A Arábia Saudita suspendeu definitivamente o Trojena — o resort de esqui nas montanhas de Tabuk que seria a peça central do megaprojeto NEOM e receberia os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029 — numa decisão que revela o tamanho do abismo entre as mega-ambições da Visão 2030 e a realidade orçamentária, técnica e física de construir uma estação de ski em pleno deserto árabe a quarenta e quatro graus de latitude norte.
O que era o Trojena e por que o mundo todo ficou olhando

Trojena era a promessa mais ousada de um projeto que já era ele mesmo uma promessa ousada. Nas montanhas de Tabuk, a noroeste da Arábia Saudita, onde as temperaturas chegam a zero grau no inverno e nevadas ocasionais já ocorreram naturalmente, a NEOM planejava construir um resort de montanha com pistas de ski, um lago artificial de água doce, hotéis de ultra-luxo, teleféricos e instalações para os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029.
As renderizações eram espetaculares: estruturas orgânicas encastradas na rocha, piscinas de borda infinita mirando o Mar Vermelho, cabines de teleférico sobre vales de granito. O custo estimado variou entre 4 e 7 bilhões de dólares apenas para o Trojena — dentro de um NEOM que prometia consumir 500 bilhões de dólares no total até 2030.
O Comitê Olímpico Asiático elegeu Trojena sede dos Jogos Asiáticos de Inverno de 2029 em 2022, numa decisão que já gerou ceticismo na época. Nunca na história dos Jogos Asiáticos uma sede havia sido escolhida sem uma única pista de ski existente no local.
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O que foi revelado que tornou o projeto impossível
Três problemas acumularam-se de forma irreversível. O primeiro é o neve: as montanhas de Tabuk recebem nevadas naturais esporadicamente — menos de dez dias por ano em média, e apenas nas cotas mais altas acima de 2.500 metros. Para manter pistas de ski operacionais durante os Jogos, a NEOM teria que usar canhões de neve artificial em escala industrial — em pleno deserto, com temperaturas que sobem acima de 30 graus Celsius durante o dia mesmo no inverno.
O segundo problema é a água: neve artificial consome enormes volumes de água. Em uma região que já enfrenta escassez hídrica severa e depende de dessalinização para a maior parte do consumo, usar água tratada para fazer neve artificial era indefensável mesmo pelos padrões flexíveis da Visão 2030.
O terceiro problema é o custo: a construção do THE LINE — o arranha-céu de 170 quilômetros de comprimento que é o projeto mais emblemático do NEOM — já consumiu dezenas de bilhões sem completar sequer 2% do seu comprimento planejado. O Public Investment Fund saudita começou a priorizar projetos com retorno financeiro mais realista, e Trojena ficou no fim da fila.
O que acontece com os Jogos Asiáticos de 2029

O Comitê Olímpico Asiático ainda não anunciou oficialmente o realocamento dos jogos, mas negociações estão em andamento com pelo menos três países alternativos — Japão, Coreia do Sul e Cazaquistão, todos com infraestrutura de ski existente e historial de organização de competições de inverno.
Para a Arábia Saudita, a perda dos Jogos é um golpe de relações públicas, mas não é o fim do esporte de inverno no país. O ski indoor — em pistas artificiais com climatização — está em expansão rápida no Golfo: a Ski Dubai no Mall of Emirates já é uma das maiores pistas indoor do mundo, e Abu Dhabi tem o Snow Abu Dhabi. A versão indoor do Trojena pode vir antes do que qualquer pista outdoor.
A gente viu isso acontecer com outros projetos faraônicos que encontraram o muro da física e da economia. O Canal Nicarágua prometeu conectar os dois oceanos e foi abandonado depois de bilhões gastos. O projeto de cidade flutuante no Pacífico foi engavetado depois de anos de marketing. Trojena entra para essa lista — mas o NEOM em si ainda existe, ainda tem dinheiro e ainda está construindo.
O que o cancelamento revela sobre o NEOM
O NEOM está passando por uma revisão silenciosa e sistemática de seus projetos mais ambiciosos. THE LINE foi reduzido de 170 quilômetros para um piloto de poucos quilômetros. A cidade flutuante Sindalah foi adiada. A montanha-resort Leyja foi redesenhada em escala menor. O que está sendo construído de verdade são projetos com retorno comercial mais próximo: hotéis, marinas, instalações portuárias, infraestrutura de energia.
Isso não significa que o megaprojeto morreu — significa que entrou em contato com a realidade. E fica a questão que ninguém na Arábia Saudita vai responder publicamente: quanto do dinheiro gasto em Trojena até agora vai ter algum retorno?
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Você acha que projetos como o NEOM são visão de futuro legítima ou ilusão de grandeza que não suporta o teste da realidade? Comenta aqui embaixo.
