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Por que o derretimento do gelo na Groenlândia e na Antártida pode forçar uma mudança inédita nos relógios do mundo e alterar o UTC pela primeira vez na história, adiando uma correção que desafia sistemas digitais globais?

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 17/06/2026 às 18:39
Atualizado em 17/06/2026 às 18:41
Derretimento do gelo polar na Groenlândia e Antártida influencia a rotação da Terra e pode alterar correções futuras do UTC.
Estudo aponta que o derretimento do gelo polar já influencia a rotação da Terra e pode afetar futuras correções do horário mundial.
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O avanço do aquecimento global já produz efeitos mensuráveis na rotação da Terra, influenciando diretamente a forma como o tempo oficial é calculado e criando um desafio sem precedentes para relógios atômicos, sistemas digitais e redes tecnológicas em todo o planeta.

A possibilidade de o mundo precisar retirar um segundo do horário oficial internacional pela primeira vez na história parece algo saído da ficção científica. No entanto, esse cenário já está sendo discutido por cientistas devido a um fenômeno diretamente ligado às mudanças climáticas. O derretimento acelerado do gelo na Groenlândia e na Antártida está alterando a distribuição de massa do planeta e produzindo efeitos mensuráveis sobre a velocidade de rotação da Terra.

Segundo estudo publicado em 27 de março de 2024 na revista Nature, o aquecimento global já influencia o momento em que poderá ocorrer uma correção inédita no Tempo Universal Coordenado (UTC), padrão utilizado para sincronizar relógios, sistemas de navegação, redes de telecomunicações e transações financeiras em praticamente todo o mundo.

Embora a diferença seja imperceptível para a população, ela pode representar um desafio significativo para a infraestrutura digital global.

Como o derretimento do gelo polar interfere na rotação da Terra

A duração de um dia parece constante para quem observa o relógio, mas a realidade é diferente. A Terra nunca girou de forma perfeitamente regular.

Ao longo da história, a humanidade utilizou a posição do Sol para medir o tempo. Porém, a chegada dos relógios atômicos revolucionou esse sistema. Esses equipamentos utilizam as oscilações extremamente precisas dos átomos de césio, criando uma referência muito mais estável do que a própria rotação terrestre.

O problema é que o planeta sofre constantes variações provocadas por diversos fatores naturais. Marés, correntes oceânicas, ventos atmosféricos, terremotos e até movimentos no interior da Terra alteram discretamente a duração dos dias.

Agora, os cientistas identificaram mais um fator relevante: o degelo das regiões polares.

Quando grandes volumes de gelo derretem na Groenlândia e na Antártida, a água é transferida para os oceanos. Essa massa deixa de ficar concentrada próxima aos polos e passa a se distribuir em regiões mais próximas da linha do Equador.

O efeito pode ser comparado ao movimento de uma patinadora artística. Quando ela mantém os braços próximos ao corpo, gira mais rápido. Quando os afasta, sua rotação diminui. Com a Terra ocorre algo semelhante.

O deslocamento da massa para regiões mais distantes do eixo de rotação provoca uma desaceleração extremamente pequena, porém mensurável.

O processo ocorre em quatro etapas

  • Gelo terrestre derrete na Groenlândia e na Antártida;
  • A água chega aos oceanos;
  • A massa é redistribuída em direção ao Equador;
  • A velocidade de rotação da Terra sofre uma pequena desaceleração.

O que é o segundo bissexto negativo e por que ele nunca foi utilizado

Para manter o tempo civil alinhado ao tempo astronômico, organismos internacionais realizam ajustes periódicos no UTC.

Desde 1972, foram adicionados 27 segundos bissextos positivos ao relógio mundial. Nessas ocasiões, um segundo extra foi inserido para compensar a desaceleração gradual da rotação terrestre.

Entretanto, jamais foi necessário realizar o procedimento inverso.

O chamado segundo bissexto negativo consistiria justamente em retirar um segundo da contagem oficial do tempo. Em vez de um minuto possuir 60 segundos, ele teria apenas 59.

Essa situação nunca aconteceu na prática.

