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5,5 toneladas arrancadas do fundo do mar: um ‘tapete vivo’ de coral invasor sufocava a Baía de Todos-os-Santos até a Marinha do Brasil descer com mergulhadores, escova de aço e sal ácido e travar a maior operação de erradicação da espécie já feita no país

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 09/07/2026 às 15:15 Atualizado em 09/07/2026 às 15:18
A Marinha do Brasil retirou 5,5 toneladas de coral invasor da Baía de Todos-os-Santos, na maior operação de erradicação da espécie já feita no Brasil.
A Marinha do Brasil retirou 5,5 toneladas de coral invasor da Baía de Todos-os-Santos, na maior operação de erradicação da espécie já feita no Brasil.
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Uma força-tarefa da Marinha do Brasil removeu 5.549,57 quilos, cerca de 5,5 toneladas, de coral invasor da Baía de Todos-os-Santos, na Ilha de Itaparica (BA). Foi a primeira operação em larga escala de erradicação da espécie no Brasil, e reuniu militares, mergulhadores, universidades, órgãos estaduais e federais e voluntários da própria região.

Segundo a Agência Marinha de Notícias, a ação juntou a corporação e um grupo de pesquisadores para conter o avanço do octocoral bioinvasor Chromonephthea braziliensis, conhecido como coral-sol, a espécie que vinha ameaçando a biodiversidade nativa da Baía de Todos-os-Santos. Segundo o Correio 24h, foram retirados 5.549,57 quilos desse coral invasor, o maior volume já recolhido do octocoral numa única frente de trabalho no litoral brasileiro, num esforço que virou referência nacional no combate à bioinvasão.

A história por trás desse número começa embaixo d’água, num trecho de mar que parece calmo na superfície, mas que vinha sendo silenciosamente tomado por um coral invasor sem predadores naturais. O que os mergulhadores encontraram no fundo era um tapete vivo se espalhando sobre pedras, cascos e estruturas submersas, sufocando a vida marinha local e acendendo o alerta em toda a região.

O dia em que a Marinha entrou na água

A operação teve clima de missão militar, porque foi exatamente isso. Em maio de 2025, equipes da corporação desceram às águas da Ilha de Itaparica com um objetivo claro: arrancar o máximo possível de coral invasor antes que a bioinvasão avançasse para novos pontos da Baía de Todos-os-Santos. Mergulhadores treinados, cilindros nas costas, se revezaram em turnos para vasculhar o fundo do mar quase palmo a palmo.

Não era um mergulho de contemplação. Cada colônia do coral precisava ser localizada, avaliada e removida com cuidado quase cirúrgico, para não espalhar fragmentos capazes de gerar novas colônias. A espécie carrega uma característica traiçoeira: quando manipulada de qualquer jeito, ela se reproduz a partir dos próprios pedaços soltos, e o que era uma limpeza pode virar uma nova onda de contaminação.

Por isso, a Marinha não entrou sozinha nessa empreitada. Ao seu lado estavam pesquisadores, técnicos ambientais e moradores que conhecem cada recanto daquele mar. A meta declarada nunca foi apenas recolher o coral de um único dia, e sim testar, na prática, um método que pudesse ser repetido em escala, servindo de modelo para outros estados costeiros que enfrentam o mesmo invasor.

Quem é o inimigo invisível da Baía de Todos-os-Santos

Mais de 5 toneladas de espécie bioinvasora foram retiradas da Baía de Todos-os-Santos Crédito: Sema/Inema e Promar
Mais de 5 toneladas de espécie bioinvasora foram retiradas da Baía de Todos-os-Santos Crédito: Sema/Inema e Promar

O vilão dessa história tem nome científico difícil: Chromonephthea braziliensis. É um octocoral de esqueleto mole e flexível, em tons que vão do avermelhado ao branco, apelidado de coral-sol. Bonito de longe, devastador de perto. Essa espécie não pertence às águas brasileiras, e sua chegada é um caso clássico de bioinvasão silenciosa, do tipo que ninguém percebe até que já é tarde.

O problema do coral invasor nunca foi a aparência, e sim a fome de espaço. Sem predadores naturais na baía, o octocoral se multiplica em ritmo acelerado, cobrindo rochas, corais nativos e praticamente qualquer superfície firme que encontre pela frente. Onde o coral invasor se instala, a fauna e a flora originais perdem terreno, e a delicada cadeia alimentar local começa a ruir.

