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Operação de US$ 2 bilhões desenterra o Templo de Salt Lake e instala 98 isoladores de 8 toneladas, 423 km de cabos, para sobreviver à Falha de Wasatch até 2027

Escrito por Carla Teles
Publicado em 21/01/2026 às 17:10
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Templo de Salt Lake ganha isolamento de base com isoladores sísmicos para enfrentar terremotos em Salt Lake City na Falha de Wasatch.
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Maior templo mórmon do planeta é literalmente desenterrado em Salt Lake City para receber 98 isoladores sísmicos de 8 toneladas, 423 km de cabos protendidos e voltar a abrir as portas em 2027, preparado para a Falha de Wasatch

O Templo de Salt Lake está no centro de uma das obras de engenharia sísmica mais ambiciosas já feitas em um edifício histórico. Ícone da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e maior templo mórmon do mundo, o prédio passa por uma operação de modernização avaliada em cerca de US$ 2 bilhões para enfrentar o risco real de grandes terremotos na região. A ideia é simples de explicar e complexa de executar: permitir que o Templo de Salt Lake se mova com o solo durante um abalo, em vez de quebrar junto com ele.

Ao mesmo tempo em que os engenheiros lidam com fundações de pedra com mais de 130 anos, escavações a mais de 10 metros de profundidade e peças de concreto de milhares de quilos, eles também preservam madeira, alvenaria, vitrais, esculturas e um simbolismo religioso que existe desde o século XIX. Quando a obra terminar, prevista para ser concluída em 2026 e com reabertura do templo em 2027, a promessa é que o Templo de Salt Lake se torne uma das estruturas históricas mais resistentes a terremotos do planeta.

Um templo monumental em risco sísmico

Templo de Salt Lake ganha isolamento de base com isoladores sísmicos para enfrentar terremotos em Salt Lake City na Falha de Wasatch.

O Templo de Salt Lake domina o horizonte de Salt Lake City há mais de um século. A construção levou mais de 40 anos, foi concluída há mais de 130 anos e foi feita com granito e monzonito de quartzo extraídos do Little Cottonwood Canyon, a dezenas de quilômetros de distância.

As paredes chegam a ter 3 metros de espessura em alguns pontos, o complexo ocupa cerca de 11,4 acres de terreno e abriga aproximadamente 170 salas. Tudo nesse edifício foi pensado para impressionar pela escala, pela simbologia e pela presença física.

O que não foi pensado, na época, foram os terremotos. A Falha de Wasatch corta o Vale do Lago Salgado e os geólogos estimam que um terremoto de magnitude 7 ou superior ocorra aproximadamente uma vez a cada mil anos nessa falha. Mais importante para quem vive hoje é a estatística de curto prazo.

Há uma probabilidade de cerca de 57% de que um terremoto de magnitude 6 ou maior atinja a região nos próximos 50 anos, algo comparável a eventos que já mudaram códigos de construção em outros países.

Um abalo desse porte poderia causar danos severos ao Templo de Salt Lake, exigindo reparos longos ou até colocando em risco partes irreparáveis da estrutura histórica.

O alerta que veio da Nova Zelândia

Para entender o que poderia acontecer com o Templo de Salt Lake em um cenário de desastre, basta olhar para Christchurch, na Nova Zelândia. Em 22 de fevereiro de 2011, a cidade foi atingida por um terremoto de magnitude 6,3.

A icônica Catedral de Christchurch teve danos estruturais graves, com o colapso da torre e de parte da estrutura, e acabou sendo parcialmente demolida antes de passar por um processo de reconstrução e reforço sísmico.

A mensagem para Salt Lake City foi clara: esperar o terremoto chegar pode ser a diferença entre restaurar e perder um símbolo.

Em vez de aguardar um evento destrutivo, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias decidiu agir de forma preventiva.

O projeto do Templo de Salt Lake busca aplicar as lições aprendidas em desastres recentes antes que algo semelhante ocorra no Vale do Lago Salgado.

Isso explica a escala do investimento, o prazo longo de obras e o nível de intervenção nas fundações de um edifício do século XIX.

Como funciona o isolamento de base do Templo de Salt Lake

O coração da modernização do Templo de Salt Lake é o chamado isolamento de base. Em termos simples, é um sistema que desacopla a estrutura do movimento direto do solo durante um terremoto.

Em vez de o templo sentir toda a energia do abalo, ele passa a se mover de forma controlada sobre uma espécie de “rolamento” gigante.

