Escavação profunda, engenharia sísmica e preservação histórica se encontram em uma das maiores obras de retrofit dos Estados Unidos, realizada sob um templo de 130 anos sem alterar sua imagem mais conhecida e com soluções estruturais quase invisíveis para quem vê o edifício por fora.
O Templo de Salt Lake, principal marco religioso de Temple Square, em Utah, atravessa uma das mais complexas intervenções estruturais já feitas em um edifício histórico nos Estados Unidos.
A obra combina escavação profunda, substituição de fundações, reforço interno e a instalação de 98 isoladores sísmicos para reduzir o impacto de grandes terremotos sobre uma construção concluída em 1893, com paredes de granito que chegam a nove pés de espessura na base, o equivalente a cerca de 2,7 metros.
A conclusão da renovação segue prevista para o fim de 2026, com reabertura pública programada para 2027.
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O tamanho da intervenção se explica pelo fato de o templo ter sido erguido numa época em que não existiam os padrões modernos de engenharia sísmica.
O edifício foi concebido para suportar enormes cargas verticais, mas não para dissipar com eficiência os movimentos laterais de um terremoto forte.
Em 2019, ao anunciar o fechamento do templo para a reforma, a própria Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias informou que o projeto teria como eixo central uma modernização sísmica profunda.
Estudos citados pela imprensa local indicaram que, sem essa adaptação, a estrutura correria risco severo em um grande abalo na região.
O motivo da urgência está no contexto geológico do norte de Utah.

A área metropolitana de Salt Lake City fica na influência da Falha de Wasatch, sistema tectônico considerado a principal ameaça sísmica do estado.
Em reportagem publicada quando a modernização foi anunciada, especialistas ligados ao histórico de preservação do Capitólio de Utah afirmaram que o vale de Salt Lake pode enfrentar um terremoto de magnitude 7,3, cenário usado como referência para o novo sistema de proteção do templo.
Retrofit sísmico sob paredes históricas de granito
Para instalar a nova base estrutural, engenheiros precisaram criar uma solução de baixo para cima, literalmente sob uma construção monumental que não podia perder sua forma histórica.
A atualização oficial do projeto explica que foram executadas paredes de contenção e que o solo pôde ser escavado cerca de 17 pés, ou 5,2 metros, abaixo da fundação original, tanto na parte interna quanto na externa do templo, até o nível em que repousam as novas fundações inferiores.
Paralelamente, comunicados sobre a obra registraram a criação de uma laje operacional a 35 pés, ou aproximadamente 10,6 metros, abaixo do antigo nível da calçada no perímetro do edifício.
Esse processo exigiu escoramento temporário e transferência gradual de carga para evitar que o peso das paredes históricas comprometesse a intervenção.
As paredes externas do templo não são revestimentos decorativos, mas maciços de granito estrutural.
Por isso, cada etapa da escavação e da consolidação das novas fundações precisou ser sincronizada com vigas, concreto armado e cabos de protensão, para que a construção permanecesse estável enquanto o terreno original deixava de ser o principal apoio do conjunto.
Mais adiante, quando a nova base passou a assumir o peso do edifício, as paredes de contenção e o solo remanescente sob parte da estrutura puderam ser removidos.

Só então os isoladores ficaram livres para cumprir sua função: permitir que o templo se desloque horizontalmente durante um terremoto, em vez de absorver toda a força sísmica de forma rígida, como ocorreria numa fundação convencional.
Como funcionam os 98 isoladores sísmicos do templo
O sistema escolhido para o templo é o de isolamento de base, tecnologia já empregada em edifícios públicos e marcos históricos sujeitos a atividade sísmica.
No caso de Salt Lake, a Igreja informa que foram instalados 98 isoladores sobre as novas fundações inferiores.
Cada unidade tem cerca de 2 metros de diâmetro, pesa 18 mil libras, ou 8.165 quilos, e permite até 5 pés de deslocamento horizontal em qualquer direção, o equivalente a cerca de 1,5 metro.
Na prática, esse mecanismo desacopla o comportamento do prédio em relação ao solo.
Quando a terra se move, a energia não é transferida de forma direta e integral para as paredes de pedra.
Parte relevante do esforço é absorvida e controlada pelo conjunto de borracha, aço e componentes internos dos isoladores, reduzindo as tensões que poderiam abrir fissuras graves, comprometer torres ou provocar colapso parcial.
Ainda assim, o projeto não se resume aos apoios móveis.
A documentação e a cobertura local mostram que o templo também recebeu reforços de aço em paredes, pisos, tetos e torres, porque o isolamento sozinho não resolveria todas as vulnerabilidades de uma alvenaria histórica tão pesada.
Obra em Salt Lake City e comparação com outros reforços sísmicos
A comparação com outras obras sísmicas ajuda a dimensionar a escolha.
Utah já aplicou isolamento de base em edifícios históricos como o Salt Lake City-County Building e o Capitólio estadual.
No caso do Capitólio, foram instalados 265 isoladores durante a grande reforma feita entre 2004 e 2008.
A diferença é que o templo reúne uma combinação rara de valor simbólico, massa estrutural, delicadeza arquitetônica e necessidade de preservação estética quase integral, o que amplia a complexidade e encarece cada etapa da obra.
Preservação histórica e ampliação subterrânea do templo
A renovação não trata apenas de resistência sísmica.
Segundo a Igreja, a reforma busca recuperar características visuais mais próximas do período vitoriano do fim do século XIX, além de reorganizar os espaços internos para receber mais pessoas com segurança e conforto.
O projeto acrescenta 100 mil pés quadrados de área, cerca de 9,3 mil metros quadrados, e amplia a capacidade funcional do edifício com novos ambientes subterrâneos e circulação interna redesenhada.
Essa combinação de restauro e atualização explica por que a obra se estende por anos e mobiliza frentes simultâneas de engenharia, arquitetura e conservação.
Em janeiro de 2026, a Igreja informou que a retirada dos andaimes externos já havia começado, sinal de transição entre a fase pesada de construção e os acabamentos finais.
Mesmo assim, a instituição mantém a previsão de concluir todo o complexo de renovação até o fim de 2026, antes de uma celebração pública de seis meses marcada para 2027.
O caso do Templo de Salt Lake se tornou uma referência porque mostra como uma estrutura erguida no século XIX pode ser adaptada para padrões contemporâneos sem perder sua identidade visual mais reconhecível.
Em vez de uma demolição ou de uma blindagem aparente, a solução adotada transfere a proteção para dentro e para baixo do edifício, numa intervenção que quase desaparece aos olhos do visitante, mas redefine a capacidade de sobrevivência do monumento diante da principal ameaça geológica da região.


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