Resultados inéditos apresentados em Chicago surpreendem especialistas e indicam uma nova era para pacientes que tinham poucas alternativas após o fracasso da quimioterapia convencional
Um medicamento oral experimental está mudando a forma como médicos enxergam o tratamento do câncer de pâncreas metastático. Durante a sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO), realizada em Chicago, nos Estados Unidos, em 1º de junho de 2026, pesquisadores divulgaram os resultados finais do estudo RASolute 302. Os dados mostraram que o daraxonrasib praticamente dobrou a sobrevida de pacientes que já não respondiam à quimioterapia.
A informação foi divulgada pelo g1 com base nos resultados apresentados durante a ASCO 2026 e nos dados publicados posteriormente no Journal of Clinical Oncology. A repercussão foi imediata. Afinal, poucos avanços recentes conseguiram gerar tanto entusiasmo entre especialistas que dedicam suas carreiras ao combate dos tumores mais agressivos.
O impacto foi tão forte que muitos médicos se emocionaram durante a apresentação. Além disso, centenas de profissionais aplaudiram de pé ao final da sessão. Em congressos científicos, esse tipo de reação é raro. No entanto, os números apresentados pelo estudo chamaram atenção justamente por desafiar décadas de limitações no tratamento do câncer de pâncreas.
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Estudo clínico de fase 3 estabelece um novo padrão terapêutico
Os pesquisadores desenvolveram o RASolute 302 seguindo os critérios mais rigorosos da medicina moderna. O estudo utilizou um ensaio clínico randomizado de fase 3, considerado o padrão ouro para validar novos tratamentos antes da adoção mundial.
Ao todo, 500 pacientes participaram da pesquisa. Os cientistas dividiram os participantes aleatoriamente em dois grupos. Um grupo recebeu o daraxonrasib em comprimido uma vez ao dia. O outro continuou com a quimioterapia convencional.
Esse modelo reduz interferências externas e aumenta a confiabilidade dos resultados. Dessa forma, os pesquisadores conseguem comprovar se os benefícios observados realmente surgem por causa do tratamento.
Os resultados finais impressionaram especialistas de diversos países.
Pacientes com mutação RAS G12 apresentaram os melhores resultados. Essa mutação representa a alteração genética mais comum nos tumores pancreáticos. Nesse grupo, a sobrevida mediana chegou a 13,2 meses com o uso do daraxonrasib.
Já entre os pacientes que continuaram na quimioterapia, a sobrevida mediana ficou em apenas 6,6 meses.
Na prática, o novo tratamento quase dobrou o tempo de vida desses pacientes.
Além disso, os pesquisadores observaram uma redução de 60% no risco de morte.
Outro dado chamou atenção. O tempo até a progressão da doença alcançou 7,3 meses no grupo que recebeu o comprimido. No tratamento convencional, esse período ficou em apenas 3,5 meses.
Os cientistas também analisaram todos os participantes do estudo. Mesmo incluindo pacientes sem mutação RAS identificada, os resultados permaneceram muito semelhantes.
Como o daraxonrasib reduziu o crescimento dos tumores
Os números relacionados à redução tumoral também surpreenderam.
Entre os pacientes que utilizaram o daraxonrasib, 31% apresentaram redução mensurável do tumor.
No grupo tratado com quimioterapia, apenas 11,2% alcançaram esse resultado.
Essa diferença reforçou ainda mais a eficácia da nova terapia. Além disso, muitos pacientes mantiveram a resposta por tempo suficiente para ampliar significativamente a sobrevida.
Para especialistas presentes no congresso, esse resultado representa uma mudança importante no tratamento da doença. Afinal, poucas terapias conseguem combinar controle tumoral, aumento de sobrevida e baixa toxicidade ao mesmo tempo.
Baixa toxicidade fortalece o potencial do medicamento
Outro ponto importante apareceu durante a avaliação dos efeitos colaterais.
Os pesquisadores registraram uma taxa extremamente baixa de interrupção do tratamento entre os pacientes que utilizaram o daraxonrasib.
Apenas 1,2% precisaram suspender o medicamento devido a efeitos adversos.
No grupo da quimioterapia, esse índice chegou a 11,2%.
Essa diferença ganhou destaque porque pacientes com câncer de pâncreas metastático normalmente apresentam um estado clínico delicado. Por isso, tratamentos menos agressivos costumam trazer benefícios adicionais para a qualidade de vida.
Stephen Stefani, oncologista da Americas Health Foundation, acompanhou a apresentação em Chicago e comentou os resultados.