De acordo com o estudo liderado pelo geofísico Duncan Agnew, da Universidade da Califórnia em San Diego, a aceleração observada na parte sólida da Terra, causada por movimentos do núcleo líquido do planeta, aproximou pela primeira vez a possibilidade dessa correção inédita.

Entretanto, o derretimento do gelo polar está atuando na direção oposta.

Os pesquisadores concluíram que o degelo global adiou em aproximadamente três anos a necessidade dessa eventual correção negativa.

O que os cientistas descobriram sobre o impacto do aquecimento global

Para chegar às conclusões, os pesquisadores combinaram registros históricos da rotação terrestre, medições gravitacionais realizadas por satélites e modelos que analisam o comportamento do núcleo líquido da Terra.

Os dados mostraram que a perda acelerada de gelo nas regiões polares alterou a distribuição de massa do planeta de forma suficiente para produzir um efeito detectável em sua velocidade angular.

Segundo a Scripps Institution of Oceanography, sem o impacto causado pelo degelo, a necessidade de um segundo bissexto negativo poderia surgir cerca de três anos antes.

Principais conclusões do estudo

Fator observadoEfeito físicoImpacto no tempo
Degelo na Groenlândia e AntártidaRedistribuição de massa para os oceanosDesaceleração da rotação
Movimentos do núcleo líquidoAceleração da parte sólida da TerraAproxima correção negativa
Segundo bissexto positivoAdição de um segundo ao UTCAplicado 27 vezes desde 1972
Segundo bissexto negativoRetirada de um segundo do UTCNunca aplicado
Possível necessidadeEntre 2028 e 2029Ainda sem confirmação

Os pesquisadores ressaltam que a previsão não representa uma data definitiva. A rotação terrestre continua sujeita a fatores naturais complexos e difíceis de prever com precisão.

Por que uma diferença de apenas um segundo preocupa especialistas

Para a maioria das pessoas, a retirada de um segundo provavelmente passaria despercebida.

Entretanto, para sistemas digitais modernos, o tempo funciona como uma referência essencial para ordenar operações, registros e comunicações.

Hoje, bilhões de dispositivos ao redor do mundo dependem de sincronização precisa.

Entre os sistemas potencialmente afetados estão:

  • Redes bancárias e financeiras de alta velocidade;
  • Sistemas de navegação por satélite;
  • GPS e geolocalização;
  • Bancos de dados distribuídos;
  • Servidores de internet;
  • Infraestruturas de telecomunicações;
  • Sistemas de controle de tráfego aéreo;
  • Redes automatizadas industriais.

A principal preocupação dos especialistas é que muitos softwares foram desenvolvidos considerando que os minutos possuem sempre 60 segundos.

Retirar um segundo, algo nunca realizado anteriormente, pode gerar comportamentos inesperados, falhas de sincronização e inconsistências em determinados sistemas.

Por isso, empresas de tecnologia, cientistas e organizações internacionais acompanham o tema com atenção crescente.

O que essa descoberta revela sobre a influência humana no planeta

O aspecto mais impressionante da pesquisa talvez não seja a possível alteração dos relógios mundiais.

O verdadeiro destaque está no fato de que a atividade humana já provocou mudanças suficientemente grandes para serem detectadas na rotação de todo o planeta.

A emissão contínua de gases de efeito estufa acelerou o derretimento das calotas polares, elevou o nível dos oceanos e agora também aparece associada a alterações mensuráveis na dinâmica física da Terra.

Embora a diferença seja minúscula na escala do cotidiano, ela representa uma evidência científica poderosa da dimensão das transformações em curso.

Além disso, o adiamento de um eventual segundo bissexto negativo não deve ser interpretado como um benefício do aquecimento global. O mesmo processo que oferece alguns anos adicionais para adaptação tecnológica também contribui para o aumento do nível do mar, eventos climáticos extremos e impactos ambientais que já afetam diversas regiões do planeta.

O relógio mundial pode ganhar algum tempo antes de enfrentar uma correção inédita, mas a Terra continua registrando mudanças profundas que vão muito além de um simples segundo.

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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