Em 2002, Padgett era um jovem de festas e bares em Washington quando dois homens o agrediram à saída de um karaokê. A pancada o deixou com transtorno obsessivo compulsivo, mas também o fez enxergar o mundo em fractais, em um dos casos mais citados de gênios repentinos.
Um assalto violento transformou Jason Padgett, um jovem americano festeiro, em um dos raros gênios da matemática que passaram a enxergar números e geometria como imagens, e não como meras abstrações. A história foi contada por ele ao programa Outlook, do serviço mundial da BBC, na série especial sobre sentidos extraordinários, e tem como ponto de virada uma agressão sofrida em 2002.
O mais surpreendente é que a mudança, a princípio assustadora, acabou ganhando explicação médica. Após o ataque ocorrido em Tacoma, no estado de Washington, Padgett desenvolveu um transtorno obsessivo compulsivo, mas também passou a ver o mundo em padrões matemáticos, algo depois associado a um diagnóstico de síndrome do sábio e de sinestesia, confirmado por ressonâncias cerebrais. Diferentemente do que o senso comum poderia imaginar, o quadro não ficou sem resposta.
A vida de festas que terminou numa noite de 2002

imagem: Jason Padgett/BBC
Antes de figurar entre os raros gênios surgidos após um trauma na cabeça, Padgett levava uma vida que ele mesmo descreve como superficial. Ele se interessava apenas por garotas, festas e álcool, saía para bares de seis a sete noites por semana e chegava ao trabalho de ressaca no dia seguinte. Fiel à estética dos anos 80 da juventude no Alasca, usava cabelo curto na frente e comprido atrás e casacos de couro sem camisa, e resume aquela fase, rindo, como o estereótipo do idiota que entra em um bar.
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Tudo mudou de uma hora para outra na sexta-feira 13 de setembro de 2002. Foi em Tacoma, no estado de Washington, para onde ele havia se mudado pouco antes. Naquela noite, Padgett foi com uma amiga e o rapaz com quem ela saía a um karaokê e, fiel aos anos 80, cantou Blaze of Glory, de Bon Jovi, artista que adorava imitar. No palco, reparou em dois homens sentados em um canto, mas não deu importância, sem imaginar que aqueles desconhecidos mudariam a sua vida para sempre.
O assalto à saída do karaokê

IMAGEM: iStock/BBC
O episódio que o colocaria na lista dos gênios surgidos de traumas começou na saída do bar. Quando o grupo deixou o karaokê, Padgett sentiu e ouviu um golpe forte e repentino na cabeça, que o fez cair de joelhos, e enxergou uma luz branca, como se alguém tivesse tirado uma foto. A amiga observava em choque, o rapaz que a acompanhava saiu correndo e as pessoas dentro do bar assistiam pela janela sem agir, enquanto ele tentava reagir mordendo a perna de um dos agressores.
Só quando um deles exigiu a jaqueta é que ele entendeu o que acontecia. Ao ouvir a ordem, Padgett percebeu que era um assalto e entregou o casaco, que havia custado apenas US$ 99 e ficou danificado. Os atacantes fugiram, e ele teve a sorte de estar perto de um hospital, onde foi diagnosticado com uma concussão e um sangramento no rim, tratado com uma injeção de analgésico e liberado para casa.
O TOC e os três anos trancado em casa
O mesmo trauma que o aproximaria dos gênios da matemática também o adoeceu. O episódio deixou como sequela um transtorno obsessivo compulsivo, e o medo do que aconteceu, somado ao fato de ninguém o ter ajudado, fez Padgett temer sair e estar perto de outras pessoas. Ele passou a viver trancado em casa, com uma obsessão por limpeza, lavando as mãos centenas de vezes por dia por um medo irracional de germes, e chegou a desinfetar o próprio dinheiro, esfregando cada cédula, uma a uma.
Longe da família e dos amigos, o distúrbio passou despercebido. Foi assim que ele viveu três anos, sem que ninguém notasse o agravamento do quadro. Mas o trauma na cabeça havia deixado outra consequência, bem mais estranha, que mudou, literalmente, a forma como ele enxergava o mundo ao redor.
Quando ele começou a ver fractais

