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Tábuas de argila do tamanho de um smartphone, com 4.000 anos, guardam recibos, listas de funcionários e até cerimônias antibruxaria do Oriente Médio

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 13/05/2026 às 12:29 Atualizado em 13/05/2026 às 12:31
Tábuas de argila de 4.000 anos guardadas na Dinamarca revelam recibos, listas de funcionários e rituais antibruxaria do Oriente Médio antigo. Veja os detalhes.
Tábuas de argila de 4.000 anos guardadas na Dinamarca revelam recibos, listas de funcionários e rituais antibruxaria do Oriente Médio antigo. Veja os detalhes.
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A coleção de 241 tábuas de argila do Museu Nacional da Dinamarca foi destrinchada pelo projeto Tesouros Ocultos. Entre os achados estão recibos comerciais, listas de funcionários e uma cerimônia antibruxaria registrada em Hama, cidade síria destruída em 720 a.C. O catálogo traz mais de 100 manuscritos inéditos.

Um conjunto de tábuas de argila guardado por décadas em uma reserva técnica do Museu Nacional da Dinamarca finalmente teve seu conteúdo decifrado por pesquisadores. Os 241 objetos, alguns com aproximadamente 4.500 anos, revelaram um retrato detalhado da vida cotidiana de civilizações do antigo Oriente Médio, mesclando rituais mágicos, listas reais e até um recibo de cerveja.

O trabalho faz parte do projeto Tesouros Ocultos, que se dedicou a estudar inscrições em cuneiforme presentes em pequenos blocos do tamanho aproximado de um smartphone moderno. Entre os achados mais marcantes está um ritual antibruxaria proveniente de Hama, cidade síria destruída em 720 a.C., e uma cópia de uma famosa lista real suméria que cita o nome de Gilgamesh entre os antigos soberanos.

O que estava escrito nas tábuas de argila guardadas em Copenhague

Tábuas de argila de 4.000 anos guardadas na Dinamarca revelam recibos, listas de funcionários e rituais antibruxaria do Oriente Médio antigo. Veja os detalhes.

A coleção dinamarquesa surpreendeu os pesquisadores pela diversidade de conteúdos. Em vez de se limitar a registros religiosos ou cerimoniais, os textos mostram o uso do cuneiforme em praticamente todos os aspectos da vida pública e privada.

Entre as inscrições identificadas estão listas de funcionários, cartas administrativas e correspondências oficiais. Esses documentos provam que a escrita servia ao funcionamento prático do Estado, e não apenas a rituais sagrados.

O mais inusitado dos achados é um recibo de cerveja, que comprova transações comerciais cotidianas na antiga Mesopotâmia. O documento ajuda a desfazer a ideia de que a escrita antiga era exclusiva da elite religiosa e mostra que ela já se misturava com o comércio popular há milênios.

Como a escrita cuneiforme funcionava

O cuneiforme era produzido pressionando um estilete de junco contra blocos de argila ainda úmida. Cada marca em forma de cunha representava palavras ou sons, e o conjunto formava o texto desejado pelo escriba.

Depois de seca ou queimada em forno, a tábua se transformava em um suporte de altíssima durabilidade. É justamente essa resistência que permitiu que objetos com 4.000 ou 4.500 anos cheguem aos dias de hoje praticamente intactos, com inscrições legíveis.

O sistema também não era de uso restrito. O cuneiforme servia para controle de estoques, cobrança de tributos, gestão de mão de obra e registro de correspondências, funcionando na prática como um sistema contábil que permitia às primeiras cidades organizar recursos sem depender apenas da memória.

O ritual antibruxaria que protegia o rei

Entre todos os textos catalogados, o ritual proveniente da cidade síria de Hama chamou atenção especial dos pesquisadores. A cerimônia descrita durava a noite inteira e envolvia a queima de figuras de cera enquanto um exorcista recitava encantamentos específicos.

O assiriólogo Troels Pank Arbøll destacou que o objetivo era afastar infortúnios como a instabilidade política que ameaçavam o rei. A descoberta mostra que mesmo grandes impérios da Antiguidade buscavam proteção espiritual diante de ameaças concretas como invasões, conspirações e disputas internas pelo poder.

