Avanço do mar pressiona litoral da Paraíba, ameaça rodovia estratégica e atinge dezenas de aldeias indígenas, enquanto município aposta em muro de contenção milionário para tentar frear erosão acumulada ao longo de quatro décadas.
A Prefeitura de Baía da Traição, no Litoral Norte da Paraíba, deu início à construção de um muro de contenção avaliado em R$ 5 milhões, com a meta de reduzir o avanço do mar e proteger a faixa costeira mais pressionada do município.
A obra mira um trecho onde a erosão já alcançou casas e passou a ameaçar a rodovia PB-008, rota considerada essencial para a ligação entre a sede da cidade e comunidades indígenas distribuídas pela região.
Muro de contenção tenta frear erosão histórica no litoral
Segundo a Defesa Civil municipal, a intervenção prevê a instalação de uma barreira física para conter a ação das águas em pontos vulneráveis, que ficaram mais expostos com ressacas e mudanças na faixa de areia ao longo do tempo.
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Por ter função direta de contenção, o resultado tende a ser medido no cotidiano, especialmente na diminuição de perdas de terreno, na redução de danos em imóveis próximos e na preservação de acessos urbanos, em uma área onde moradores relatam impactos recorrentes.
Os dados citados por autoridades locais apontam que o problema se acumulou por décadas, com recuo expressivo em partes específicas do litoral, o que levou o município a buscar uma solução de engenharia para proteger estruturas já encostadas na zona de risco.
Estudo aponta perda de 80 metros em quatro décadas
Um estudo atribuído ao professor Celso Santos, da Universidade Federal da Paraíba, registrou que, em apenas um trecho monitorado, Baía da Traição perdeu cerca de 80 metros de território ao longo de aproximadamente quatro décadas.
A mesma pesquisa também apontou que, ao considerar todo o litoral do município, houve perda média de 12 metros entre 1984 e 2025, com taxa de recuo estimada em 0,29 metro por ano, a partir de análise comparativa.
Essa leitura técnica reforça o que moradores dizem observar na prática, com a linha d’água avançando sobre áreas antes ocupadas e o mar alcançando pontos onde existiam quintais, muros e estruturas que, hoje, aparecem comprometidas.
Em reportagens locais que repercutiram o cenário, foram mencionadas mais de 20 residências com impactos associados ao avanço do mar, além do registro de uma casa descrita como “virada de ponta-cabeça” durante o processo erosivo.
PB-008 entra na zona de risco e amplia impacto social
A preocupação aumentou porque um dos setores mais atingidos inclui a Praia do Forte, onde passa a PB-008, apresentada como principal ligação entre o centro do município e aldeias indígenas, o que amplia as consequências de qualquer dano viário.
Se a erosão avançar até comprometer trechos da rodovia, o temor citado por autoridades e moradores é o de isolamento de comunidades, com impacto direto em circulação, abastecimento e acesso a serviços essenciais, como saúde e educação.
Nesse contexto, a estabilidade do asfalto deixa de ser um detalhe de infraestrutura e passa a ser tratada como questão cotidiana, já que a via organiza deslocamentos e garante conexões permanentes entre diferentes áreas do território municipal.
Município com maioria indígena enfrenta ameaça costeira
O risco associado à erosão ganha peso extra porque Baía da Traição tem presença indígena majoritária, com 86,64% da população composta por indígenas, segundo dados do Censo 2022 divulgados em levantamentos públicos.
No mesmo recorte, reportagens sobre a situação local apontaram que cerca de 33 aldeias estão distribuídas na região, o que amplia a área potencialmente afetada por interrupções de estrada e por mudanças rápidas na faixa costeira.
Com dezenas de comunidades dependentes de acessos rodoviários, qualquer instabilidade na PB-008 tende a repercutir para além da orla, atingindo rotas de serviço público e de deslocamento interno, em um município onde os trajetos estruturam a rotina.
Emergência decretada e licenciamento ambiental viabilizam obra
A resposta institucional ao avanço do mar incluiu decreto municipal relacionado à erosão costeira, e o tema também apareceu em comunicações sobre calamidade pública, à medida que os danos se acumulavam na área mais exposta.
No campo jurídico e ambiental, o Ministério Público Federal divulgou recomendação com foco em medidas emergenciais para proteger infraestrutura local, reforçando a necessidade de atuação coordenada e de decisões técnicas em trechos sob pressão do mar.
A Sudema informou que disponibilizou licenças ambientais para viabilizar ações indicadas por técnicos que acompanham a região, etapa que costuma ser decisiva em obras costeiras, porque a estrutura pode alterar a dinâmica de sedimentos e ondas.
Defesa Civil cita recuperação de dunas e engenharia leve
Mesmo com a obra em andamento, a Defesa Civil local não apresentou o muro como solução única, e o coordenador Wenison Medeiros afirmou que outras ações seriam necessárias para buscar resposta que não fique restrita ao curto prazo.
Entre as medidas mencionadas por ele estão recuperação de dunas e vegetação de restinga, realimentação de praias, restauração de manguezais e recifes, além de obras de “engenharia leve”, como estruturas permeáveis e quebra-mares submersos.
Com o investimento de R$ 5 milhões, a intervenção passa a ser observada também pelo lado da gestão pública, já que cresce a expectativa sobre o trecho efetivamente protegido, os critérios de acompanhamento e os resultados após marés altas e ressacas.
Entre turismo, moradia, infraestrutura e comunidades tradicionais, a erosão em Baía da Traição reúne interesses públicos sobrepostos, e o desempenho do muro deve influenciar o debate sobre quais respostas ganham prioridade quando o litoral recua perto de casas e estradas.
Entre turismo, moradia, infraestrutura e comunidades tradicionais, a erosão em Baía da Traição reúne interesses públicos sobrepostos, e o desempenho do muro deve influenciar o debate sobre quais respostas ganham prioridade quando o litoral recua perto de casas e estradas.


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