Megaobras avançam longe dos holofotes e envolvem água, energia, mineração e logística em escala continental, reposicionando o Afeganistão no centro de rotas estratégicas da Ásia Central e do Sul, com impactos diretos sobre países vizinhos e cadeias globais.
Enquanto a atenção internacional esteve concentrada em guerras, eleições e crises políticas, um conjunto de obras de escala inédita avançou longe dos holofotes no Afeganistão.
As informações, reunidas e analisadas pelo canal Tecnívora, que publicou um vídeo detalhando esses projetos no YouTube, revelam que, sem anúncios oficiais em fóruns globais, o Talibã iniciou um dos programas de infraestrutura mais ambiciosos da história recente do país.
De acordo com o levantamento apresentado pelo Tecnívora, não se trata apenas de decisões políticas ou disputas ideológicas.
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O que está em curso envolve engenharia pesada, investimentos bilionários, controle de recursos naturais estratégicos e a reativação de rotas comerciais e energéticas consideradas inviáveis por décadas.
Em conjunto, essas obras reposicionam o Afeganistão no centro das dinâmicas econômicas e geopolíticas da Ásia Central.
Canal Qosh Tepa e o controle da água na Ásia Central
Um dos projetos mais emblemáticos destacados pelo canal é o canal Qosh Tepa, no norte do país.
Com cerca de 185 quilômetros de extensão, a estrutura atravessa áreas desérticas e já é descrita como o maior canal artificial em construção na Ásia Central.
Segundo informações reunidas pelo Tecnívora, mais de seis mil trabalhadores atuam de forma contínua na escavação, operando maquinário pesado dia e noite.
O canal foi projetado para desviar aproximadamente 20% da água do rio Amu Dária, um dos principais cursos d’água da região.
O conteúdo divulgado aponta que essa água será conduzida para irrigar cerca de 550 mil hectares de terras secas no norte afegão, área comparável à do Distrito Federal brasileiro.
O objetivo declarado é ampliar significativamente a produção agrícola do país.
Ainda segundo o Tecnívora, autoridades afegãs estimam que a conclusão do Qosh Tepa pode aumentar a área cultivável do Afeganistão em mais de um terço, aproximando o país da autossuficiência alimentar.
O custo total do projeto é estimado em 684 milhões de dólares, com mais de 100 milhões financiados com recursos internos do próprio governo.
O impacto regional, porém, é sensível.
O Amu Dária abastece países como Uzbequistão e Turcomenistão, fortemente dependentes do rio para suas plantações de algodão.
Ao destacar esse ponto, o Tecnívora ressalta que o controle do fluxo de água transforma o recurso em instrumento de poder geopolítico, capaz de influenciar relações diplomáticas em toda a Ásia Central.
Represas e energia como instrumentos de negociação regional
Além do canal, o vídeo também chama atenção para a construção e retomada de represas em diferentes regiões do país.
Entre elas está a barragem de Bakshabad, erguida em meio a tensões diplomáticas com o Irã relacionadas a direitos hídricos.
Conforme explicado pelo canal, essas estruturas não servem apenas para irrigação.
Elas também ampliam a geração de energia hidrelétrica e reduzem a dependência afegã de importações.
Kabul New City e a nova capital planejada
No campo urbano, o Tecnívora destaca o avanço do projeto Kabul New City.
Planejada para ocupar cerca de 722 quilômetros quadrados, a nova capital foi concebida para desafogar a atual Cabul.
O projeto prevê capacidade para abrigar entre 1,1 milhão e 3 milhões de pessoas.
O plano inclui a construção de aproximadamente 250 mil unidades residenciais, além de hospitais, escolas, centros comerciais e áreas verdes.
Segundo o material divulgado, o desenvolvimento será dividido em centenas de setores e deve se estender ao longo de três décadas.
Algumas áreas, como a chamada Golden City, já concentram dezenas de milhares de moradias.
Outros setores tiveram obras retomadas entre 2023 e 2024, com investimentos individuais que podem chegar a 700 milhões de dólares.
Corredores logísticos e ferrovias estratégicas
A análise do Tecnívora também enfatiza a estratégia logística do Talibã.
Em 2025, China, Paquistão e Afeganistão assinaram um acordo para estender o Corredor Econômico China-Paquistão ao território afegão.
O projeto é avaliado em mais de 60 bilhões de dólares.
A iniciativa cria uma ligação direta entre a região chinesa de Xinjiang, o Paquistão e o Afeganistão.
Outro destaque é a ferrovia de 573 quilômetros que ligará Uzbequistão e Paquistão, atravessando o Afeganistão.
Avaliada em 4,8 bilhões de dólares, a obra promete reduzir o tempo de transporte de mercadorias de 35 dias para apenas quatro.
O traçado exige a construção de mais de 300 pontes e cinco grandes túneis em terrenos extremamente complexos.
Gasoduto TAPI e integração energética
No setor energético, o canal detalha a retomada do gasoduto TAPI, que liga Turcomenistão, Afeganistão, Paquistão e Índia.
Planejado para transportar 33 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano, o projeto de cerca de 10 bilhões de dólares teve a construção da parte afegã retomada em 2024.
Se concluído, pode gerar aproximadamente 1 bilhão de dólares anuais em receitas para o Afeganistão.
O vídeo também aborda o projeto CASA-1000, que prevê a transmissão de energia hidrelétrica do Quirguistão e do Tajiquistão até o Paquistão.
Segundo o Tecnívora, o sistema deve transportar 1.300 megawatts de energia, com cerca de 300 megawatts destinados ao consumo interno afegão.
A retomada foi aprovada pelo Banco Mundial em 2024.
Mineração, receitas internas e infraestrutura crítica
Para sustentar financeiramente esse conjunto de obras, o Talibã aposta na exploração mineral.
O Tecnívora destaca estimativas que apontam trilhões de dólares em cobre, lítio e terras raras no subsolo afegão.
Em 2024, a mina de cobre de Mes Aynak voltou a avançar.
No mesmo período, a intensificação da taxação sobre mineração teria rendido mais de 1 bilhão de dólares em um único ano.
Como símbolo dessa nova fase, o canal relembra a reconstrução do túnel de Salang, inaugurado em 1964.
Conhecida por décadas como uma das estradas mais perigosas do país, a estrutura passou por modernização anunciada em 2023.
O investimento estimado foi de 100 milhões de dólares.
As informações reunidas pelo Tecnívora indicam que esses projetos estão em andamento, com orçamentos declarados e efeitos regionais concretos.
O Talibã criou forças específicas para proteger canais, ferrovias, minas e corredores energéticos, tratando cada obra como ativo estratégico.
A grande incógnita permanece: esse ambicioso programa de infraestrutura será sustentável a longo prazo em um país marcado por instabilidade crônica?


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