O detalhe mais sensível é que esses textos religiosos apareciam lado a lado com registros administrativos comuns. Para aquelas sociedades, governar envolvia tanto controlar celeiros e cobrar impostos quanto realizar as cerimônias certas no momento adequado.

Por que os textos sírios são tão raros

A Síria preservou um número muito menor de documentos cuneiformes do que a Mesopotâmia, o que torna cada fragmento ligado a Hama especialmente valioso para os historiadores. As tábuas foram encontradas perto da entrada de um grande edifício, em uma posição que sugere ocultação às pressas.

A hipótese mais aceita é que os documentos foram guardados durante a campanha militar do rei assírio Sargão II em 720 a.C., quando a cidade foi destruída. Quem escondeu os textos provavelmente esperava poder recuperá-los mais tarde, o que nunca aconteceu.

Pelo menos uma encantação religiosa de Tell Hama foi identificada na coleção dinamarquesa. O achado amplia o que se sabe sobre a vida espiritual da região naquele período e oferece um vislumbre raro de práticas religiosas pouco documentadas em fontes diretas.

Gilgamesh: personagem mítico ou rei real?

Outro destaque da coleção é uma cópia da chamada lista real suméria, documento antigo que enumerava os soberanos de cidades como Uruk. Entre os nomes registrados aparece Gilgamesh, herói da literatura mesopotâmica.

A questão sobre se Gilgamesh existiu de fato segue em aberto entre os pesquisadores. Os escribas antigos o tratavam como referência política e não apenas como personagem literário, o que sugere que ele pode ter sido uma figura histórica posteriormente mitificada.

A inclusão de uma cópia dessa lista na coleção dinamarquesa fortalece a tese de que Gilgamesh tem alguma base histórica. Trata-se de um dos poucos registros existentes que conectam o herói a um possível contexto político concreto, segundo os pesquisadores envolvidos no projeto.

O catálogo completo e os 100 manuscritos inéditos

O resultado completo do estudo das tábuas de argila foi publicado pela Museum Tusculanum Press em catálogo dedicado à coleção. A publicação inclui mais de 100 manuscritos até então inéditos para o público acadêmico mais amplo.

O catálogo é considerado uma referência importante para o estudo do cuneiforme e do período histórico ao qual os textos pertencem. Ele reúne descrições técnicas, transcrições, traduções e análise contextual dos achados, em um trabalho que deve servir de base para futuras pesquisas.

A combinação entre rituais, listas e recibos no mesmo acervo oferece um retrato raro de uma civilização que misturava espiritualidade e administração no mesmo suporte físico. A descoberta amplia o entendimento sobre como essas sociedades funcionavam no dia a dia, muito além do que costuma aparecer em livros didáticos.

Digitalização democratiza acesso ao acervo milenar

As imagens das 241 peças foram compartilhadas pela Cuneiform Digital Library Initiative, um banco de dados aberto utilizado por instituições e pesquisadores em todo o mundo. A plataforma permite que qualquer especialista compare uma tábua guardada na Dinamarca com textos semelhantes de outros acervos sem precisar viajar até Copenhague.

A digitalização também reduz os riscos do manuseio físico de objetos extremamente frágeis. Uma fotografia em alta resolução responde a boa parte das perguntas de pesquisa sem que ninguém precise tocar nas peças e correr o risco de provocar uma fissura oculta.

O movimento de digitalização de acervos arqueológicos vem ganhando força em museus do mundo todo. Ele protege os originais, amplia o acesso ao conhecimento e cria pontes entre pesquisadores que antes precisavam de viagens internacionais para consultar peças específicas.

A coleção decifrada na Dinamarca mostra que muitos hábitos considerados modernos, como guardar recibos, listar funcionários e enviar cartas administrativas, já eram rotina há milênios. A diferença está apenas no suporte: em vez de papel ou tela, a argila molhada era o material de registro disponível.

E você, o que pensa sobre essas descobertas? Conhecia a existência dessas tábuas guardadas em museus europeus? Acredita que ainda existem muitos artefatos antigos esperando por decifração em coleções esquecidas? Deixe seu comentário, compartilhe sua opinião e marque alguém que adora história antiga.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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