A primeira rua do Brasil fica em Salvador e tem 477 anos. Conheça a história da Rua Chile: do glamour da elite ao abandono e ao renascimento.
Com quase cinco séculos de existência e cerca de 400 metros de extensão, a Rua Chile, no Centro Histórico de Salvador (BA), carrega um título que poucos conhecem: é considerada a primeira rua fundada no Brasil.
Segundo o g1, ao longo de 477 anos, ela acumulou oito nomes diferentes, recebeu personalidades internacionais, serviu de cenário para a alta sociedade baiana e, décadas depois, enfrentou um período de abandono. Hoje, com hotéis históricos reabertos e movimento turístico renovado, a via vive uma nova fase — sem perder os traços do que um dia foi.
De “Rua Direita dos Mercadores” a Rua Chile: como esse nome surgiu
O nome atual da via existe há pouco mais de 120 anos. Em 1902, o logradouro passou a se chamar “Chile” como forma de homenagear o governo chileno, após a morte de oficiais daquele país que adoeceram enquanto estavam na capital baiana.
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Antes disso, a rua já havia sido conhecida por outros oito títulos ao longo de sua história. Entre os mais recordados estão “Rua Direita dos Mercadores” — que refletia sua função comercial desde os primeiros séculos — e “Rua Direita do Palácio”, denominação ligada à proximidade com o Palácio Rio Branco, que até hoje ocupa o endereço.

O que se encontra na primeira rua do Brasil hoje
Mesmo com menos de meio quilômetro de comprimento, a Rua Chile concentra uma densidade histórica e cultural fora do comum. Entre os pontos que podem ser visitados no local estão:
- As Praças Tomé de Souza e Castro Alves, marcos do centro histórico soteropolitano
- Uma das entradas do Elevador Lacerda, cartão-postal de Salvador
- A sorveteria Cubana, também pioneira na cidade — e ainda em funcionamento
- A sede da Prefeitura de Salvador e o Palácio Rio Branco
- Os hotéis históricos Fera Palace e Fasano, que passaram por obras de restauração mantendo as estruturas originais
Vale destacar que o Fera Palace ocupa um quarteirão inteiro, dividindo fachadas com as ruas do Tesouro e a da Ajuda. A reabertura desses hotéis, nas últimas décadas, foi um dos principais motores da retomada da atratividade da via.
Quando a rua era um shopping a céu aberto para a elite baiana
Durante grande parte do século XX, até meados dos anos 1970, a Rua Chile era o endereço do luxo em Salvador. Era lá que a alta sociedade baiana se encontrava, passeava, namorava e consumia moda de ponta — artigos que chegavam de outros países e que só podiam ser encontrados naquela via.
Segundo o professor de História da Bahia Murilo Melo, “a Rua Chile era um grande shopping a céu aberto, que tinha grandes lojas de roupa de marca e de moda. Era o local onde se encontrava tudo de mais moderno do Brasil e no mundo, os artigos de luxo.”
Duas lojas se destacavam nesse período: a “Duas Américas” e a “Casa Sloper”, ambas referências de vestuário e artigos de departamento para quem queria estar na moda. Além delas, a “Adamastor” — pertencente ao pai do cineasta Glauber Rocha — e a “Chapelaria Mercouri” — fundada pelo bisavô da cantora Daniela Mercury — também atraíam uma clientela fiel e exigente.

O historiador Murilo Melo resume bem o espírito daquela época: “Todo o requinte de Salvador girava em torno da Rua Chile, tanto em relação à moda, à paquera, às pessoas que saíam dos seus bairros mais afastados do centro… Era o lugar para passear com a namorada, tomar um sorvete na Cubana, além de olhar as vitrines das lojas.”
O escritor Jorge Amado também imortalizou a via em sua obra. Ao descrever o Fera Palace, ele escreveu que “as senhoras da Graça e da Barra exibiam os últimos modelos e algumas delas, as mais evoluídas, num requinte de desenvoltura, arriscavam fichas na roleta” — referência aos bairros nobres de Salvador que existem até hoje. Além de Amado, o cantor britânico Keith Richards e o ator americano Orson Welles estiveram entre os visitantes ilustres da rua em seus tempos de prestígio.
Por que a rua perdeu o brilho a partir dos anos 70?
O declínio da Rua Chile não aconteceu de uma hora para outra. Foi um processo gradual, impulsionado por mudanças estruturais na própria cidade de Salvador. Uma das causas foi a expansão urbana em direção às chamadas “avenidas de vale”, para onde migraram trabalhadores do Polo Petroquímico — muitos vindos do interior do estado — que ergueram casas em regiões então afastadas do centro.
Na avaliação de Murilo Melo, “a cidade era muito presa ao centro, pequena e acanhada. O que era centro passou a ser um lugar abandonado de certa forma. Então as pessoas vão parar de passar naquela rua.”
A inauguração do hoje chamado Shopping da Bahia, na região do Iguatemi, também redirecionou o fluxo de consumidores e comerciantes. A Avenida Tancredo Neves surgiu como novo corredor de lojas, e a transferência da sede do governo estadual para o Centro Administrativo da Bahia (CAB) completou o esvaziamento institucional da área central.
O resultado, segundo o professor, foi visível nas próprias edificações: “Com isso, as casas passaram a cair aos pedaços, ser mal cuidadas e as pessoas não trafegaram com a mesma frequência naquele local. Começou a ficar esvaziada e o investimento passou a ser nos novos locais criados.”
Vista para a Baía e nova vida: o presente da via histórica
Quem caminha pela Rua Chile hoje encontra uma via que preserva sua arquitetura centenária e oferece uma das vistas mais privilegiadas de Salvador: a da Baía de Todos-os-Santos, visível de diferentes pontos do percurso.
A restauração dos hotéis históricos nas últimas décadas foi um passo importante para que o logradouro retomasse algum do prestígio perdido. Com obras que respeitaram as estruturas originais, esses empreendimentos passaram a ser considerados referências do patrimônio histórico de Salvador — e atraem visitantes que vão além do turismo convencional.
Com informações do g1


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