Segundo ele, raramente surge um medicamento capaz de reunir baixa toxicidade, aumento expressivo de sobrevida e um mecanismo inovador para uma doença tão agressiva.
O especialista também destacou que os 13,2 meses representam uma mediana estatística. Isso significa que muitos pacientes viveram além desse período.
Além disso, mais de 30% dos participantes apresentaram redução objetiva da doença. Para Stefani, esses números mostram que a oncologia está avançando em uma direção que durante décadas pareceu impossível.
O câncer de pâncreas continua sendo um dos mais letais do mundo
O entusiasmo dos especialistas fica ainda mais compreensível quando analisamos a gravidade dessa doença.
O câncer de pâncreas costuma evoluir silenciosamente. Na maioria dos casos, os sintomas aparecem apenas quando o tumor já atingiu estágios avançados.
Por causa disso, aproximadamente 80% dos pacientes recebem o diagnóstico quando a doença já se espalhou para outros órgãos.
Nesse cenário, a cirurgia deixa de ser uma opção para grande parte dos casos.
Nos Estados Unidos, cerca de 60 mil pessoas recebem esse diagnóstico todos os anos. Aproximadamente 50 mil acabam morrendo em decorrência da doença.
No Brasil, os números também preocupam. O país registra cerca de 13 mil novos casos por ano. Ao mesmo tempo, aproximadamente 12 mil pessoas perdem a vida para esse tipo de câncer.
A sobrevida em cinco anos para pacientes com doença metastática permanece próxima de 3%. Trata-se de uma das menores taxas entre todos os tipos de câncer.
O papel da mutação RAS no câncer de pâncreas
Grande parte da agressividade da doença está relacionada à proteína RAS.
Quando essa proteína sofre mutações, ela passa a funcionar como um interruptor permanentemente ligado. Dessa forma, envia sinais contínuos para que as células cresçam e se multipliquem sem controle.
Mais de 90% dos tumores pancreáticos apresentam alterações nesse mecanismo.
Durante décadas, cientistas tentaram bloquear essa proteína. No entanto, encontraram enormes dificuldades.
A estrutura molecular do RAS não oferece pontos de ligação fáceis para medicamentos. Por esse motivo, muitos pesquisadores passaram a classificá-la como “undruggable”, termo utilizado para descrever alvos praticamente impossíveis de tratar com fármacos.
O daraxonrasib conseguiu superar justamente essa barreira histórica.
Em vez de atuar apenas em uma variante específica, o medicamento demonstrou capacidade de atingir diferentes mutações relacionadas ao RAS.
Para os pacientes do estudo, todos com doença metastática e sem resposta à quimioterapia, essa inovação representou um ganho mediano de aproximadamente 6,5 meses de vida.
FDA deve acelerar a análise do novo tratamento
Agora, a atenção se volta para a aprovação regulatória.
A Revolution Medicines confirmou que enviará oficialmente os resultados para a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos.
O daraxonrasib já recebeu o status de Breakthrough Therapy. A FDA reserva essa classificação para medicamentos que demonstram vantagens substanciais em comparação com os tratamentos disponíveis.
Além disso, a terapia recebeu a designação de medicamento órfão e entrou no programa National Priority Voucher. Essas iniciativas aceleram a análise regulatória e reduzem o tempo de espera para pacientes.
Atualmente, os Estados Unidos já permitem o acesso compassional em situações específicas.
No Brasil, porém, o processo deve levar mais tempo.
Primeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) precisará avaliar os dados clínicos. Depois disso, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) poderá discutir a inclusão da terapia entre as coberturas obrigatórias dos planos de saúde.
O custo também representa um desafio importante.
Hoje, o sistema brasileiro destina cerca de R$ 1.986 para o tratamento de um paciente com câncer de pâncreas. Em comparação, novas terapias oncológicas frequentemente custam cerca de dez mil dólares por mês no mercado americano.
Por enquanto, não existe uma previsão oficial para a chegada do medicamento ao Brasil.
Mesmo assim, os resultados apresentados em Chicago já entraram para a história da oncologia. Mais do que ampliar números em uma planilha, o daraxonrasib ofereceu uma nova perspectiva para pacientes que até então contavam com opções extremamente limitadas.
Por isso, muitos especialistas consideram que a apresentação realizada em 1º de junho de 2026 marcou o início de uma nova etapa no combate ao câncer de pâncreas metastático.
Você acredita que avanços como o daraxonrasib podem mudar completamente o futuro do tratamento do câncer de pâncreas nos próximos anos?

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