1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Planta aquática invasora dominou lagos e rios pelo mundo, sufoca peixes, bloqueia luz e oxigênio, já causou colapsos pesqueiros e prejuízos bilionários, mas agora cientistas querem transformar a praga aquática em fonte de energia e riqueza sustentável
8 comentários 7 min de leitura

Planta aquática invasora dominou lagos e rios pelo mundo, sufoca peixes, bloqueia luz e oxigênio, já causou colapsos pesqueiros e prejuízos bilionários, mas agora cientistas querem transformar a praga aquática em fonte de energia e riqueza sustentável

Imagem de perfil do autor Maria Heloisa Barbosa Borges
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 26/01/2026 às 22:46
Planta aquática invasora aguapé domina ecossistemas, afeta espécies invasoras como no lago Vitória e pode virar energia sustentável em nova solução ambiental.
Planta aquática invasora aguapé domina ecossistemas, afeta espécies invasoras como no lago Vitória e pode virar energia sustentável em nova solução ambiental.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
99 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Comum nas bacias do Amazonas e do rio da Prata, a planta aquática invasora aguapé se espalhou globalmente e forma tapetes densos que impedem a passagem de luz e a oxigenação da água. No lago Vitória, aniquilou tilápias. Agora, cientistas buscam converter a biomassa em energia e renda sustentável hoje.

A planta aquática invasora aguapé virou sinônimo de um problema que começa como um “tapete verde” e pode terminar como colapso de vida aquática. Ao se espalhar por lagos e rios, ela cria uma camada densa na superfície que muda o funcionamento do ecossistema e pressiona diretamente peixes, invertebrados e toda a cadeia alimentar.

O mais provocador é que a mesma planta aquática invasora que sufoca ambientes e gera prejuízos bilionários agora está no centro de uma reviravolta: cientistas tentam transformar a praga aquática em biomassa útil, com potencial para virar energia e riqueza sustentável, em vez de seguir apenas como um custo ambiental e econômico.

Aguapé, a planta aquática invasora que ganhou o mundo

O aguapé, de nome científico Eichhornia crassipes, é descrito como comum nas bacias sul-americanas do Amazonas e do rio da Prata. Mesmo com essa origem associada a ambientes de água doce na América do Sul, ele se tornou a espécie invasora mais disseminada do mundo, segundo relatório da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, a Ipbes, ligada à Organização das Nações Unidas.

Esse detalhe é crucial porque mostra a dimensão do fenômeno: não se trata de uma planta “incômoda” restrita a um local, mas de uma invasora reconhecida como global. Quando uma espécie chega a esse nível de disseminação, o impacto deixa de ser pontual e passa a ser sistêmico, atingindo biodiversidade, economia e a forma como comunidades usam e dependem da água.

O mecanismo do sufocamento: luz bloqueada e oxigênio em queda

O problema central do aguapé está na maneira como ele ocupa a superfície. Ao formar extensos tapetes vegetais, a planta impede a passagem de luz e dificulta a oxigenação da água. Esses dois efeitos, combinados, alteram as condições básicas de sobrevivência no ambiente aquático.

Luz e oxigênio são a base do equilíbrio de um lago ou rio. Quando a luz deixa de penetrar, há impacto no funcionamento do ecossistema. Quando a oxigenação cai, o estresse sobre organismos aquáticos aumenta, especialmente sobre peixes. O resultado pode ser uma água “viva” por fora e debilitada por dentro, com reflexos que aparecem primeiro na fauna e depois em atividades humanas que dependem dela.

O caso do lago Vitória e o colapso das tilápias

O exemplo mais dramático citado é o do lago Vitória, na África Oriental. Ali, por impedir a passagem de luz e a oxigenação da água, o aguapé aniquilou populações de tilápias, descritas como um recurso pesqueiro importante.

Esse ponto coloca a discussão em termos práticos. Quando um recurso pesqueiro importante é afetado, o impacto não fica restrito ao ambiente natural. Ele chega à pesca, ao abastecimento, à renda e à rotina de comunidades que dependem do que o lago oferece. O aguapé, nesse contexto, não é apenas uma planta. Ele vira um fator que muda o destino de um sistema inteiro.

A praga aquática dentro de um problema maior: invasões biológicas em escala global

O aguapé aparece como o rosto mais visível, mas ele é parte de um quadro muito mais amplo. O relatório citado afirma que atividades humanas causaram a disseminação de mais de 37 mil espécies de plantas, animais e microrganismos. E há um dado que pesa ainda mais: essas espécies invasoras tiveram papel central em 60 por cento das extinções globais.

Esse é o tipo de número que muda a leitura do problema. Ele coloca as invasões biológicas como um motor real de perda de biodiversidade, não como um detalhe. Quando uma espécie chega onde não deveria e passa a dominar, ela não compete apenas por espaço. Ela reorganiza relações ecológicas, empurra espécies nativas para fora e pode desestruturar o que parecia estável.

O custo que explode no caixa: impacto econômico anual bilionário

Em 2019, o impacto econômico das espécies invasoras ultrapassou US$ 423 bilhões por ano, algo em torno de R$ 2 trilhões. Esse custo agrega danos diretos e indiretos que aparecem quando ecossistemas deixam de entregar serviços essenciais, como pesca saudável, água funcional e equilíbrio natural.

