1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Helicópteros despejam 6.000 troncos em 38 km de rios remotos de Washington para reverter décadas em que biólogos retiravam madeira da água achando que faziam o certo
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Helicópteros despejam 6.000 troncos em 38 km de rios remotos de Washington para reverter décadas em que biólogos retiravam madeira da água achando que faziam o certo

Publicado em 18/06/2026 às 00:57
Atualizado em 18/06/2026 às 00:59
Helicópteros recolocam 6.000 troncos em rios remotos de Washington, devolvendo a madeira que biólogos tiraram da água, para recriar habitat
Helicópteros recolocam 6.000 troncos em rios remotos de Washington, devolvendo a madeira que biólogos tiraram da água, para recriar habitat
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

No centro de Washington, o maior projeto de restauração de rios já feito na região usa troncos vindos de desbaste florestal para recriar poços, reter cascalho e religar planícies aluviais. A aposta é devolver habitat a salmões e trutas e segurar água diante do clima mais quente.

Helicópteros estão despejando mais de 6.000 troncos ao longo de 38 quilômetros de rios e córregos remotos do estado de Washington, nos Estados Unidos, para reverter décadas em que biólogos retiravam a madeira da água acreditando que faziam o certo. A reportagem é da emissora pública OPB, que acompanhou no centro do estado o maior projeto de restauração de rios já realizado na região.

A operação inverte uma lógica que durou quase quatro décadas. Há quase 40 anos, o biólogo Scott Nicolai começou na restauração de riachos fazendo o oposto do que faz agora, ou seja, tirando troncos da água. Hoje, a madeira voltou a ser tratada como peça central dos rios, e o projeto recoloca os troncos para reabrir poços, reter cascalho, religar planícies aluviais e devolver condições para que salmões e trutas voltem a nadar e desovar.

Quando a madeira nos rios era vista como inimiga

imagem ilustrativa/explicativa
imagem ilustrativa/explicativa

Por muito tempo, um grande amontoado de troncos era lido como problema. A mentalidade dominante, prática e hoje vista como erro ecológico, interpretava a madeira acumulada como barreira para os peixes e obstáculo ao bom fluxo do riacho. O objetivo era deixar a água passar limpa e veloz, como se o melhor rio fosse o mais rápido e reto possível.

Essa visão tratou os rios como infraestrutura de drenagem, e não como sistemas vivos. Os troncos eram removidos, as margens simplificadas e o leito perdia as suas irregularidades. Com o tempo, o resultado ficou evidente, com menos abrigo, menos poços profundos, menos retenção de cascalho, menos alimento na água e mais dificuldade para espécies que dependem de ambientes frios e complexos.

Por que os troncos voltaram aos rios: a arquitetura ecológica

Os biólogos usam fitas de sinalização rosa e azul para indicar aos pilotos do helicóptero onde os troncos devem ser colocados. Há 1.000 troncos para serem colocados no rio Little Naches.
imagem: Courtney Flatt
Os biólogos usam fitas de sinalização rosa e azul para indicar aos pilotos do helicóptero onde os troncos devem ser colocados. Há 1.000 troncos para serem colocados no rio Little Naches.
imagem: Courtney Flatt

Hoje, Scott Nicolai, agora biólogo de habitats da Nação Yakama, está no centro de uma virada de lógica. A madeira voltou a ser considerada parte fundamental do ecossistema dos rios porque cumpre várias funções ao mesmo tempo. Ela dá complexidade ao ambiente, criando sombras, remansos e fendas que servem de abrigo, forma poços ao alterar o fluxo e fazer a água escavar áreas mais profundas, e armazena o cascalho que funciona como o chão onde salmões e trutas desovam.

A madeira ainda sustenta a base alimentar do rio. Insetos aquáticos rastejam pelos troncos e se alimentam das algas que crescem ali, e esses insetos viram comida na cadeia do rio. Por isso, recolocar a madeira não significa entupir a água, e sim reconstruir a arquitetura ecológica dos rios que foi desmontada ao longo de décadas.

O maior projeto de restauração do Noroeste em números

A intervenção tem escala incomum. O projeto atua em mais de 38 quilômetros de rios e córregos na Reserva Yakama e em terras cedidas, envolvendo proprietários privados, o Serviço Florestal dos Estados Unidos e os departamentos de pesca e vida selvagem e de recursos naturais de Washington. É financiado por oito agências diferentes, entre elas a Bonneville Power Administration, e conta com seis organizações parceiras, como a The Nature Conservancy e o Mid Columbia Fisheries Enhancement Group.