Os pescadores da região foram os primeiros a sentir na pele o efeito da invasão. Peixes que antes apareciam em abundância começaram a sumir, porque o coral invasor transforma o habitat que servia de berçário e abrigo para dezenas de organismos. Uma invasão como essa não é um problema ambiental abstrato: ela mexe com o prato, com a renda e com o futuro de quem vive do mar na região.

Colônias do coral invasor Chromonephthea braziliensis recolhidas do fundo da Baía de Todos-os-Santos durante a operação. (Foto: Reprodução/Correio 24h)

Uma força-tarefa que juntou fardas, ciência e pescadores

O que impressiona nessa história não é só o peso recolhido, mas a costura entre gente muito diferente. A Marinha do Brasil coordenou a parte logística e de mergulho, mas o combate ao coral invasor só foi possível porque universidades, órgãos ambientais estaduais e federais e voluntários locais entraram juntos na mesma empreitada.

Pesquisadores de universidades federais deram o embasamento técnico, ajudando a identificar a espécie, mapear as áreas mais afetadas e definir a melhor forma de remoção sem espalhar a bioinvasão. Órgãos ambientais entraram com fiscalização, licenças e planejamento, enquanto os militares garantiram a estrutura pesada para operar dentro da baía com segurança.

E havia os voluntários, muitos deles pescadores e moradores da Ilha de Itaparica, que conhecem aquele mar melhor do que qualquer mapa. Foram eles que, ao longo dos meses, ajudaram a apontar onde o coral estava mais concentrado. Essa mistura de fardas, ciência e conhecimento popular virou a espinha dorsal da operação e explica por que ela conseguiu recolher tanto material em tão pouco tempo.

Escova de aço, mãos firmes e sal ácido: como o coral foi arrancado

Mergulhadores da força-tarefa durante a retirada manual do coral invasor no fundo da baía. (Foto: Divulgação/Marinha do Brasil)
Mergulhadores da força-tarefa durante a retirada manual do coral invasor no fundo da baía. (Foto: Divulgação/Marinha do Brasil)

Combater o coral invasor não é tarefa de puxar e jogar fora. O método usado na Baía de Todos-os-Santos foi pensado justamente para não estimular a reprodução do octocoral durante a retirada. Na maior parte das áreas, a remoção foi manual: mergulhadores destacavam as colônias uma a uma e limpavam o substrato, ou seja, a superfície onde o coral estava fixado.

Para garantir que nada ficasse para trás, entrava em cena a escova de aço. Depois de arrancar as colônias, as equipes esfregavam as rochas e estruturas para remover qualquer resquício do organismo, impedindo que fragmentos minúsculos rebrotassem e reiniciassem a infestação do zero. É um trabalho braçal, repetitivo e exigente, feito debaixo d’água e contra o relógio.

Nas áreas mais profundas, onde a remoção manual fica arriscada, a força-tarefa recorreu a uma solução de sal ácido aplicada diretamente sobre as colônias de coral invasor. A técnica ataca o octocoral sem exigir que os mergulhadores permaneçam tempo demais em grandes profundidades. A combinação de mãos firmes, escova de aço e sal ácido foi o que permitiu enfrentar o invasor em diferentes cenários dentro da mesma operação.

5.549,57 quilos: a conta de uma limpeza feita em etapas

Mais de 5 toneladas de espécie bioinvasora foram retiradas da Baía de Todos-os-Santos por SEMA/INEMA e PRÓMAR
PRÓMMais de 5 toneladas de espécie bioinvasora foram retiradas da Baía de Todos-os-Santos por SEMA/INEMA

O número que batizou a operação não veio de uma tacada só. Os 5.549,57 quilos de coral invasor foram recolhidos em etapas, à medida que as equipes avançavam por diferentes pontos da Ilha de Itaparica. Numa primeira frente, foram retirados 2.939,42 quilos do invasor. Numa segunda, mais 2.610,15 quilos, somando as 5,5 toneladas que entraram para a história.

Recolher esse volume exigiu planejamento cirúrgico. Cada quilo do coral removido precisou ser retirado da água, pesado e descartado de forma segura, para que o octocoral não voltasse ao mar por descuido. A precisão do número, com direito a casas decimais, mostra o nível de controle técnico da operação: aqui, cada grama do invasor contabilizado importava.