O objetivo é reduzir drasticamente as forças que o prédio sente durante um tremor forte e, com isso, proteger tanto a estrutura quanto as pessoas que estiverem lá dentro.

No caso do Templo de Salt Lake, o sistema foi projetado para permitir até cerca de 1,5 metro de movimento horizontal em qualquer direção durante um grande terremoto. Isso é o que ajuda a preservar elementos ornamentais de pedra, alvenaria, torres e interiores históricos.

O segredo está nos 98 isoladores de base que estão sendo instalados sob o templo, cada um com aproximadamente 8 toneladas.

Os isoladores funcionam como grandes mancais entre uma nova fundação de concreto e a estrutura que carrega o peso das paredes de pedra, permitindo que essa “jangada” estrutural deslize quando o solo se move.

98 isoladores, 423 km de cabos e uma escavação monumental

Assista o vídeo
https://www.youtube.com/watch?v=mGa7PSWkf9U

Colocar o Templo de Salt Lake para “flutuar” em cima de isoladores sísmicos exigiu uma operação engenheirizada quase cirúrgica.

Primeiro, as equipes escavaram ao redor das fundações originais até cerca de 10,6 metros de profundidade, criando um novo nível inferior onde os isoladores seriam instalados. Nesse processo, o desafio era óbvio.

Era preciso remover terra e mexer na base de um edifício de pedra de milhões de quilos sem permitir que ele se movesse um centímetro fora do lugar.

Para isso, foram usadas diversas técnicas de escoramento e estabilização. Micropilares, estacas secantes, tirantes de ancoragem, tirantes tensionados, pilares de sustentação construídos manualmente e injeções de calda de cimento ajudaram a manter o templo firme enquanto o solo era retirado.

Com a escavação concluída, foi construída uma nova fundação de concreto, projetada especificamente para resistir a terremotos, com vigas de transferência e vigas de concreto armado em torno do perímetro e no interior da estrutura, redistribuindo o peso do templo.

A essa base se somam mais de 423 quilômetros de cabos protendidos passando pela fundação. Esses cabos conectam o Templo de Salt Lake à nova fundação de uma forma que controla a transferência de carga, especialmente durante o movimento sísmico.

Na prática, a pilha estrutural fica organizada em camadas: fundações antigas de pedra em cima, vigas de transferência logo abaixo, isoladores de base e, por fim, a nova fundação de concreto.

Quando todo o peso do Templo de Salt Lake estiver transferido para os isoladores, o solo sob eles será removido, permitindo que o prédio literalmente “flutue” sobre esse sistema em um terremoto.

O sistema de isoladores é rígido na vertical, suportando cargas permanentes e cargas de vento, mas é flexível na horizontal, exatamente o que se busca em isolamento de base.

Todo esse trabalho ocorre em paralelo a reforços adicionais em paredes, torres e outros elementos arquitetônicos, já que o isolamento por si só não garante dano zero em um cenário extremo.

Mais do que segurança sísmica, uma atualização de uso

A modernização do Templo de Salt Lake não se resume à parte estrutural. A obra também está criando mais espaço para batismos rituais, ampliando o número de assentos em salas de aula e adicionando um novo anexo ao norte, com uma ala de selamento, onde são realizados casamentos.

A intervenção sísmica funciona como oportunidade para atualizar o uso do Templo de Salt Lake às necessidades atuais da comunidade, sem abrir mão do caráter histórico e simbólico.

Esse equilíbrio entre reforço estrutural, preservação de detalhes originais e adaptação funcional é uma das razões pelas quais o projeto se estende por tantos anos. Inicialmente, a expectativa era concluir a obra em 2025, mas o prazo foi ajustado para 2026, com reabertura ao público em 2027.

Em um edifício dessa idade e complexidade, qualquer surpresa encontrada durante escavações ou reforços exige soluções sob medida, e isso demanda tempo.

A história do Templo de Salt Lake e da cidade que cresceu ao seu redor

Templo de Salt Lake ganha isolamento de base com isoladores sísmicos para enfrentar terremotos em Salt Lake City na Falha de Wasatch.

Para entender por que tanto esforço e dinheiro estão sendo investidos, é preciso olhar para a origem do Templo de Salt Lake e da própria Salt Lake City. Em 1847, liderados por Brigham Young, cerca de 148 mórmons chegaram ao Vale do Lago Salgado em busca de um lugar isolado, longe de perseguições religiosas.

O mormonismo era uma religião nova, cercada de controvérsias, e o fundador da igreja, Joseph Smith, havia sido assassinado poucos anos antes.

