e microeconomia, geopolítica, mercado energético, setor automotivo e comércio global.

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