Há mais de 10 anos, Naoto Matsumura vive sozinho em Fukushima, desafia a radiação e cuida dos animais abandonados após o desastre nuclear de 2011.
Em março de 2011, o Japão viveu um dos episódios mais dramáticos de sua história moderna. Um terremoto de magnitude 9, seguido de um tsunami devastador, destruiu parte da costa nordeste do país e provocou o colapso da Usina Nuclear de Fukushima Daiichi, liberando níveis alarmantes de radiação. Mais de 160 mil pessoas foram evacuadas em questão de horas. Cidades inteiras foram abandonadas, casas deixadas às pressas, plantações esquecidas e milhares de animais deixados para trás.
Mas entre o silêncio das sirenes e a poeira radioativa, um homem decidiu ficar. Seu nome é Naoto Matsumura, um ex-trabalhador da construção civil que, aos 54 anos na época, se recusou a abandonar sua terra natal. Enquanto todos fugiam da zona de exclusão, ele voltou — e nunca mais saiu. Hoje, mais de uma década depois, é conhecido como “o último homem de Fukushima”, o guardião solitário de uma cidade onde quase ninguém mais vive.
O retorno do homem vive sozinho em Fukushim
Nos dias seguintes ao desastre, Matsumura e sua família deixaram a cidade de Tomioka, uma das mais afetadas pela nuvem radioativa. No entanto, o que ele encontrou fora dali foi um cenário de deslocamento e desespero. Em abrigos temporários, milhares de pessoas viviam amontoadas, sem perspectivas de retorno.
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Inquieto, Matsumura decidiu voltar para verificar como estavam seus animais. Ao retornar, encontrou vacas famintas, cachorros acorrentados e gatos vagando pelas ruas vazias. As vilas estavam desertas, o mato tomava conta das casas e o som dos ventos substituía as vozes humanas.
Mesmo com os alertas do governo, ele resolveu permanecer. “Eu não poderia deixá-los morrer de fome”, contou em entrevista à Euronews. “Eles eram parte da minha família.”
Vivendo entre radiação e solidão: Naoto Matsumura
Desde então, Matsumura vive praticamente sozinho na zona proibida. A região que um dia abrigou mais de 20 mil pessoas se tornou uma cidade fantasma. A vegetação engoliu estradas, lojas e escolas. Animais selvagens tomaram as ruas — javalis, veados e até macacos.
O japonês adaptou uma rotina de sobrevivência simples: cultiva vegetais, cozinha no fogão a lenha e percorre as vilas abandonadas em uma pequena caminhonete. Seu principal objetivo é alimentar os animais que ficaram para trás — mais de 500 cães, gatos, vacas e porcos espalhados pelos arredores de Tomioka e Naraha.
A Agência de Energia Atômica do Japão estimou que a radiação na área, nos primeiros anos, podia chegar a níveis 17 vezes superiores ao limite seguro. Ainda assim, Matsumura ignora os riscos. “Os cientistas me disseram que eu poderia morrer em 30 anos por causa da radiação”, brincou em uma entrevista à BBC Japan. “Mas eu já tinha 60. Então está tudo bem.”
De vilão a herói nacional
Quando sua história começou a circular, parte da opinião pública japonesa o via como irresponsável por desafiar as ordens do governo. Com o tempo, porém, ele passou a ser reconhecido como símbolo de coragem e humanidade.
ONGs de proteção animal e jornalistas do mundo todo visitaram Fukushima para registrar sua rotina. Em 2015, o fotógrafo francês Antoine D’Agata o retratou para o documentário Alone in Fukushima, exibido em festivais internacionais. O registro mostra Matsumura caminhando pelas ruas vazias com um balde de ração, cercado por vacas e cães que o seguem como se fosse o pastor de um rebanho invisível.
Aos poucos, ele ganhou apelidos como “o homem que ficou” e “o guardião dos animais de Fukushima”. O próprio governo japonês reconheceu sua contribuição e, embora oficialmente a área ainda seja considerada de exclusão, tolera sua permanência.
A cidade onde o tempo parou
Hoje, a zona de exclusão se estende por cerca de 370 quilômetros quadrados. Em algumas áreas, o nível de radiação diminuiu, e o governo começou um lento processo de reabertura. Ainda assim, poucas famílias retornaram. O que resta é um cenário quase surreal: campos cobertos por ervas, parques vazios, relógios parados desde 2011.
Matsumura vive em uma pequena casa que ele mesmo reformou. Não tem eletricidade constante, mas usa painéis solares improvisados. Ele se comunica com o mundo por celular e recebe doações esporádicas de ONGs e simpatizantes. Segundo reportagem da University of Pennsylvania (2021), ele continua vivo, saudável e dedicado à sua rotina, mesmo com idade avançada.
“Não tenho medo da radiação”, disse ao jornalista Robert Gilhooly, autor de Yoshida’s Dilemma. “Tenho medo do que acontece com o coração das pessoas quando esquecem os outros — humanos ou animais.”
Um símbolo de resistência silenciosa
O caso de Matsumura transcende a tragédia de Fukushima. Ele se tornou um ícone da relação entre humanidade e natureza, um lembrete de que a tecnologia e o progresso podem falhar, mas o instinto de compaixão ainda resiste.
A UNESCO e a Nippon Foundation já estudam criar um memorial sobre as histórias humanas do desastre, e Matsumura é frequentemente citado como uma das mais emblemáticas. Ele se transformou em um símbolo de resistência solitária, um homem que, sem armas ou poder, desafiou a radiação e o esquecimento em nome da vida.
As ruas onde ele caminha estão cobertas por mato, mas as marcas de pneus e pegadas de animais revelam sua presença constante. À noite, sob o silêncio absoluto da cidade abandonada, apenas o som dos insetos e o farfalhar das folhas quebram a imobilidade — e ali está ele, alimentando os últimos sobreviventes.
Mais do que sobrevivência, um ato de humanidade
Hoje, quando fala com jornalistas, Matsumura raramente se apresenta como herói. Ele sorri e diz que apenas fez o que qualquer pessoa deveria fazer. “Eles dependiam de mim. Eu fiquei por eles”, repete com simplicidade.
Em uma era em que o mundo tenta se reerguer de crises ambientais e tecnológicas, sua história é um lembrete poderoso: mesmo em meio à radiação, ainda há espaço para empatia e esperança.


Isso sim é um homem de verdade. O mundo todo tagarelando sobre proteção aos animais e, todos já sabemos, nada vai mudar. Nunca. Bastariam homens como ele. Enfim, o blablabla mundial vai continuar, os recursos financeiros vão continuar a ser TODOS desviados em roubos, e segue o baile. Isso é o ser-humano. A espécie que deu errado.