Projeto alemão de avião espacial reutilizável combina decolagem em pista, pesquisa hipersônica e promessa de voos acima de Mach 10, enquanto demonstradores em escala testam tecnologias de propulsão, controle e operação para aproximar aeroportos da corrida por acesso flexível ao espaço.
Um avião espacial reutilizável em desenvolvimento na Alemanha tenta aproximar a operação de aeroportos da lógica dos lançamentos espaciais, com decolagem horizontal, pouso em pista convencional e desempenho anunciado para voos acima de Mach 10 em missões específicas.
O projeto Aurora, da Polaris Spaceplanes, é apresentado pela empresa como uma plataforma multipropósito para acesso ao espaço, pesquisa hipersônica, transporte ultrarrápido de cargas e aplicações de defesa, sem depender de uma torre ou plataforma vertical de lançamento.
A comparação com o Concorde dimensiona o salto técnico pretendido, já que o avião comercial supersônico franco-britânico operava em torno de Mach 2, enquanto o Aurora é descrito pela Polaris como capaz de superar Mach 10 e ultrapassar 100 km de altitude.
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Pelos dados divulgados pela fabricante, o sistema poderá levar até 1.000 kg de carga orbital em configuração de dois estágios, com estágio superior descartável, ou até 10.000 kg em trajetórias suborbitais e hipersônicas voltadas a testes e transporte.
Aurora da Polaris mira voo hipersônico e acesso ao espaço

A proposta ainda está em desenvolvimento, mas não se limita a imagens conceituais ou promessas distantes, pois a Polaris afirma ter construído e voado sete demonstradores em escala, somando 250 voos de teste em sua frota experimental.
Esse histórico é parte central da estratégia da empresa, que usa aeronaves menores para validar controle de voo, integração de sistemas, operação fora da linha de visada, propulsão a jato e etapas associadas ao uso de motores-foguete.
O Aurora foi concebido a partir de mais de 30 anos de pesquisa alemã e europeia em aviões espaciais, segundo a Polaris, com origem técnica associada a trabalhos desenvolvidos no ambiente do Centro Aeroespacial Alemão, o DLR.
Em julho de 2024, o DLR anunciou um acordo de cooperação com a Polaris para pesquisas ligadas a aviões espaciais de decolagem horizontal e aeronaves hipersônicas, incluindo estudos sobre integração segura desses veículos ao espaço aéreo.
A diferença operacional mais visível está na ausência de uma plataforma tradicional de lançamento, já que a empresa afirma que o Aurora foi desenhado para partir de pistas ao redor do mundo, em uma rotina mais próxima da aviação.
Essa característica muda a forma como o projeto é apresentado ao mercado, pois foguetes convencionais dependem de bases especializadas, janelas de lançamento e longos ciclos de preparação, enquanto a Polaris promete preparação e retorno de missão em menos de 24 horas.
Decolagem em pista muda a lógica dos lançamentos
A reutilização também ocupa lugar central na arquitetura divulgada, com a empresa apontando um reaproveitamento total do sistema entre 90% e 100%, dependendo da configuração da missão e do uso ou não de estágio superior descartável.
Na prática, a ambição é reduzir custos e aumentar a frequência de voos ao preservar a maior parte da estrutura depois de cada operação, em vez de descartar componentes principais como ocorre em muitos sistemas espaciais tradicionais.

Entre os demonstradores já divulgados, o MIRA II ganhou destaque por ter realizado, em 29 de outubro de 2024, a primeira ignição em voo de um motor-foguete aerospike linear, conforme informado pela Polaris em seus canais oficiais.
O veículo tem 5 metros de comprimento, massa de decolagem de projeto de 240 kg, quatro turbojatos e um motor aerospike linear AS-1F de 1 kN, alimentado por querosene e oxigênio líquido.
A aeronave também é descrita como capaz de operar além da linha de visada e foi equipada com sistema redundante de terminação de voo, recurso usado em programas experimentais para reduzir riscos durante campanhas de teste.
Antes do MIRA II, a Polaris já havia desenvolvido outros demonstradores, como STELLA, ALEDA, ATHENA, MIRA e MIRA Light, cada um voltado a etapas específicas de validação, desde aerodinâmica e controle até operação com turbinas.
MIRA II testa motor aerospike em voo
A sequência mostra uma abordagem incremental, na qual a empresa testa partes do conceito em veículos menores antes de avançar para plataformas mais complexas, especialmente em regimes de voo que envolvem alta velocidade, altitude elevada e propulsão combinada.
A própria frota experimental também revela a variedade de soluções em estudo, com modelos movidos por motores elétricos, turbojatos e combinações de turbojatos com motores-foguete, conforme a função técnica de cada campanha.
No caso do MIRA original, a Polaris informa que a aeronave realizou seu primeiro voo com potência de turbina no fim de 2023 e passou por ignição de aerospike em teste de rolagem em janeiro de 2024.
O mesmo demonstrador, no entanto, foi danificado em um acidente de pista em fevereiro de 2024, e a empresa decidiu não reparar a estrutura, passando diretamente para os veículos MIRA II e MIRA III.
Esse ponto reforça que o programa segue em fase experimental, embora com ensaios reais, protótipos voados e contratos de pesquisa, e ainda dependa de novos demonstradores antes de alcançar uma operação plena do Aurora.
A Polaris afirma que o Aurora poderá alcançar qualquer inclinação orbital, além de oferecer capacidade de abortagem de missão com retorno seguro da carga útil, característica apresentada como vantagem em relação a lançadores convencionais.
Avião espacial reutilizável amplia disputa por acesso flexível ao espaço
Outro uso previsto é a pesquisa hipersônica, área que interessa a governos, universidades e empresas por envolver materiais, controle de voo, sensores e sistemas capazes de suportar velocidades muito superiores às da aviação comercial.
A empresa também cita transporte de bens de alto valor em médias distâncias, com redução de tempo de voo, e uma configuração opcional para voos suborbitais humanos, embora essa possibilidade ainda apareça como etapa futura do conceito.
As aplicações de defesa aparecem entre os mercados listados pela Polaris, sobretudo em missões de reconhecimento hipersônico e operações em alta altitude, mas o desenvolvimento público do Aurora permanece associado ao conceito de plataforma reutilizável e multipropósito.
O interesse europeu nesse tipo de veículo ocorre em um cenário de busca por acesso mais flexível ao espaço, maior cadência de testes hipersônicos e alternativas que combinem infraestrutura aeroportuária com capacidades hoje concentradas em foguetes.
Mesmo com números chamativos, o Aurora ainda precisa demonstrar em escala maior a combinação prometida de decolagem em pista, aceleração hipersônica, operação acima de 100 km de altitude, retorno seguro e reutilização em ciclos curtos.
Por enquanto, o avanço concreto está nos demonstradores já voados, nos testes com motor aerospike e na cooperação técnica com instituições como o DLR, elementos que diferenciam o programa de propostas puramente conceituais.


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