Pequeno ponto vermelho observado pelo James Webb reúne sinais usados por astrônomos para investigar buracos negros no universo distante, com espectro profundo, lente gravitacional e mais de 40 linhas que ajudam a analisar uma das estruturas ainda pouco compreendidas do cosmos.
O Telescópio Espacial James Webb identificou evidências que sustentam a hipótese de que alguns “pequenos pontos vermelhos”, objetos compactos observados no universo distante, sejam buracos negros em crescimento envolvidos por gás denso.
Entre os casos analisados, o GLIMPSE-17775 é um dos mais detalhados até agora e foi estudado por uma equipe liderada por Vasily Kokorev, pesquisador da Universidade do Texas em Austin.
Divulgado em 10 de junho de 2026, o estudo descreve o espectro mais profundo já obtido de um objeto desse tipo, segundo a publicação científica sobre a observação.
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A equipe identificou mais de 40 linhas espectrais em uma pequena fonte vermelha observada pelo Webb, o que permitiu comparar modelos sobre a natureza desses objetos com um volume maior de dados.
Os pequenos pontos vermelhos passaram a ser investigados com mais atenção após o início das operações científicas do Webb, em 2022, quando o telescópio começou a revelar objetos compactos e avermelhados no universo primitivo.
De acordo com a ESA, esses objetos foram observados em períodos próximos de 600 milhões de anos após o Big Bang, fase em que a formação de galáxias, estrelas e buracos negros segue em estudo pela astronomia.
No caso do GLIMPSE-17775, a fonte analisada não é descrita como um objeto observado apenas 600 milhões de anos depois do Big Bang.
A estimativa citada no estudo coloca o GLIMPSE-17775 em um estágio de cerca de 1,8 bilhão de anos após o Big Bang, devido ao redshift cosmológico de 3,5.
O que o Webb observou em GLIMPSE-17775

Localizado atrás do aglomerado de galáxias Abell S1063, o GLIMPSE-17775 foi observado em uma posição que permitiu aos pesquisadores aproveitar o efeito de lente gravitacional.
Esse fenômeno ocorre quando a gravidade de um objeto massivo, como um aglomerado de galáxias, amplia e distorce a luz de fontes mais distantes no campo de visão do observador.
A ampliação foi relevante para a análise porque o Webb obteve um espectro de 30 horas, mas o efeito da lente gravitacional tornou o resultado comparável a cerca de 80 horas de observação.
Com esse ganho, a equipe conseguiu separar sinais espectrais que seriam mais difíceis de detectar em uma fonte pequena, fraca e localizada a uma grande distância cosmológica.
As linhas espectrais funcionam como registros da interação entre luz e matéria, permitindo identificar elementos químicos e inferir características físicas do ambiente em torno da fonte observada.
Por meio dessas linhas, astrônomos analisam como a luz foi emitida, absorvida ou espalhada por átomos, íons e moléculas presentes no objeto ou em seu entorno.
No espectro de GLIMPSE-17775, os pesquisadores encontraram sinais associados a hidrogênio, oxigênio, hélio, enxofre e ferro, elementos usados na interpretação física da fonte.
Segundo a NASA, muitas dessas linhas não se ajustam bem a um modelo simples de nuvem de gás em rotação e são mais compatíveis com espalhamento de elétrons em gás quente e denso.
Por que os cientistas falam em estrela com buraco negro
A expressão “estrela com buraco negro” é usada como referência a um modelo proposto para explicar pequenos pontos vermelhos, e não a uma estrela comum semelhante ao Sol.
Nesse cenário, o objeto seria um buraco negro supermassivo em crescimento rápido, envolvido por um casulo denso de gás parcialmente ionizado, conforme a interpretação apresentada pelos pesquisadores.

O gás ao redor da fonte reprocessaria a luz emitida nas proximidades do buraco negro, alterando o espectro observado e contribuindo para a aparência vermelha e compacta desses objetos.
Essa mesma estrutura também é apontada como uma possível explicação para a baixa emissão em raios X de muitos pequenos pontos vermelhos, já que parte da radiação poderia ser absorvida pelo gás.
Kokorev afirmou que parte da comunidade científica tem considerado modelos de estrelas com buracos negros para explicar os pequenos pontos vermelhos observados pelo Webb.
Segundo o pesquisador, nenhum objeto analisado anteriormente reunia, no mesmo conjunto de dados, tantas evidências associadas a essa interpretação quanto o GLIMPSE-17775.
Ao comentar a análise inicial do espectro, Kokorev comparou o trabalho à montagem de um quebra-cabeça, em que cada linha medida ajudou a compor uma interpretação física da fonte.
A equipe mediu os sinais, comparou as emissões identificadas e organizou os dados em um modelo que sustenta a hipótese de um buraco negro em crescimento dentro de um ambiente gasoso denso.
Linhas espectrais reforçam hipótese sobre buraco negro
Entre os sinais descritos pela equipe estão linhas de ferro que formam o conjunto chamado pelos pesquisadores de “floresta de ferro”, uma característica usada na interpretação do espectro.
A intensidade e a relação entre essas linhas, combinadas com sinais de oxigênio, foram apontadas no estudo como compatíveis com uma fonte energética intensa, como um buraco negro em acreção rápida.
Também foram observados indícios de fluorescência e absorção de hélio, dois elementos que os pesquisadores associam à presença de um meio denso envolvendo uma fonte de energia.
A combinação desses sinais colocou o GLIMPSE-17775 entre os objetos usados para testar a hipótese de que pequenos pontos vermelhos possam abrigar buracos negros em crescimento.
Outro aspecto analisado envolve a chamada quebra de Balmer, uma queda na emissão de luz relacionada a características comuns identificadas em pequenos pontos vermelhos.
No GLIMPSE-17775, esse sinal aparece mais fraco do que o esperado, e a equipe usou dados complementares dos programas Frontier Fields e BUFFALO, do Hubble, para avaliar a galáxia hospedeira.
De acordo com a interpretação apresentada pelos pesquisadores, uma galáxia hospedeira gigante ao redor do objeto pode contribuir com luz azul adicional e suavizar a quebra de Balmer.
Essa explicação foi considerada pela equipe sem descartar o modelo do casulo de gás, que permanece entre as hipóteses usadas para interpretar o espectro do GLIMPSE-17775.
Descoberta ajuda a investigar o universo primitivo
O GLIMPSE-17775 passou a ter relevância científica porque reúne, em um único objeto, sinais que haviam sido observados de forma parcial em outros pequenos pontos vermelhos.
Para a equipe responsável pelo estudo, essa concentração de evidências oferece uma oportunidade de investigar como buracos negros supermassivos podem ter crescido em fases antigas do universo.
Apesar dos indícios reunidos, a hipótese de que o objeto abrigue um buraco negro não encerra a discussão sobre a origem e a natureza dos pequenos pontos vermelhos.
Kokorev afirmou que os pesquisadores acreditam se tratar de um buraco negro, mas reconheceu que outras teorias seguem em discussão para explicar o motor central desses objetos.
Novas observações poderão ajudar a diferenciar os modelos em debate e esclarecer quais processos físicos alimentam os pequenos pontos vermelhos observados pelo James Webb.


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