Missão GRACE usa variações gravitacionais para medir perda de gelo, esgotamento de aquíferos e mudanças no nível do mar em escala global.
Desde 2002, uma dupla de satélites vem executando uma das tarefas mais delicadas da ciência moderna: medir pequenas variações no campo gravitacional da Terra para entender como a água se move e se redistribui pelo planeta. A missão GRACE, sigla para Gravity Recovery and Climate Experiment, foi lançada em março de 2002 como parceria entre a NASA e o Centro Aeroespacial Alemão (DLR). Em 2018, a missão foi sucedida pelo GRACE Follow-On, garantindo continuidade às medições.
A aproximadamente 400 quilômetros de altitude, dois satélites idênticos voam em formação, separados por cerca de 220 quilômetros. À primeira vista, parecem apenas mais um par de equipamentos científicos orbitais. Mas o que fazem é singular: conseguem detectar mudanças mínimas na distância entre eles, provocadas por variações na gravidade da Terra.
Essas variações são suficientes para “pesar” massas de água, gelo e até reservas subterrâneas invisíveis.
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Como a gravidade revela a água invisível
A gravidade da Terra não é uniforme. Ela varia levemente conforme a distribuição de massa no planeta. Grandes concentrações de água, gelo ou rocha alteram, mesmo que de forma quase imperceptível, o campo gravitacional local.
Quando o satélite dianteiro da missão GRACE passa sobre uma região com maior massa, como uma cadeia de montanhas ou um grande aquífero, ele sofre uma pequena aceleração gravitacional. Essa aceleração altera a distância entre os dois satélites por frações de milímetro.
Sensores extremamente precisos medem continuamente essa variação. A partir desses dados, cientistas constroem mapas detalhados de mudanças na massa da superfície terrestre ao longo do tempo.
A física por trás do processo baseia-se na lei da gravitação universal. Pequenas mudanças na massa geram pequenas mudanças na força gravitacional. O sistema mede essas alterações com precisão micrométrica.
Monitoramento de geleiras e calotas polares
Uma das aplicações mais importantes da missão é o monitoramento de gelo nas regiões polares.
Desde o início das medições, dados do GRACE mostraram perda significativa de massa na Groenlândia e na Antártida. Estudos publicados com base nas medições indicam que bilhões de toneladas de gelo vêm sendo perdidas anualmente nessas regiões.
A redução de massa altera o campo gravitacional local, permitindo quantificar o volume de gelo derretido.
Essa informação é crucial para estimativas de elevação do nível do mar. Diferentemente de imagens de satélite convencionais, que mostram apenas área superficial, o GRACE mede a massa real, oferecendo visão volumétrica da mudança.
Aquíferos subterrâneos sob vigilância orbital
Além do gelo, a missão permite monitorar reservas de água subterrânea. Regiões agrícolas intensivas, como partes da Índia e da Califórnia, apresentam redução significativa de aquíferos devido à extração contínua de água para irrigação.
Essas reduções de massa também alteram a gravidade local. Estudos científicos baseados em dados do GRACE revelaram declínio preocupante em grandes sistemas aquíferos globais.
Trata-se de uma das únicas ferramentas capazes de medir, em escala continental, a variação de água subterrânea. Sem perfuração física, a missão detecta mudanças invisíveis sob a superfície.
Oceano e elevação do nível do mar
A redistribuição de água derretida das calotas polares contribui para a elevação global do nível do mar.
O GRACE mede a massa adicional acumulada nos oceanos. Essa abordagem complementa altímetros oceânicos, que medem altura da superfície do mar.
Enquanto altímetros registram expansão térmica e elevação física, o GRACE quantifica o ganho de massa. A combinação dos dois métodos fornece estimativas mais completas da dinâmica oceânica.
Continuidade com o GRACE Follow-On
Após o término da missão original em 2017, o GRACE Follow-On foi lançado em maio de 2018.
A nova missão mantém a metodologia de medição gravitacional, incorporando melhorias tecnológicas, incluindo um experimento de interferometria a laser para medição ainda mais precisa da distância entre satélites.
A continuidade é fundamental para manter séries históricas longas, essenciais para análise climática. Sem dados consistentes ao longo de décadas, seria impossível identificar tendências confiáveis.
Limitações e desafios científicos
Apesar da precisão, a resolução espacial da missão é relativamente ampla, abrangendo áreas de centenas de quilômetros.
O sistema detecta variações de massa em escala regional, não local.
Além disso, a interpretação dos dados exige modelos matemáticos complexos para separar efeitos de água, gelo e movimentos geológicos. Mesmo assim, o GRACE permanece uma das ferramentas mais robustas para monitoramento hidrológico global.
Uma balança orbital para o planeta
A missão GRACE transformou o campo gravitacional em instrumento de monitoramento climático.
Enquanto satélites ópticos mostram imagens visuais da Terra, o GRACE revela mudanças invisíveis na distribuição de massa. A água que evapora, congela, derrete ou infiltra no solo altera ligeiramente a gravidade do planeta.
A 400 quilômetros acima da superfície, dois satélites acompanham essas mudanças com precisão extrema.
Ao “pesar” o planeta repetidamente, o sistema fornece evidências concretas sobre o estado das reservas hídricas e do gelo global. O que acontece abaixo da superfície ou sob quilômetros de gelo não permanece oculto.
A missão GRACE demonstra que a gravidade, força fundamental da natureza, pode se tornar ferramenta de monitoramento climático.
Mais do que observar, ela mede o peso real das mudanças que estão moldando o futuro do planeta.

