James Webb revela a galáxia água-viva mais distante já detectada, com tentáculos de gás, estrelas jovens e pistas sobre a evolução das galáxias.
O Telescópio Espacial James Webb revelou uma das imagens mais incomuns já registradas de uma galáxia distante: COSMOS2020-635829, uma estrutura com longos rastros de gás que lembram os tentáculos de uma água-viva. Segundo o estudo publicado no The Astrophysical Journal, o objeto aparece em redshift z = 1,156, o que significa que está sendo observado como era há cerca de 8,5 bilhões de anos.
A descoberta foi liderada por Ian D. Roberts, da University of Waterloo, e ganhou destaque por registrar a galáxia água-viva mais distante já identificada até agora. As observações indicam que esse tipo de transformação galáctica já ocorria quando o Universo era muito mais jovem do que os modelos tradicionais costumavam sugerir.
O que é uma galáxia água-viva e por que ela chama tanta atenção
Galáxias água-viva recebem esse nome por causa dos longos fluxos de gás que se estendem para trás, formando estruturas parecidas com tentáculos.
-
3 mil ovelhas viram equipe de manutenção em usina solar de 900 MW, onde 1,3 milhão de painéis cobriram antigos campos abertos e transformaram pastagens em geração de energia para data centers no Texas
-
Quase 4 em cada 10 litros de água tratada somem no Brasil antes de chegar às torneiras, mas agora, empresas usam satélites, IA, hélio e tatuzinhos para tentar levar saneamento a comunidades mais distantes
-
Cilindro com esferas de aço alcança 14% de amortecimento em testes, funciona sem sensores, cabos ou eletricidade e pode reduzir vibrações em prédios altos, pontes e equipamentos sensíveis com patente registrada nos EUA
-
Farol no meio do deserto intriga visitantes por estar a mais de 160 km do mar, ter 15 metros de altura, alcance de 19 km e ter sido criado por artista após anos de burocracia no Mojave
No caso de COSMOS2020-635829, o estudo descreve um disco galáctico relativamente simétrico acompanhado por uma cauda unilateral com fontes extraplanares em formação estelar.
Esses objetos são importantes porque mostram uma galáxia sendo transformada em tempo cósmico real. Em vez de apenas revelar a forma final de uma galáxia já alterada, elas expõem o processo de remoção de gás que muda sua estrutura e afeta sua capacidade de continuar formando estrelas.
Pressão dinâmica é o vento cósmico que arranca o gás da galáxia
O mecanismo por trás dos tentáculos é chamado de ram-pressure stripping, ou arrancamento por pressão dinâmica. Segundo a equipe da University of Waterloo, a galáxia se move rapidamente por um ambiente de aglomerado quente e denso, e esse meio atua como um vento forte que empurra o gás para trás.
Esse processo não significa que a galáxia esteja explodindo. O que acontece é uma remoção progressiva do gás por interação com o meio ao redor, deixando um rastro visível e alterando profundamente a evolução futura da galáxia.
Tentáculos de gás também viraram berçários de estrelas jovens
Um dos pontos mais importantes da descoberta é que os tentáculos não contêm apenas gás disperso. O estudo relata a presença de nós azuis em formação estelar embutidos nessa cauda, indicando que novas estrelas estão nascendo fora do disco principal da galáxia.

Segundo o artigo científico, essas fontes extraplanares abrigam populações estelares extremamente jovens, com idades de até 100 milhões de anos, além de massas estelares em torno de 10⁸ massas solares e taxas de formação estelar entre 0,1 e 1 massa solar por ano.
Isso reforça a interpretação de que o gás arrancado não foi apenas perdido, mas também comprimido e convertido em novas estrelas.
Descoberta desafia a visão antiga sobre os aglomerados do Universo jovem
A equipe afirma que a descoberta tem peso especial porque, nessa época do Universo, muitos cientistas esperavam aglomerados ainda em formação e menos eficientes em produzir esse tipo de arrancamento de gás.
A presença de uma galáxia água-viva tão distante indica que esses ambientes já eram severos o suficiente para alterar galáxias de forma intensa bem antes do previsto.
No comunicado da University of Waterloo, Ian Roberts destacou que os ambientes de aglomerado já eram duros o bastante para remover gás das galáxias e que isso sugere uma influência ambiental forte mais cedo do que se imaginava. A equipe também aponta que esse tipo de processo pode ter ajudado a construir a grande população de galáxias “mortas” vista em aglomerados no Universo atual.
James Webb tornou possível enxergar a galáxia água-viva a 8,5 bilhões de anos no passado
A identificação de COSMOS2020-635829 só foi possível com a resolução e a sensibilidade do James Webb em observações profundas do campo COSMOS, uma das regiões do céu mais estudadas para investigar galáxias distantes.
O trabalho combinou imagens do JWST com dados espectroscópicos do Gemini GMOS IFU, permitindo ligar a cauda ionizada ao disco da galáxia.
O artigo publicado no The Astrophysical Journal classifica o objeto como uma galáxia água-viva candidata, e não como um caso encerrado sem margem para refinamento.
Ainda assim, os autores afirmam que, se a interpretação for mantida, trata-se do exemplo de maior redshift já observado com cauda ionizada produzida por pressão dinâmica.
COSMOS2020-635829 virou uma janela rara para a evolução das galáxias
Mais do que uma imagem impressionante, a descoberta oferece uma janela para entender como galáxias eram moldadas durante uma fase crucial da história cósmica.
Ela sugere que a interação entre galáxias e o ambiente ao redor já influenciava fortemente a formação estelar e a perda de gás quando o Universo ainda estava longe da idade atual.
Ao revelar uma estrutura tão distante com detalhes de seus tentáculos e de seus berçários estelares, o James Webb ampliou o alcance da astronomia observacional em um dos temas mais importantes da cosmologia moderna: como galáxias deixam de formar estrelas e como o ambiente acelera essa transformação.

