Em Los Angeles, um julgamento histórico reúne pais e escolas contra redes sociais e gigantes da tecnologia, apontando danos graves à saúde mental juvenil.
Nos Estados Unidos, um grupo formado por pais, jovens e centenas de distritos escolares leva pela primeira vez as maiores empresas de mídia social do mundo a um julgamento histórico em tribunal aberto, acusando Meta, YouTube, TikTok e Snap de projetarem produtos intencionalmente viciantes. Ao todo, cerca de 1.600 pessoas participam dos processos, envolvendo mais de 350 famílias e 250 distritos escolares, em um caso que pode redefinir a responsabilidade das big techs sobre a saúde mental juvenil.
O primeiro julgamento, em Los Angeles, gira em torno da história de uma jovem de 19 anos, identificada pelas iniciais KGM, que afirma ter desenvolvido problemas de saúde mental ainda criança após se tornar viciada em aplicativos de redes sociais. Se esse julgamento histórico abrir caminho para veredictos favoráveis aos demandantes, milhares de ações semelhantes poderão se fortalecer e pressionar mudanças profundas nas plataformas digitais.
O que está em jogo neste julgamento histórico
O caso marca um ponto de virada porque, pela primeira vez, empresas de mídia social serão julgadas por um júri sobre o impacto viciante de seus produtos em jovens.
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Os demandantes acusam Meta, Snap, TikTok e YouTube de:
- desenhar recursos para manter crianças e adolescentes conectados por longos períodos
- ignorar conscientemente sinais de vício e sofrimento psíquico
- contribuir para quadros de depressão, distúrbios alimentares, automutilação e outros problemas de saúde mental
A ação busca dois tipos de resultado:
- indenizações financeiras, pelos danos sofridos por famílias, jovens e distritos escolares
- medidas cautelares, que forcem as empresas a alterar o design das plataformas e criar novos padrões de segurança para menores de idade
Se o júri entender que milhões de crianças foram prejudicadas pelo uso das plataformas, este julgamento histórico pode se tornar um divisor de águas na forma como redes sociais são projetadas e reguladas, abrindo novas frentes de processos contra as gigantes da tecnologia.
Quem está processando as gigantes da tecnologia
Os processos são coordenados em um grande procedimento coletivo, conhecido como JCCP (procedimento de coordenação do conselho judicial), no tribunal superior de Los Angeles.
Participam:
- aproximadamente 1.600 pessoas
- mais de 350 famílias
- cerca de 250 distritos escolares
O caso KGM é o primeiro de cerca de 22 julgamentos chamados de “pioneiros”. Eles funcionam como testes para medir:
- a reação dos júris
- a força das provas
- os possíveis valores de indenização
Matthew Bergman, fundador do Social Media Victims Law Center, que representa os demandantes, classificou o momento como algo sem precedentes ao lembrar que uma empresa de mídia social nunca havia sido julgada por um júri nessas condições.
Para ele, as plataformas operaram por anos em uma zona de proteção, amparadas em brechas legais, sem arcar com a responsabilidade por seus efeitos sobre crianças e adolescentes.
Estratégia jurídica que lembra a luta contra a indústria do tabaco
A linha de ataque dos advogados repete uma estratégia que ficou famosa nos anos 1990, quando a indústria do tabaco foi colocada contra a parede. Na época, o foco era mostrar que:
- cigarros eram viciantes
- empresas sabiam disso
- e, mesmo assim, negavam o problema publicamente durante décadas
Agora, no julgamento histórico contra as redes sociais, a lógica é semelhante. A equipe jurídica argumenta que:
- as plataformas foram projetadas para serem viciantes
- as empresas conheciam os riscos para jovens
- e, ainda assim, continuaram empurrando recursos pensados para maximizar engajamento a qualquer custo
Os advogados dizem que uma grande quantidade de documentos internos será liberada durante o julgamento, incluindo material que estava sob sigilo.
A expectativa é que esses arquivos revelem discussões internas sobre vício, danos à saúde mental juvenil e decisões de design que priorizavam tempo de tela acima de segurança.
Documentos internos podem expor o design viciante das plataformas
Uma parte central do caso se apoia em documentos internos que descrevem as próprias redes sociais como “viciantes”.
A advogada Julia Duncan, da Associação Americana para a Justiça, afirma que alguns registros mostram funcionários:
- chamando o Instagram de “droga”
- e dizendo “kkk, nós somos basicamente traficantes”
Essas frases se somam a debates sobre recursos como:
- rolagem infinita, que impede o fim do feed e incentiva consumo contínuo
- reprodução automática de vídeos, que emenda um conteúdo no outro sem pausa
- algoritmos de recomendação, desenhados para sempre oferecer algo “mais envolvente”
Para os demandantes, não se trata apenas de conteúdo, mas de escolhas de design, algo que o juiz já destacou ao decidir que o júri deverá analisar também a arquitetura das plataformas, e não só o que os usuários postam.