A conta não é abstrata. Ela se materializa em colapsos pesqueiros, prejuízos operacionais, gastos com controle e remediação, e perdas econômicas associadas a cadeias produtivas que dependem de água, biodiversidade e estabilidade ambiental. Nesse cenário, o aguapé vira um símbolo, mas o fenômeno é maior do que ele.

Américas exportam e também importam problemas

O material destaca um contraste importante. Além de exportar espécies, as Américas também sofrem invasões. Um exemplo citado é o mexilhão-dourado, Limnoperna fortunei, citado pelo biólogo Ricardo Pinto Coelho, professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais e proprietário da empresa RMPC Meio Ambiente Sustentável, descrito como o único brasileiro no painel de especialistas da Ipbes.

Segundo o relato, nas águas brasileiras esses moluscos causam problemas para a aquacultura e também para a operação de usinas, onde ficam incrustados nos sistemas de refrigeração. É uma invasão que não apenas altera a natureza, mas cria gargalos técnicos e custos operacionais. Isso reforça que o impacto de invasoras pode ser ecológico e, ao mesmo tempo, industrial.

Outro exemplo trazido é o mosquito Aedes aegypti, originário da África, associado à transmissão de agentes causadores de dengue, zika e outras doenças. Aqui, a invasão biológica não se limita à biodiversidade. Ela encosta diretamente em saúde pública.

Por que o aguapé vira alvo de uma virada: transformar problema em biomassa útil

É nesse ponto que entra a parte mais ambiciosa da história. Cientistas querem transformar a praga aquática em fonte de energia e riqueza sustentável.

A lógica é simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: se a planta aquática invasora se acumula em volumes enormes e gera custo para ser removida, sua biomassa pode deixar de ser apenas resíduo e passar a ser um recurso.

A mudança de mentalidade é estratégica. Em vez de tratar a remoção como um esforço que termina no descarte, a ideia é criar um ciclo em que o controle ambiental e o aproveitamento econômico caminhem juntos.

A biomassa do aguapé, que hoje bloqueia luz e oxigênio, poderia ser redirecionada para uso produtivo, ajudando a reduzir o peso financeiro do controle e criando um incentivo para ações contínuas.

Sustentabilidade na prática: controle sem romantizar a invasão

Mesmo com essa possibilidade, a história do aguapé não muda de natureza: ele continua sendo uma planta aquática invasora com capacidade de dominar ambientes e causar danos.

O que muda é a chance de transformar o combate em algo menos oneroso e mais eficaz, evitando que a remoção seja apenas uma medida emergencial.

A promessa é dupla. De um lado, aliviar a pressão sobre lagos e rios, recuperando oxigenação e luz. Do outro, transformar um passivo ambiental em ativo, com energia e valor econômico.

E tudo isso se conecta ao pano de fundo maior: invasões biológicas se tornaram um problema global, com custos anuais gigantescos e participação central em extinções.

O que esse caso revela sobre o futuro das águas

O aguapé é um retrato completo do dilema moderno. Ele nasce como planta comum em bacias sul-americanas, torna-se a invasora mais disseminada do mundo, sufoca peixes ao bloquear luz e oxigênio, derruba um recurso pesqueiro como a tilápia no lago Vitória, e passa a ser encarado como biomassa com potencial de gerar energia e riqueza sustentável.

É um choque entre duas realidades. A realidade da destruição rápida e a realidade da criatividade humana tentando redesenhar soluções a partir do próprio problema.

No meio disso, ficam os números do impacto global, as mais de 37 mil espécies disseminadas por ação humana, o papel em 60 por cento das extinções e a conta econômica anual que ultrapassa US$ 423 bilhões.

Você acha que transformar a planta aquática invasora em fonte de energia pode virar uma solução real para controlar a praga, ou isso corre o risco de só “maquiar” um problema gigantesco?

Inscreva-se
Notificar de
guest
8 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Paulo Brack
Paulo Brack
01/02/2026 13:47

Matéria ****, incorpora RACISMO BIOLÓGICO (Especismo), com planta nativa do Brasi. Em outros continentes pode se tornar exótica invasora, mas aqui é nativa. Se há crescimento sem controle, isso decorre do desequilíbrio ambiental, em geral em função do EXCESSO de NUTRIENTES derivado da poluição. Esta matéria deve ser corrigida. Obrigado

Arildo José Gobetti
Arildo José Gobetti
29/01/2026 19:56

É uma ideia, que poderá amenizar o problema em algumas regiões. Mas, qual o produto que poderá ser adquirido com o beneficiamento dessa planta? O melhor seria se possível, criar uma espécie de herbicida seletivo que eliminasse apenas o aguapé sem prejudicar a água os peixes e tudo o que vive e se reproduzi nela, seria uma forma de eliminar essa praga ou ao menos erradicar grande parte dela.

Rodrigo De Filippo
Rodrigo De Filippo
29/01/2026 13:44

Águapé é uma planta que depende de grande quantidade de nutrientes para proliferar, ou seja, poluição. Antes de acusar a coitada, seria bom investigar quais as condições atuais das águas em que habitam. Aliás, o aguapé foi espalhado pelo mundo justamente com o objetivo de reduzir a poluição de rios e lagos.

Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
8
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x