Estudo usa poeira cósmica e hélio-3 para reconstruir 30 mil anos do gelo marinho do Ártico e indica recuo sem precedente na era moderna.
Segundo a Universidade de Washington, um estudo publicado em 6 de novembro de 2025 na revista Science reconstruiu 30 mil anos de história do gelo marinho do Ártico com um método inédito: medir a quantidade de poeira cósmica acumulada no fundo do oceano. A pesquisa foi liderada pelo geocientista isotópico Frank J. Pavia, com participação de cientistas da Universidade de Massachusetts Boston, do Serviço Geológico dos EUA e do Caltech.
Segundo a Universidade de Washington, a lógica do método é simples e poderosa. Quando o oceano está coberto por gelo, a poeira cósmica fica retida na superfície congelada e não afunda até o fundo marinho. Quando a água está livre de gelo, essa poeira se deposita normalmente no sedimento. Ao medir a concentração de hélio-3, isótopo raro carregado por essa poeira, os pesquisadores conseguiram identificar quando determinadas áreas do oceano Ártico estavam cobertas por gelo e quando estavam abertas.
Hélio-3 permite reconstruir a história do gelo marinho do Ártico além da era dos satélites
Segundo a Universidade de Washington, o monitoramento do gelo marinho do Ártico por satélite começou em 1979, período em que a extensão do gelo no verão caiu mais de 42%. Um estudo citado pela pesquisa também projeta que o Ártico poderá registrar seu primeiro dia completamente livre de gelo ainda nesta década.
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O problema é que menos de 50 anos de imagens de satélite representam um intervalo muito curto na escala climática. Para saber se a perda atual de gelo é parte de um ciclo natural ou algo realmente excepcional, os cientistas precisavam de uma referência muito mais longa. É justamente aí que o hélio-3 muda o jogo.
Segundo a Universidade de Washington, o hélio-3 praticamente não é produzido na Terra em quantidades relevantes. Ele chega ao planeta associado à poeira cósmica e funciona como uma assinatura clara da quantidade de material que alcançou o fundo do mar em cada período.
Medir essa concentração em colunas de sedimento permite inferir diretamente quanta superfície estava coberta ou livre de gelo acima daquele ponto.
Três sítios do oceano Ártico revelaram padrões diferentes de gelo ao longo de 30 mil anos
Segundo a Universidade de Washington, os pesquisadores escolheram três sítios que representam um gradiente de cobertura de gelo moderna.
O primeiro fica próximo ao Polo Norte e permanece coberto o ano inteiro. O segundo está na borda sazonal do gelo em setembro. O terceiro era permanentemente coberto em 1980, mas hoje já fica sazonalmente livre.
No sítio mais próximo ao Polo Norte, os sedimentos mostram hélio-3 consistentemente baixo ao longo dos últimos 30 mil anos, sinal de que o gelo bloqueou a deposição da poeira durante quase todo o período, com interrupção importante apenas no Holoceno inicial, entre cerca de 8 mil e 10 mil anos atrás.
Já o segundo sítio apresentou alternância entre períodos de muito e pouco hélio-3, refletindo ciclos de avanço e recuo do gelo.
O terceiro, porém, trouxe o sinal mais perturbador: o local que era gelo permanente em 1980 hoje já fica sazonalmente aberto, e o registro sedimentar mostra que não havia acontecido nada comparável nos 30 mil anos anteriores.
Última glaciação mostra que o Ártico já foi mais congelado, mas mudança atual é muito mais rápida
Segundo a Universidade de Washington, durante o último máximo glacial, há cerca de 20 mil anos, os três sítios analisados apresentaram níveis muito baixos de hélio-3, indicando que o Ártico central estava coberto de gelo o ano inteiro, sem a variação sazonal observada hoje.
Depois, a partir de cerca de 15 mil anos atrás, a concentração de hélio-3 começou a subir em todos os pontos, mostrando que o gelo passou a recuar.

O Holoceno inicial, entre 8 mil e 10 mil anos atrás, registrou níveis ainda mais altos de hélio-3 em alguns sítios, sugerindo que o Ártico já teve menos gelo em fases naturais de aquecimento.
A diferença crítica, segundo a Universidade de Washington, está na velocidade. O aquecimento natural do Holoceno aconteceu ao longo de milênios. O aquecimento atual está ocorrendo em décadas, e é essa aceleração que transforma a perda recente de gelo marinho em um evento especialmente preocupante.
Menos gelo marinho no Ártico muda a luz, o fitoplâncton e toda a cadeia alimentar
Segundo a Universidade de Washington, a descoberta não trata apenas do gelo em si, mas também da vida que depende dele. Quando o gelo cobre a superfície do mar, ele bloqueia a entrada de luz solar, limitando a fotossíntese do fitoplâncton, base da cadeia alimentar marinha.
Quando o gelo recua no verão, a entrada de luz aumenta e desencadeia florescimentos de fitoplâncton que alimentam zooplâncton, peixes, focas, ursos polares e também populações humanas que dependem da pesca no Ártico. Segundo os pesquisadores, o estudo documentou essa relação diretamente. Onde havia mais hélio-3, e portanto menos gelo, também apareciam mais marcadores de consumo de nutrientes pelo fitoplâncton.
Isso significa que a retração do gelo marinho ártico altera não apenas a paisagem, mas toda a dinâmica ecológica do oceano.
A mudança no ritmo de cobertura e exposição da água reorganiza a base produtiva da cadeia alimentar em uma das regiões mais sensíveis do planeta.
Poeira cósmica pode virar a nova régua histórica do gelo marinho no Ártico
Segundo a Universidade de Washington, a maior contribuição do método desenvolvido por Frank J. Pavia não está apenas no que ele já mostrou, mas no que ainda poderá revelar. O estudo analisou três sítios ao longo de 30 mil anos, mas sedimentos bem preservados podem recuar até 100 mil anos ou mais em alguns pontos do Ártico.
Com séries mais longas e novos locais de coleta, os cientistas poderão reconstruir vários ciclos glaciais e entender com mais precisão os padrões espaciais e temporais da perda de gelo marinho. Segundo Pavia, isso pode ajudar a melhorar projeções sobre aquecimento, cadeias alimentares, pesca e mudanças geopolíticas.
A dimensão geopolítica também é direta. Um Ártico sazonalmente livre de gelo abre rotas marítimas entre Atlântico e Pacífico, encurta trajetos comerciais e amplia disputas entre Estados Unidos, Rússia, Canadá, Noruega e Dinamarca.
A poeira de estrelas e cometas, ao cair silenciosamente sobre o planeta por bilhões de anos, acabou se transformando em uma das ferramentas mais precisas para medir a velocidade com que esse novo oceano está emergindo sob o gelo.

