Pesquisa realizada na caverna Üçağızlı II, na Turquia, indica que neandertais e Homo sapiens mantiveram práticas culturais semelhantes durante dezenas de milhares de anos, reforçando uma visão mais complexa sobre a convivência entre as duas espécies humanas
Uma descoberta arqueológica feita na caverna Üçağızlı II, no sul da Turquia, está ampliando o entendimento sobre a relação entre neandertais e Homo sapiens durante a Idade da Pedra.
O estudo revelou que as duas espécies ocuparam o mesmo abrigo em períodos diferentes, porém deixaram evidências de comportamentos muito semelhantes, incluindo ferramentas de pedra, práticas de caça e conchas transportadas intencionalmente.
Os resultados foram publicados no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). A pesquisa foi conduzida por arqueólogos da Universidade de Gaziantep, na Turquia, com colaboração da Universidade de Kyoto, no Japão.
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Descoberta mostra ocupação sucessiva de neandertais e Homo sapiens
As primeiras escavações sistemáticas na caverna começaram em 2024, embora o sítio arqueológico já fosse conhecido pelos pesquisadores havia anos.
Durante as análises, os cientistas encontraram quatro dentes isolados e uma mandíbula parcial contendo dois dentes, permitindo identificar quais grupos humanos ocuparam o local ao longo do tempo.
A datação das camadas sedimentares revelou que os neandertais viveram na caverna entre aproximadamente 77 mil e 59 mil anos atrás.
Posteriormente, Homo sapiens ocuparam o mesmo abrigo entre cerca de 59 mil e 47 mil anos atrás, indicando uma sucessão cronológica das ocupações.
Segundo İsmail Baykara, professor do Departamento de Arqueologia da Universidade de Gaziantep e autor principal do estudo, as evidências sugerem que as duas espécies provavelmente compartilharam mais do que apenas a mesma região.

Ferramentas de pedra e técnicas de caça permaneceram praticamente iguais
Uma das principais conclusões do trabalho envolve a forte continuidade tecnológica registrada no sítio arqueológico.
Durante ambos os períodos de ocupação, neandertais e Homo sapiens produziram ferramentas de sílex pertencentes à tradição Musteriense, tecnologia conhecida desde descobertas realizadas originalmente em um abrigo rochoso na França.
Além disso, os pesquisadores verificaram que as duas espécies caçavam praticamente os mesmos animais.
Entre eles estavam:
- Cabras selvagens;
- Veados;
- Javalis.
Esse padrão chamou a atenção dos arqueólogos porque demonstra que a chegada do Homo sapiens ao local não provocou uma mudança imediata nas práticas tradicionais desenvolvidas na região.
Conchas encontradas reforçam hipótese de tradição cultural compartilhada
Outro elemento considerado surpreendente foi a presença da concha Columbella rustica tanto nas camadas atribuídas aos neandertais quanto naquelas associadas aos humanos modernos.
A espécie possui dimensões pequenas e não era utilizada como alimento.
Por isso, os pesquisadores classificaram essas peças como manuportes, objetos transportados deliberadamente por seus coletores desde a costa do Mediterrâneo até a caverna.
Algumas conchas apresentavam perfurações naturais ou produzidas posteriormente, levantando a possibilidade de terem sido utilizadas como ornamentos.
Segundo Naoki Morimoto, pesquisador da Universidade de Kyoto e coautor do estudo, os neandertais também parecem ter atribuído valor específico à Columbella rustica, mesmo existindo muitas outras espécies disponíveis na região costeira.
Sítio arqueológico ajuda a compreender a expansão do Homo sapiens
A caverna Üçağızlı II ocupa uma posição estratégica para compreender um dos períodos mais importantes da história humana.
Há cerca de 60 mil anos, ocorreu uma das principais migrações do Homo sapiens para fora da África, processo que levou nossa espécie a ocupar diferentes regiões da Eurásia.
Os pesquisadores acreditam que áreas correspondentes ao atual Oriente Médio e à Turquia tenham funcionado como zonas de encontro entre Homo sapiens e neandertais.
Entretanto, o novo estudo destaca que ainda não existem evidências arqueológicas suficientes para confirmar um contato direto dentro da própria caverna.
As conclusões baseiam-se principalmente na forte continuidade observada nas tecnologias, nas estratégias de caça e no transporte das conchas ao longo das diferentes ocupações.
Comparação com outro sítio arqueológico revela cenário mais complexo
O arqueólogo Ludovic Slimak, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS), classificou a descoberta como extremamente importante para compreender as diferentes trajetórias culturais da pré-história.
Segundo ele, o aspecto mais relevante não está apenas na semelhança entre ferramentas ou objetos encontrados.
Na avaliação do pesquisador, o mais significativo é perceber que os Homo sapiens presentes na caverna parecem ter incorporado uma tradição Musteriense já consolidada naquela região.
Slimak comparou Üçağızlı II com a Gruta Mandrin, no sul da França, onde também ocorreram ocupações de neandertais e humanos modernos.
Entretanto, naquele sítio francês, as ferramentas utilizadas pelo Homo sapiens eram muito diferentes das produzidas pelos neandertais.
Essa comparação indica que diferentes populações humanas desenvolveram histórias culturais distintas durante o mesmo período.
Segundo Baykara, novas pesquisas serão necessárias para determinar se Üçağızlı II representa um caso isolado ou se outras regiões também preservam evidências semelhantes de interação cultural entre neandertais e Homo sapiens.
A descoberta reforça que as tradições locais podem ter desempenhado um papel tão importante quanto a própria evolução biológica na formação dos comportamentos humanos.
Você acredita que neandertais e Homo sapiens chegaram a trocar conhecimentos culturais diretamente, ou essas semelhanças surgiram apenas pela convivência no mesmo ambiente?
