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Sem política industrial brasileira, engenharia automotiva nacional entra em alerta

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Escrito por Sara Aquino Publicado em 20/12/2025 às 09:56
Avanço das importações enfraquece a engenharia automotiva nacional e expõe falhas na política industrial brasileira e no conteúdo local.
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Avanço das importações enfraquece a engenharia automotiva nacional e expõe falhas na política industrial brasileira e no conteúdo local.

A engenharia automotiva nacional enfrenta um processo silencioso de enfraquecimento diante do avanço de modelos produtivos baseados em importações, alertou a Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).

O diagnóstico foi apresentado pelo presidente da entidade, Marcus Vinicius Aguiar, nesta terça-feira, 16 de dezembro de 2025, durante o lançamento do Fórum Estratégico de Engenharia, em São Paulo.

Segundo a AEA, a ausência de uma política industrial brasileira estruturada tem reduzido o papel do país como polo de engenharia, pesquisa e desenvolvimento, mesmo diante de um cenário global que exige soluções em descarbonização, conteúdo local e desenvolvimento tecnológico. 

Modelo produtivo atual pressiona a engenharia automotiva nacional 

O alerta da AEA ocorre em um momento de mudança acelerada na indústria automotiva, marcada pela ampliação de importações em diferentes formatos produtivos.

Veículos chegam ao país totalmente prontos, parcialmente montados ou desmontados em kits, com baixa exigência de conteúdo local. 

De acordo com a entidade, esse modelo limita a transferência de tecnologia e reduz a necessidade de centros de engenharia no Brasil.

Como consequência, a engenharia automotiva nacional perde espaço, mesmo com profissionais altamente capacitados. 

“Estamos assistindo, de braços cruzados, ao enfraquecimento da engenharia nacional”, afirmou Marcus Vinicius Aguiar. 

Conteúdo local e desenvolvimento tecnológico em risco 

Para a AEA, o problema não está na abertura de mercado, mas na falta de contrapartidas estruturantes.

A ausência de exigências claras de conteúdo local e desenvolvimento tecnológico impede que a demanda se transforme em aprendizado industrial e geração de valor. 

Aguiar destaca que o Brasil possui domínio tecnológico relevante, especialmente em áreas estratégicas para a indústria automotiva global.

Entre elas estão os biocombustíveis, a eletrificação e a bioeletrificação, tecnologias alinhadas à realidade energética brasileira. 

“Esse cenário mais recente nos preocupa porque, nos últimos anos, estamos assistindo, de braços cruzados, certo enfraquecimento da engenharia nacional, quando — em realidade — nossos profissionais possuem domínio tecnológico”, argumenta o presidente da AEA. 

Paradoxo da indústria automotiva brasileira 

O diagnóstico apresentado pela entidade expõe um paradoxo.

O país dispõe de engenheiros qualificados e conhecimento técnico reconhecido, mas não consegue converter esse ativo em vantagem competitiva sustentável dentro da indústria automotiva. 

Sem uma política industrial brasileira consistente, o capital humano acaba subutilizado. Isso compromete a geração de empregos qualificados e limita a capacidade do país de liderar soluções tecnológicas em mobilidade sustentável. 

Enquanto isso, outros mercados transformam a transição energética em estratégia industrial de longo prazo. 

Experiência do metrô paulista reforça importância da política industrial 

A análise da AEA encontra respaldo na avaliação de Claudio de Senna Frederico, vice-presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP).

Em entrevista ao Diário do Transporte, Frederico relembrou que a implantação do Metrô de São Paulo, nos anos 1970, esteve associada a uma diretriz explícita de proteção à indústria nacional e transferência de tecnologia. 

Essa estratégia permitiu o surgimento e a consolidação de fabricantes brasileiros, criando uma base industrial sólida. Com o passar do tempo, no entanto, essa visão estratégica foi sendo abandonada. 

Compras públicas como ferramenta de desenvolvimento 

Segundo Frederico, países como Canadá, Estados Unidos e membros da União Europeia utilizam compras públicas como instrumentos ativos de política industrial.

O Brasil, por outro lado, mantém uma postura que já não encontra respaldo no cenário internacional. 

Ele cita o caso recente de Toronto, que cancelou uma licitação internacional para assegurar um percentual mínimo de conteúdo local na aquisição de trens. Para Frederico, trata-se de pragmatismo econômico, não de ideologia. 

“O mundo mudou. Vivemos uma era de barreiras agressivas e práticas protecionistas generalizadas”, afirmou. 

Fórum Estratégico de Engenharia mira políticas de Estado 

Com o Fórum Estratégico de Engenharia, a AEA busca justamente contribuir com subsídios técnicos para a formulação de políticas industriais de Estado.

A iniciativa pretende reunir montadoras, sistemistas, governo, academia e instituições financeiras em torno de uma agenda comum. 

A proposta é fortalecer a engenharia automotiva nacional, ampliar o conteúdo local e impulsionar o desenvolvimento tecnológico, com reflexos diretos no transporte coletivo e na mobilidade urbana. 

A entidade planeja realizar quatro edições do fórum por ano a partir de 2026. 

Engenharia forte como estratégia de desenvolvimento 

Assim, a convergência entre as análises da AEA e de especialistas do setor reforça um ponto central: defender a indústria automotiva nacional é uma decisão estratégica.

Sem engenharia forte, o país perde capacidade de decidir, inovar e transformar investimentos públicos em desenvolvimento econômico e social duradouro. 

Então nesse contexto, a política industrial brasileira deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade para garantir competitividade, soberania tecnológica e geração de valor no longo prazo. 

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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