Em Svalbard, a energia solar no Ártico abastece uma antiga estação isolada, usa neve como aliada e reduz o diesel levado até uma região sem estrada
Onde muita gente pensaria que energia solar não funciona, 360 painéis solares operam no Ártico, a 78 graus norte, perto do Polo Norte, em uma antiga estação de rádio isolada na Noruega.
A informação foi publicada por The Barents Observer, site jornalístico norueguês sobre o Ártico. A estação Isfjord Radio fica em Svalbard, longe de estradas, cercada por gelo no inverno e dependente de uma logística difícil para receber equipamentos e combustível.
O caso chama atenção porque mostra uma solução simples de entender: a neve reflete a luz, os painéis aproveitam essa claridade e o sistema ajuda o local a gastar menos diesel em uma área onde transportar combustível é caro e complicado.
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A antiga estação de rádio fica em Svalbard, uma região gelada entre a Europa e o Polo Norte
Isfjord Radio foi criada em 1933 para apoiar comunicações entre assentamentos de Svalbard, navios no norte do mar de Barents e a Noruega continental. A estrutura ganhou novo uso e virou uma base remota em uma das áreas mais isoladas do Ártico.

O local fica a cerca de 50 km de Longyearbyen, na costa voltada para o mar da Groenlândia. Não há estrada comum para chegar até a estação, o que transforma qualquer transporte em uma operação difícil.
Por isso, a energia solar tem um peso prático maior do que em uma cidade comum. Cada parte da eletricidade gerada no próprio local reduz a necessidade de levar diesel até uma região marcada por neve, gelo e distância.
Os painéis bifaciais captam luz pela frente e também pela parte de trás
O sistema usa painéis bifaciais, nome dado aos painéis que conseguem captar luz dos dois lados. Em termos simples, eles recebem luz direta pela frente e também aproveitam a claridade que bate no chão e volta pela parte traseira.
No Ártico, a neve ajuda nessa conta. Como ela é branca, reflete parte da luz solar para os módulos. Assim, durante os meses com sol forte, a própria paisagem gelada ajuda os painéis a produzir mais energia.
Esse detalhe muda a ideia de que energia solar só combina com lugares quentes. O frio não impede a geração. O grande limite está nos meses de escuridão, quando o sol fica abaixo do horizonte e os painéis produzem pouco ou nada.
A estrutura tem 360 painéis no solo, telhados solares, baterias e água quente armazenada
The Barents Observer, site jornalístico norueguês sobre o Ártico, detalhou os principais números do sistema em Isfjord Radio. São 360 painéis bifaciais instalados no solo, formando um sistema de 198 kW com produção esperada de 161.000 kWh por ano.
Além disso, há painéis solares nos telhados de 3 prédios, com capacidade instalada de 96 kW e geração estimada de 60.000 kWh por ano. A energia não fica concentrada em uma única parte da estação.
Quando sobra eletricidade, o sistema carrega baterias. Ele também aquece água guardada em 12 tanques, com capacidade total de 12.000 litros, usados para ajudar no aquecimento dos prédios durante a noite ou em momentos de sol mais fraco.
Sem estrada, equipamentos chegam por neve e o diesel deixa de ser a única resposta
A ausência de estrada até Isfjord Radio mostra por que a redução do diesel importa tanto. No inverno, equipamentos e suprimentos precisam chegar por motos de neve ou veículos sobre esteiras, feitos para andar sobre gelo e neve.

Antes da nova estrutura, a operação queimava quase 200.000 litros de diesel por ano para gerar eletricidade e calor. Com a instalação solar, o consumo de combustível fóssil pode cair 70%.
Esse número não significa que o diesel sumiu. A estação ainda precisa de apoio quando há pouca luz, neblina, nuvens ou noite polar. Mesmo assim, gastar menos diesel já muda a operação em uma área onde cada litro precisa ser transportado com dificuldade.
Em 17 de maio de 2025, os painéis cobriram toda a demanda elétrica por 24 horas
O resultado mais marcante ocorreu em 17 de maio de 2025. Naquele dia, os painéis solares produziram energia suficiente para cobrir toda a demanda elétrica da base por 24 horas.
Isso aconteceu em um período favorável para Svalbard. Entre o fim de abril e o fim de agosto, o sol não se põe no arquipélago, o que aumenta o tempo de geração solar durante a estação mais clara do ano.
Inge Jørstad, gerente de operação da estação, explicou que alimentar os prédios com energia solar funciona bem ali porque a base fecha no meio do inverno, quando o sol fica abaixo do horizonte.
O projeto mostra o potencial da energia solar em comunidades remotas, mas sem promessa exagerada
A experiência de Isfjord Radio funciona como teste em uma região extrema. Ela mostra que a energia solar pode ter uso real no Ártico, principalmente quando combina painéis, baterias e armazenamento de calor.
Ao mesmo tempo, o modelo não resolve sozinho todos os desafios energéticos de lugares frios. Em regiões que precisam funcionar o ano inteiro, a falta de sol no inverno exige outras soluções de apoio.
A principal lição é que a energia solar pode entrar onde muita gente não esperaria. Em vez de substituir tudo de uma vez, ela reduz parte da dependência de combustíveis fósseis e ajuda locais isolados a produzir energia perto de onde ela será usada.
No caso de Isfjord Radio, 360 painéis solares transformaram neve, luz e armazenamento em uma saída prática para uma estação cercada por gelo. O projeto mostra que até perto do Polo Norte o sol pode aliviar o peso do diesel.
A dúvida que fica é simples: se a energia solar consegue ajudar uma estação isolada no Ártico, quais outros lugares difíceis também poderiam aproveitar melhor a luz que já recebem?