O foco é recuperar trechos degradados por um conjunto de ações históricas. Entre as causas citadas estão o sobrepastoreio, que altera a vegetação e a estabilidade das margens, a construção de ferrovias e barragens para extração de madeira, que mudou o curso dos rios, e a própria limpeza dos córregos por biólogos, que removia troncos e simplificava o habitat. Phil Rigdon, diretor do Departamento de Recursos Naturais da Nação Yakama, resume a guinada como aprender com os próprios erros e buscar uma forma melhor de cuidar dos rios.

Por que os helicópteros entraram na operação

Um helicóptero é usado para transportar toras de madeira de uma área de armazenamento até riachos que precisam de restauração, mas que não são mais acessíveis por estradas. Este é o maior esforço de restauração de riachos já realizado no Noroeste.
imagem: Courtney Flatt
Um helicóptero é usado para transportar toras de madeira de uma área de armazenamento até riachos que precisam de restauração, mas que não são mais acessíveis por estradas. Este é o maior esforço de restauração de riachos já realizado no Noroeste.
imagem: Courtney Flatt

A logística explica a presença das aeronaves. Restaurar em larga escala exige volume de material e acesso, mas muitos trechos dos rios escolhidos não chegam mais a ser alcançados por estrada, porque algumas vias deixaram de existir e outras nunca tiveram acesso viável. Uma restauração tradicional, com caminhões e máquinas, ficaria limitada justamente onde a necessidade é maior, e é aí que o helicóptero passa a substituir o papel da estrada, buscando as toras em uma área de armazenamento e largando diretamente nos pontos isolados.

Pessoas observam enquanto um helicóptero levanta toras de madeira no ar.
imagem: Courtney Flatt
Pessoas observam enquanto um helicóptero levanta toras de madeira no ar.
imagem: Courtney Flatt

O transporte segue uma coreografia precisa. Um cabo longo fica pendurado sob a aeronave, o piloto prende com cuidado quatro troncos de tamanho normal, sobe com a carga e voa até o trecho alvo, em um caso a cerca de 2,4 quilômetros de uma seção do rio Little Naches onde as estradas não chegam mais. No solo, biólogos usam fitas de sinalização rosa e azul para indicar onde a madeira deve ser colocada, e o barulho das hélices serve de alerta para todos saírem do caminho, em uma etapa que prevê mil troncos só nesse rio.

De onde vem a madeira e como ela segura a água

Um tronco é colocado no rio Little Naches.
imagem: Courtney Flatt
Um tronco é colocado no rio Little Naches.
imagem: Courtney Flatt

Os troncos não são escolhidos ao acaso. A mistura inclui abeto de Douglas, abeto grandis e cedro, e a madeira vem de uma colheita usada pela The Nature Conservancy para desbastar florestas em áreas mais altas. Reese Lolley, diretor de restauração florestal e incêndios da organização em Washington, descreve a ideia como restaurar a paisagem inteira, aquática e terrestre, e observa que o mesmo helicóptero que leva madeira aos rios também retira toras de áreas onde construir estradas seria inviável, transformando o que viraria sobra em estrutura ecológica.

O efeito hidrológico é o coração do projeto. Colocados nos rios, os troncos diminuem a velocidade da correnteza, permitem que a água se acumule em certos pontos e aumentam a infiltração no lençol freático. Nicolai compara essas áreas a esponjas que espalham a água pelas planícies aluviais e a liberam lentamente de volta ao riacho, criando armazenamento extra e ajudando a resfriar a água que vem aquecendo, o oposto do que ocorria quando tratores limpavam o leito e desconectavam a planície do rio.

Clima, peixes e a dimensão simbólica da reparação

O projeto não trata apenas de peixes. Ele é descrito como vital à medida que o clima esquenta, porque guardar água no sistema dos rios se torna decisivo em períodos de calor e seca. Rios rápidos e simplificados perdem água e aquecem com facilidade, com poucos poços frios, enquanto rios com madeira, poços e conexão com a planície aluvial retêm água, liberam aos poucos e mantêm áreas frias e profundas, devolvendo ao curso o comportamento de rio, e não de canal.

O desafio aparece no próprio terreno. A caminho do Little Naches, o grupo atravessa um leito seco, mas Nicolai enxerga no cascalho sob folhas molhadas um sinal de que ali viviam salmões e de que, com sorte, eles voltarão. A iniciativa carrega ainda um peso humano e simbólico, e, à beira do rio, enquanto os helicópteros trabalhavam, líderes tribais fizeram uma oração pelo sucesso do projeto e pelo retorno da terra ao que era, com o antigo presidente tribal Jerry Meninick resumindo a ideia como devolver àquela terra o que era seu por direito.

E você, o que acha de reverter décadas de manejo dos rios devolvendo à água a madeira que um dia foi retirada? Acredita que recolocar troncos com helicóptero pode mesmo ressuscitar ecossistemas inteiros, ou o desafio é grande demais? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre o tema, com respeito às diferentes visões.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x