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Por que os caminhões da Fiat Diesel desapareceram? Da liderança industrial na Europa à venda bilionária que transformou a Iveco e redefiniu o mercado global de veículos pesados

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 03/03/2026 às 15:44
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Por que os caminhões da Fiat Diesel desapareceram? Da liderança industrial na Europa à venda bilionária que transformou a Iveco e redefiniu o mercado global de veículos pesados
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Fiat produziu caminhões e ônibus no Brasil, mas a Fiat Diesel fechou em 1985 após crise, greves e queda nas vendas; entenda por que os pesados desapareceram e como a Iveco voltou ao mercado.

Durante décadas, a marca Fiat foi sinônimo de carros populares no Brasil. Modelos como 147, Uno, Palio e Strada consolidaram a fabricante italiana como uma das líderes do mercado nacional. Mas poucos lembram que a Fiat também produziu caminhões pesados, médios e até ônibus no país. A história da Fiat Diesel no Brasil é marcada por ambição industrial, conflitos internos, dificuldades logísticas e um encerramento controverso que deixou cicatrizes no setor de veículos comerciais.

A pergunta que permanece é clara: por que os caminhões da Fiat desapareceram?

O contexto da industrialização automotiva e a ausência inicial da Fiat

Em 1956, o governo federal criou o GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), com o objetivo de impulsionar a produção nacional de veículos e atrair montadoras internacionais para o Brasil.

Ford, Chevrolet, Mercedes-Benz e Volkswagen aceitaram os incentivos. A Fiat, apesar de já montar veículos no Brasil desde 1928, decidiu não aderir naquele momento.

A empresa italiana avaliava o mercado brasileiro como arriscado. A Volkswagen já dominava com Kombi e Fusca, modelos robustos e adaptados às condições precárias das estradas nacionais.

A entrada tardia da Fiat na indústria brasileira não ocorreu pelo segmento de automóveis — mas pelo setor agrícola. Em 1971, o primeiro Fiat nacional foi um trator, o Fiat AD7.

O primeiro carro de passeio só chegaria em 1976, com o Fiat 147.

O nascimento da Fiat Diesel no Brasil e a aquisição da Feneme

A virada estratégica ocorreu em 1973, quando a Fiat adquiriu 43% da Alfa Romeo do Brasil, que havia assumido a Feneme — Fábrica Nacional de Motores.

A Feneme foi fundada em 1942 pelo governo Getúlio Vargas e foi pioneira na produção de caminhões no Brasil.

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Com a aquisição da fábrica em Xerém, Duque de Caxias (RJ), a Fiat passou a atuar diretamente no segmento de veículos pesados.

O plano era ambicioso: lançar nove modelos de caminhões com capacidade entre 5,5 e 26 toneladas e ampliar a produção mensal de 3 mil para 15 mil unidades.

Mas havia um obstáculo crítico: o índice de nacionalização mínimo exigido era de 80%. Muitas peças, inclusive motores e componentes estruturais, vinham da Itália. Esse foi o primeiro grande entrave operacional da Fiat Diesel.

Os primeiros caminhões Fiat no Brasil: Feneme 210S, Fiat 130 e Fiat 70

Em 1974, foi lançado o Feneme 210S, já sob controle da Fiat. O modelo tinha capacidade de carga de até 12,6 toneladas e motor Fiat de 13 litros com 240 cavalos.

Em julho de 1976 surgiu o Fiat 130, considerado o primeiro caminhão oficialmente Fiat no Brasil. Com capacidade para 9,5 toneladas, o modelo trazia motor seis cilindros de 7,4 litros, 145 cavalos e 48 kgfm de torque.

No Salão do Automóvel de 1976 foi lançado o Fiat 70, caminhão leve de 4,5 toneladas, concorrente direto do Mercedes-Benz L608.

Ainda em 1976, o modelo 190e foi apresentado com motor Fiat de 13,8 litros e 256 cavalos. Em 1977, a Feneme foi oficialmente extinta, e nasceu a Fiat Diesel Brasil S.A.

A transição para Iveco e o início das turbulências

Em 1975, na Europa, o grupo Fiat havia criado a Iveco, por meio da fusão de cinco fabricantes de veículos industriais.

Em 1977, o logotipo Iveco começou a aparecer nas grades dos caminhões produzidos em Xerém, embora a marca ainda operasse sob o nome Fiat Diesel.

A empresa também entrou no segmento de ônibus com o chassi 130OD. O problema começou em 1978. A Fiat Diesel retirou de linha os modelos 70, 130OD, 130 e 210. A descontinuação precoce abalou a confiança do mercado.

Ao mesmo tempo, a rede de concessionárias era fraca e havia dificuldades crônicas no fornecimento de peças de reposição.

Mesmo assim, 1978 foi o melhor ano da Fiat Diesel, com 5.073 caminhões e 487 ônibus produzidos. Mas a Mercedes-Benz produzia mais de 45 mil caminhões no mesmo período.

A Fiat Diesel era pequena demais para competir com gigantes consolidados.

Crise econômica dos anos 80 e o declínio da Fiat Diesel

Nos anos 80, o Brasil enfrentou recessão, inflação descontrolada e queda nos investimentos em infraestrutura. O transporte rodoviário perdeu ritmo.

A Fiat tentou reagir com os modelos 80, 120, 140 e o 190H. Em 1981, uma greve geral paralisou a fábrica por 42 dias. A empresa adotou postura rígida, com demissões por justa causa e presença policial.

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A imagem da Fiat Diesel ficou ainda mais desgastada.

Em 1982, o controle passou oficialmente para a Iveco. A primeira medida foi a demissão de 600 funcionários. Em 1984, a produção despencou para apenas 419 veículos.

O golpe final veio em junho de 1985: a Fiat Diesel encerrou as atividades abruptamente, sem aviso prévio ao governo ou revendedores. Ao todo, foram produzidos 75.863 veículos.

O retorno com a Iveco e a separação definitiva da Fiat Automóveis

A história não terminou ali. Em 1997, o grupo Fiat retornou ao Brasil com a marca Iveco, agora com operação independente da antiga Fiat Diesel.

Em 2000, foi inaugurada a fábrica moderna em Sete Lagoas (MG). Modelos como Daily, Tector e Highway consolidaram a Iveco no mercado nacional.

Na década de 2010, o grupo reorganizou suas operações industriais, criando a CNH Industrial.

Em 2022, a CNH foi dividida, e nasceu o Iveco Group, operando de forma totalmente independente da Fiat Automóveis. Em 2025, o Iveco Group foi vendido ao grupo indiano Tata por 3,8 bilhões de euros.

A transição deve ser concluída até março de 2026.

Por que os caminhões da Fiat desapareceram?

A Fiat Diesel fracassou no Brasil por uma combinação de fatores:

  • Falta de estrutura de concessionárias
  • Problemas no fornecimento de peças
  • Descontinuação precoce de modelos
  • Crise econômica nos anos 80
  • Conflitos trabalhistas
  • Concorrência dominante da Mercedes-Benz

A marca Fiat permaneceu forte em automóveis, mas perdeu credibilidade no segmento de veículos pesados. A história da Fiat Diesel é um exemplo clássico de como sucesso em carros de passeio não garante liderança em caminhões e ônibus.

O desaparecimento dos caminhões Fiat não foi um acidente isolado. Foi resultado de estratégia mal executada, contexto econômico adverso e falta de consolidação no mercado de pesados.

Hoje, a Iveco opera de forma independente e bem-sucedida. Mas os caminhões da Fiat, como marca, ficaram no passado.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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