No meio de um ambiente árido e isolado, o templo foi pensado como um símbolo e um eixo urbano, algo capaz de ancorar uma nova sociedade.

A construção formal do Templo de Salt Lake começou em 1853, com fundações inicialmente em arenito. No fim da década de 1850, com tropas americanas marchando em direção a Utah e a região à beira de conflito, os trabalhadores enterraram as fundações para protegê-las e interromperam as obras.

Anos depois, quando o projeto foi retomado, a decisão foi reconstruir as bases em granito, usando rocha extraída do Little Cottonwood Canyon, a cerca de 32 quilômetros de distância.

Sem máquinas pesadas, blocos de granito eram detonados com dinamite, moldados manualmente e transportados em carroças puxadas por juntas de bois por terrenos acidentados.

Cada viagem podia levar até quatro dias. As pedras eram talhadas com grande precisão para formar paredes gigantescas com até 3 metros de espessura.

O arquiteto Truman O. Angell combinou elementos góticos e românicos com uma rica simbologia, incluindo estrelas, sóis e a estátua do anjo Morôni, transformando o Templo de Salt Lake em uma espécie de “sermão de pedra” visível à distância.

Ao longo das décadas de 1870 e 1880, as torres do templo foram subindo, ferramentas a vapor começaram a ser usadas, mas a maior parte do trabalho continuou manual.

Artesãos moldavam a pedra à mão, a madeira era cortada localmente e o metal era produzido em pequenas oficinas.

Ao mesmo tempo, o assentamento em torno do templo crescia, deixando de ser um posto avançado remoto e se transformando em uma cidade.

O Plano de Sião e a arquitetura oculta de Salt Lake City

Salt Lake City não cresceu de forma improvisada. Ela foi desenhada de forma deliberada, com base no chamado Plano de Sião, um modelo urbano idealizado anos antes.

Poucos dias depois da chegada dos primeiros colonos, topógrafos já marcavam as ruas em um grid quase perfeito, alinhado com os pontos cardeais.

No centro desse grid, um quarteirão de 11 acres foi reservado para o Templo de Salt Lake, o edifício mais importante da comunidade.

Enquanto cidades como Nova York se organizavam em quarteirões de aproximadamente 80 por 200 metros, Salt Lake City adotou quarteirões gigantes de 200 por 200 metros, os maiores de qualquer cidade americana na época. As ruas também eram desproporcionalmente largas, com mais de 40 metros de largura, bem acima dos 18 a 30 metros típicos em outras cidades.

O resultado foi uma cidade em que o Templo de Salt Lake se tornou o verdadeiro centro físico e simbólico da malha urbana.

Cada quarteirão tinha cerca de 10 acres e era dividido em apenas oito grandes lotes, o que criava pequenas “microfazendas” dentro da própria cidade.

Famílias plantavam em seus terrenos, as ruas funcionavam como canais de irrigação em períodos secos e os grandes quarteirões atuavam como aceiros contra incêndios, além de corredores ideais para a instalação de infraestrutura.

A longo prazo, essa escala acabou dificultando a mobilidade a pé e a densidade do centro, mas facilitou a chegada do automóvel, grandes rodovias e, mais recentemente, do sistema de trens leves TRAX.

Preservar o passado para construir o futuro

Ao longo do século XX, Salt Lake City se expandiu muito além dessa estrutura original, e o aumento dos valores de terra e a pressão imobiliária levaram à demolição de muitos edifícios históricos.

Nesse contexto, investir mais de US$ 2 bilhões para salvar um dos prédios mais antigos e emblemáticos da cidade envia um recado forte.

O projeto do Templo de Salt Lake funciona como um manifesto a favor da preservação, mostrando que é possível atualizar a segurança de uma estrutura antiga sem apagar sua história.

A expectativa é que esse esforço tenha um efeito multiplicador, inspirando novas iniciativas de preservação em outros prédios históricos de Salt Lake City e de outras cidades que enfrentam dilemas parecidos entre desenvolvimento e memória.

Graças ao trabalho de engenheiros, arquitetos e equipes de obra que literalmente desenterraram e sustentaram o templo sobre um novo sistema de isoladores, o Templo de Salt Lake deve deixar de ser um risco em caso de grande terremoto e se tornar referência de engenharia sísmica aplicada ao patrimônio histórico.

E você, acha que projetos como o do Templo de Salt Lake valem um investimento bilionário para preservar a história mesmo em regiões de alto risco sísmico?

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Carla Teles

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