Primeira expedição exclusivamente feminina cruza a Serra do Sincorá de forma autônoma e redefine o montanhismo na Bahia
A Transsincorá acaba de entrar para a história do trekking brasileiro. Pela primeira vez, um grupo exclusivamente feminino percorreu os 130 quilômetros da travessia de forma totalmente independente, cruzando a Chapada Diamantina de sul a norte em sete dias consecutivos. Além disso, as 21 mulheres vieram de oito nacionalidades diferentes: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Porto Rico, El Salvador, Panamá e México.
Embora a Chapada Diamantina reúna algumas das paisagens mais impressionantes do Brasil, a Transsincorá ainda não figura entre as travessias mais clássicas da região. Diferentemente do Vale do Pati, que já se consolidou como referência, esse trekking permanece pouco sinalizado, tecnicamente exigente e fisicamente desafiador. Justamente por isso, o feito ganha ainda mais relevância.
No início de 2026, o projeto brasileiro Mulheres e Montanhas uniu forças com o coletivo latino-americano Mujer Montaña. Dessa parceria nasceu a expedição Hermanas em Travessia. O nome, aliás, sintetiza perfeitamente o espírito da jornada: união, autonomia e protagonismo feminino na montanha.
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A informação foi divulgada pela revista “gooutside”, em colaboração com o coletivo internacional “Mujer Montaña”, conforme relatos das organizadoras e das guias da Associação Rainhas da Serra, responsáveis pela condução técnica da travessia na Chapada Diamantina.
130 km com autonomia total: acampamento selvagem e contato mínimo com civilização

Diferentemente de roteiros guiados com estrutura pré-montada, o grupo conduziu a travessia de forma autônoma. Durante os sete dias, as montanhistas carregaram nas mochilas tudo o que precisavam: comida, abrigo e equipamentos essenciais. Além disso, mantiveram contato apenas com pequenos povoados como Mucugê e Vale do Capão.
A Transsincorá acompanha a Serra do Sincorá, principal espigão montanhoso da região. O percurso cruza o Parque Nacional de Ibicoara até Lençóis e termina no alto do Morro do Pai Inácio, cartão-postal mais emblemático da Chapada Diamantina. Portanto, além da exigência física, o roteiro oferece forte carga simbólica.
As guias Bel e Bete, integrantes da Rainhas da Serra — primeira associação de guias mulheres do Brasil — lideraram tecnicamente o grupo. Mais do que orientação prática, elas garantiram segurança em um terreno longo, irregular e pouco sinalizado.
O projeto Mulheres e Montanhas surgiu em 2019 como iniciativa independente entre amigas. Inicialmente, o objetivo era inspirar outras mulheres por meio de expedições em alta montanha e pequenos documentários. Contudo, o movimento cresceu rapidamente. Muitas mulheres começaram a perguntar como poderiam participar.
Diante dessa demanda, Amanda Alvernaz deixou o mercado corporativo, tornou-se guia e reestruturou o projeto ao lado de Kellyns Cristina e Joanna Dorini. Hoje, o foco está claro: fortalecer autonomia, autoconfiança e liderança feminina por meio do montanhismo e da escalada.
Por outro lado, o coletivo Mujeres Montaña, criado em 2020 por Griselda Moreno (Argentina) e Denys Sanjinés (Bolívia), compartilha propósito semelhante. Seis anos depois do primeiro contato, as lideranças conseguiram concretizar a colaboração na Bahia.
Chapada Diamantina, território diamantífero e transformação coletiva
A Transsincorá atravessa um território vasto e historicamente marcado pelo garimpo de diamantes. Séculos atrás, exploradores vasculharam a Serra do Sincorá em busca de riqueza mineral. Hoje, entretanto, a travessia entrega outro tipo de descoberta: transformação pessoal.
Durante os 130 quilômetros percorridos em sete dias, o grupo enfrentou calor intenso, chuva e trechos pouco sinalizados. Ainda assim, a união entre as 21 mulheres fez diferença. Conforme relata Amanda, o desafio técnico desperta medo; contudo, também fortalece confiança. Além disso, quando uma olha para o lado e encontra apoio, o peso da mochila parece menor.
O testemunho da mexicana María Marentes reforça esse impacto. Ao descrever a experiência, ela comparou a jornada a um ritual. A chuva apagou caminhos. O terreno exigiu suor constante. As vozes internas questionaram limites. No entanto, o grupo avançou unido. No último amanhecer, segundo ela, já não era a mesma pessoa.
Além do feito esportivo, a expedição deixou legado concreto. Durante a travessia, Samanta Chu, da Wilderness Medical Associates International Brasil, ministrou o curso Wilderness First Aid (WFA). Ao todo, 11 guias mulheres da região receberam certificação. Dessa forma, a iniciativa ampliou competências locais e fortaleceu a segurança no montanhismo feminino da Chapada Diamantina.
Portanto, a Transsincorá deixou de ser apenas um trekking pouco conhecido. Ela se consolidou como símbolo de colaboração internacional, protagonismo feminino e fortalecimento territorial. Além disso, demonstrou que alianças entre projetos reduzem riscos e ampliam horizontes.
No fim das contas, a travessia não representou apenas 130 quilômetros de caminhada. Representou a confirmação de que a montanha também é território feminino.
Você teria coragem de encarar 130 km de trekking selvagem na Chapada Diamantina para viver uma transformação como essa?

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