Bergman foi direto ao afirmar que há “uma geração perdida de crianças” e que isso não foi acidente, mas “uma escolha de projeto”.
Acordos de Snap e TikTok e o medo do que pode vir à tona
Às vésperas do julgamento histórico, duas empresas se moveram para evitar o primeiro confronto direto no caso KGM.
O Snap fechou um acordo com os advogados da jovem, negando irregularidades, mas resolvendo o caso de forma amigável.
Os termos financeiros não foram divulgados, e a empresa continua ré em outros processos dentro do mesmo conjunto.
O TikTok também fechou um acordo com a autora da ação na véspera do início do julgamento, o que significa que não aparece ao lado de Meta e YouTube no processo específico de KGM.
Segundo Sacha Haworth, diretora do Tech Oversight Project, “você não faz um acordo a menos que não queira que essas coisas se tornem públicas”.
Para ela, o público ainda não tem ideia da dimensão do que poderá vir à tona quando depoimentos de pais, jovens e documentos internos forem apresentados em juízo.
O que dizem Meta, YouTube, TikTok e Snap
As empresas adotam, em público, uma postura de defesa firme.
- Meta e Snap não responderam aos pedidos de comentários no contexto deste caso específico.
- O TikTok se recusou a comentar.
- O YouTube, por meio do porta-voz José Castañeda, classificou as alegações como “simplesmente falsas” e afirmou que:
- oferecer uma experiência mais segura e saudável para jovens sempre foi prioridade
- a plataforma criou serviços, políticas e controles parentais para proteger esse público
De forma geral, as redes sociais costumam argumentar que:
- a forma como os usuários, inclusive jovens, usam os serviços é uma escolha individual
- elas estariam protegidas pela seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações, que isenta plataformas de responsabilidade pelo conteúdo gerado por usuários
A aposta dos demandantes, no entanto, é deslocar o foco do conteúdo para o design, tentando convencer o júri de que o problema não é apenas o que se posta, mas como o sistema inteiro foi construído para prender a atenção de forma agressiva.
Pressão política, denúncias internas e uma geração em disputa
Os julgamentos acontecem em paralelo a uma pressão política crescente em Washington. Um grupo bipartidário de parlamentares norte americanos tem chamado executivos de big techs ao Congresso para explicar:
- por que algoritmos expõem jovens a conteúdo de bullying, abuso de drogas e automutilação
- por que denúncias de riscos para crianças não teriam sido tratadas com a urgência necessária
Denunciantes internos vêm reforçando essa narrativa ao afirmar que as empresas sabiam dos danos potenciais para crianças e adolescentes e fizeram pouco ou nada para mudar a lógica de engajamento.
Em uma audiência de janeiro de 2024, o senador Josh Hawley pressionou Mark Zuckerberg a se desculpar publicamente.
Apesar do pedido de desculpas, famílias envolvidas nos processos afirmam que a postura da Meta pouco mudou na prática e que o dano continuou a se acumular.
Casos como o de Juliana Arnold, fundadora da Parents Rise, ilustram o drama. Ela perdeu a filha adolescente em 2022, por overdose de comprimidos letais após troca de mensagens com um traficante no Instagram.
Para ela, este julgamento histórico é também um momento de catarse coletiva: “Esperamos por isso durante anos, para que a verdade viesse à tona.”
O início de uma mudança profunda ou só mais um embate jurídico?
Além do processo em Los Angeles, uma série de julgamentos federais está marcada para junho em São Francisco, sob a forma de litígio multidistrital (MDL), com mais de 235 demandantes, entre famílias, distritos escolares e procuradores gerais de quase 30 estados.
A soma desses casos indica que as redes sociais estão entrando em uma nova fase de escrutínio jurídico, em que o desenho das plataformas pode ser tratado como produto com risco intrínseco, e não apenas como intermediário neutro de conteúdo. Dependendo dos veredictos, o resultado pode ser:
- mudanças obrigatórias em recursos considerados viciantes
- criação de padrões mínimos de segurança para jovens
- novas frentes de regulação e fiscalização no setor
Para muitos pais e jovens, porém, o ponto central é outro. Eles querem que alguém responda pelo que aconteceu nesses últimos anos, em que a vida de uma geração inteira foi moldada por feeds infinitos, notificações constantes e algoritmos que sabem exatamente o que prender na tela.
Na sua opinião, esse julgamento histórico das redes sociais nos Estados Unidos pode de fato mudar o jeito como usamos plataformas como Instagram, TikTok e YouTube, ou as empresas vão conseguir sair quase ilesas mais uma vez?


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