Estudos da USP e da Ecoa alertam que mudanças regulatórias no mercado de gás de cozinha podem afetar arrecadação, fiscalização, rastreabilidade dos botijões e segurança de milhões de consumidores.
O mercado de gás de cozinha entrou no centro de um debate regulatório que pode gerar forte impacto econômico e social no Brasil. Segundo estudos da Escola de Segurança Multidimensional da USP, em fevereiro de 2026, e da Ecoa Consultoria Econômica, em março de 2026, propostas em análise podem ampliar a informalidade no setor de GLP.
Atualmente, o país distribui cerca de 35 milhões de botijões por mês, o equivalente a 13 unidades por segundo. Entretanto, mudanças como o cross-filling, o enchimento fracionado em centrais remotas e a substituição da marca física em alto-relevo preocupam especialistas.
Rastreabilidade dos botijões vira ponto central do debate
Além disso, os estudos apontam que a flexibilização pode enfraquecer a rastreabilidade física dos botijões. Hoje, a marca gravada permite identificar responsabilidades em casos de falhas, vazamentos ou acidentes.
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De acordo com a USP, a retirada desse controle pode dificultar a fiscalização. Consequentemente, empresas poderiam investir menos em segurança, manutenção e requalificação dos vasilhames.
Entre 2014 e 2024, o setor requalificou 118 milhões de recipientes. No mesmo período, 6 milhões de botijões foram inutilizados por falta de condições adequadas. Os investimentos superaram R$ 9 bilhões, enquanto a requalificação anual movimenta cerca de R$ 280 milhões.
Crime organizado pode avançar no setor de GLP
Nesse cenário, o estudo coordenado pelo professor Leandro Piquet Carneiro, da USP, alerta para um risco adicional. Segundo a análise, a diluição da responsabilidade pode abrir espaço para milícias e facções.
Atualmente, em favelas do Rio de Janeiro, estima-se que 70% a 80% do comércio varejista de botijões já esteja sob influência de grupos criminosos. Com a flexibilização, esses grupos poderiam avançar para o enchimento e a distribuição.
Portanto, segundo o professor, o GLP pode se tornar uma nova fronteira do crime organizado no Brasil. O estudo também relembra os anos 1980, antes do Programa Nacional de Requalificação dos Botijões, quando acidentes domésticos aumentaram.
Rombo fiscal pode chegar a R$ 797 milhões por ano
Além do risco à segurança, a Ecoa Consultoria Econômica aponta impacto direto nos cofres públicos. Caso o mercado de GLP alcance informalidade semelhante à dos cigarros, de 41%, a perda pode chegar a R$ 797,1 milhões por ano.
Ainda assim, cenários menores também preocupam. Com informalidade parecida à dos combustíveis automotivos, de 8,3%, a perda anual seria de R$ 120,6 milhões. Já em nível semelhante ao das bebidas destiladas, de 28%, o rombo chegaria a R$ 474,8 milhões.
Segundo a economista Claudia Viegas, da Ecoa, a fiscalização complexa e espalhada pelo país aumenta o risco. Além disso, as fiscalizações da ANP caíram cerca de 18% em 2024.
Fiscalização menor pode afetar famílias mais pobres
Ao mesmo tempo, os estudos alertam para o impacto sobre consumidores vulneráveis. Programas como o Gás do Povo ampliam o acesso ao gás de cozinha para cerca de 15 milhões de famílias.
Porém, a informalidade pode impedir o acesso ao cashback previsto na Reforma Tributária. Isso ocorre porque a devolução de impostos depende da emissão de nota fiscal.
Diante disso, USP e Ecoa recomendam a suspensão das discussões sobre cross-filling e enchimento remoto. As instituições defendem recompor o orçamento da ANP, fortalecer a fiscalização e manter a rastreabilidade física dos botijões.

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