imagem: iStock
Aos poucos, tudo passou a parecer levemente pixelado, das nuvens ao sol, no caminho que o empurraria para o grupo dos gênios da matemática. Ao observar a água escoar pelo ralo, Padgett via tangentes e linhas como ondas que se cruzavam, em uma experiência que achava linda e ao mesmo tempo assustadora. As formas pixeladas pareciam se mover dentro de uma grade, como em um videogame, e tinham, para ele, uma natureza matemática.
A curiosidade o levou a procurar respostas na internet. Foi ali que ele aprendeu sobre a geometria fractal, campo impulsionado pelo francês Benoit Mandelbrot, em que figuras se repetem para formar outras maiores e foram descritas como os blocos que constroem tudo o que existe no universo. Padgett percebeu que tudo o que via podia ser separado em pedaços menores, porém idênticos, enxergou padrões em qualquer coisa e fez dessas figuras fractais a sua nova obsessão, que passou a desenhar sem parar.
O diagnóstico que explicou tudo: síndrome do sábio e sinestesia
Por um tempo, a mudança foi tão impressionante quanto inexplicada, até encontrar uma resposta médica. O ponto de virada veio quando Padgett viu na televisão uma entrevista com Daniel Tammet, um homem com Asperger, do espectro autista, considerado um gênio da matemática e da linguística, e um dos chamados savants. Foi a primeira vez que alguém, além dele, falou sobre como os números se parecem, o que o aproximou de outros gênios com mentes fora do comum.
A partir daí, ele buscou um especialista para entender o próprio caso. Uma série de ressonâncias cerebrais confirmou que ele tinha a síndrome do sábio, e ele também foi diagnosticado com sinestesia, o quadro em que os sentidos se misturam, o que explicou como conseguia, de fato, ver a matemática. Em vez de deixar o mistério em aberto, o diagnóstico foi, para Padgett, um alívio.
A nova vida, o livro e o perdão ao agressor

imagem: Jason Padgett/ BBC
O desejo de compreender o que via tirou Padgett do isolamento. Ele procurou ajuda psicológica para o transtorno obsessivo compulsivo e se matriculou em um curso de matemática em uma universidade próxima, uma guinada que não só o fez sair de casa como o levou a conhecer a mulher que viria a ser sua esposa, e a sua vida melhorou drasticamente. Depois, passou a viajar o mundo contando a sua história e escreveu um livro sobre a experiência, Struck by Genius, algo como golpeado pela genialidade, que o firmou entre os gênios reconhecidos no tema.
A fama trouxe uma reviravolta inesperada. Um dos homens que o atacaram, a quem Padgett jurou vingança por anos, entrou em contato demonstrando grande pesar, atribuiu o ataque ao álcool e às drogas e disse que, como ele, havia começado uma nova etapa de vida, livre de violência, e Padgett aceitou o pedido de desculpas e o parabenizou pela mudança. Mesmo após anos de dor e de transtorno, ele afirma que “passaria pela mesma coisa novamente para alcançar este despertar matemático”, uma reflexão pessoal que não apaga o fato de desfechos assim serem raríssimos, já que um trauma como o dele quase sempre traz prejuízo, e não talento.
O caso de Jason Padgett segue como um dos mais citados entre os raros gênios que parecem surgir da noite para o dia após uma pancada na cabeça, mas a sua história também desfaz a ideia de que isso não teria explicação. As ressonâncias cerebrais ligaram a capacidade de ver fractais e matemática a uma síndrome do sábio adquirida e à sinestesia, ao mesmo tempo em que a violência deixou marcas reais, da concussão e do sangramento no rim ao transtorno obsessivo compulsivo e aos três anos de isolamento. De cantor festeiro de karaokê a um homem que lê o universo em padrões que se repetem, a vida dele virou em uma única noite, em um desfecho extraordinário justamente por ser tão incomum.
E você, o que acha dessa capacidade do cérebro de se transformar de forma tão radical? Conhece outros casos de gênios que despontaram após um trauma ou uma doença, e acredita que talentos assim estavam adormecidos o tempo todo? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre o tema, com respeito às diferentes visões.

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