Colocado em perspectiva, 5,5 toneladas equivalem ao peso de vários carros populares empilhados. Só que, em vez de metal, era coral vivo, arrancado colônia por colônia do fundo da Baía de Todos-os-Santos. É esse tamanho que faz da ação a maior operação de erradicação da espécie já realizada no Brasil, um marco no combate à bioinvasão marinha no país.

Por que a bioinvasão assusta tanto os cientistas

Para quem está na areia, um coral pode parecer inofensivo. Mas a bioinvasão provocada pelo coral invasor Chromonephthea braziliensis é, para os cientistas, uma das ameaças mais sérias à Baía de Todos-os-Santos. A lógica é simples e assustadora: uma espécie sem predadores naturais, que se reproduz rápido e ocupa qualquer espaço, tende a transformar o ecossistema inteiro à sua imagem.

Quando o coral invasor domina um costão rochoso, ele expulsa organismos nativos, reduz a diversidade de vida e empobrece toda a cadeia. Peixes perdem abrigo, algas nativas perdem espaço e o equilíbrio construído ao longo de séculos se desfaz em poucos anos. A invasão não mata de uma vez: ela sufoca aos poucos, e quando os efeitos ficam visíveis, reverter já custa muito mais caro.

Há ainda o risco de a espécie saltar da baía para outros trechos do litoral, carregada por cascos de embarcações e correntes do mar. É esse potencial de espalhamento que tira o sono dos pesquisadores. Conter o coral invasor num único ponto não basta se a bioinvasão puder recomeçar a poucos quilômetros dali, numa reação em cadeia difícil de frear depois que ganha corpo.

De Itaparica para o resto do litoral brasileiro

Mais do que limpar um pedaço de mar, a operação da força-tarefa na Baía de Todos-os-Santos nasceu para virar modelo. Foi a primeira vez que o país enfrentou o coral invasor em larga escala, e cada etapa foi documentada para servir de manual a outros estados costeiros que já convivem, ou logo vão conviver, com o mesmo tipo de invasor.

O raciocínio dos envolvidos é que a invasão não respeita fronteiras estaduais. Se funcionou naquela baía, o mesmo protocolo de detecção precoce, remoção manual, escova de aço e solução de sal ácido pode ser adaptado para o Espírito Santo, o Rio de Janeiro ou qualquer litoral onde o coral invasor aparecer. Transformar a experiência num roteiro replicável é, talvez, o legado mais valioso da força-tarefa.

Detecção rápida e ação imediata viraram o lema. Quanto mais cedo uma nova colônia do invasor for localizada, mais barata e eficaz é a resposta. Esperar o octocoral se instalar significa, na prática, condenar-se a operações gigantescas como essa, de toneladas e toneladas. O modelo saído de Itaparica prega o contrário: agir enquanto o avanço ainda cabe na palma da mão.

O que ainda ameaça a Baía de Todos-os-Santos

Recolher 5,5 toneladas de coral invasor foi uma vitória, mas ninguém envolvido na operação trata a guerra como vencida. A espécie é persistente, e basta um fragmento esquecido para que a bioinvasão recomece. Por isso, o monitoramento contínuo da região passou a ser parte inseparável do combate, com mergulhos periódicos para checar se o coral invasor rebrotou.

O controle das embarcações que chegam ao local também entrou no radar. Como a espécie pega carona em cascos de barcos, apertar a fiscalização e orientar a comunidade marítima sobre os riscos da bioinvasão é tão importante quanto arrancar colônias do fundo do mar. Prevenir a chegada de novos focos custa muito menos do que remediar uma infestação já espalhada pela baía.

Há ainda a frente educativa. Ensinar pescadores, mergulhadores, marinheiros e banhistas a reconhecer o coral invasor e a avisar as autoridades transforma cada morador num vigia da baía. Foi assim que a bioinvasão começou a ser mapeada, e é assim que ela poderá ser contida no futuro. A maior operação de erradicação da espécie já feita no Brasil mostrou que é possível reagir, mas deixou uma pergunta no ar: quantas outras baías Brasil afora já estão sendo tomadas, agora mesmo, por uma invasão que ninguém enxerga da praia?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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