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O avião abandonado de Elvis Presley por quase 40 anos: o Lockheed comprado em 1976 foi resgatado, leiloado por US$ 234 mil e transformado em algo surpreendente

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 27/10/2025 às 17:11
O jato de Elvis Presley, abandonado por décadas, foi transformado em motor-home pelo youtuber James Webb e será exibido em turnê pelos EUA
O jato de Elvis Presley, abandonado por décadas, foi transformado em motor-home pelo youtuber James Webb e será exibido em turnê pelos EUA
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Décadas após ser abandonado no deserto do Novo México, o jato Lockheed JetStar de Elvis Presley renasce como motor-home temático, criado pelo youtuber James Webb, que planeja levá-lo por uma turnê nos Estados Unidos.

No final de 1976, no auge de sua fama e extravagância, Elvis Presley realizou mais um de seus sonhos excêntricos: comprou um jato particular Lockheed JetStar 1962 para chamar de seu.

O rei do rock desembolsou cerca de US$ 840 mil em 1976 para adicionar a aeronave à sua frota pessoal.

Elvis já possuía outros aviões – incluindo o famoso Convair 880 apelidado de “Lisa Marie” – mas o pequeno JetStar, que ele chegou a apelidar de “Hound Dog II”, seria seu novo brinquedo dos céus.

A aquisição fazia parte do hobby predileto do astro: ele adorava colecionar carros e aviões luxuosos.

Por dentro, o jato era um banquete de luxo retrô dos anos 60. Interior do Lockheed JetStar de Elvis Presley, ostentando os assentos giratórios de veludo vermelho e acabamentos de madeira e ouro, preservados como um cápsula do tempo do luxo dos anos 1970.

O jato em ruínas permanecia estacionado no Centro Aéreo de Roswell, no Novo México, havia décadas — exatamente como foi visto em 2022. (Cortesia: Mecum Auctions)

Assim que assumiu a posse, Elvis fez questão de personalizar detalhes do interior a seu gosto.

Os assentos de veludo vermelho, macios e chamativos, acomodavam até nove pessoas – todos giratórios e reclináveis, com cintos dourados reluzentes.

Havia também um sofá confortável combinando com o carpete vermelho de estilo shag. As paredes exibiam painéis de madeira polida, e ferragens banhadas a ouro brilhavam nas persianas das janelas e em detalhes do acabamento.

Para entretenimento a bordo, Elvis equipou o jato com um toca-fitas cassete e um videocassete RCA ligados a uma pequena TV – alta tecnologia para a época – além de um forno micro-ondas e um dispenser de bebidas na galley (cozinha) da aeronave.

O interior luxuoso e aveludado inclui seis assentos giratórios e reclináveis ​​para passageiros. 
Cortesia da Mecum Auctions

O que ele queria fazer com a aeronave

Elvis pretendia usar o JetStar para tornar suas viagens mais ágeis. Com ele, poderia transportar facilmente seus músicos, os cantores de apoio e até os amigos.

O astro mantinha vários pilotos de prontidão, de modo que pudesse voar a qualquer momento para encontrar seus fãs apaixonados em diferentes cidades.

Nos primeiros meses de 1977, o Lockheed JetStar complementou a pequena frota aérea de Elvis – era o terceiro avião particular em seu hangar pessoal, ao lado do Lisa Marie e de outro JetStar que ele já possuía.

Não deu tempo aproveitar

Infelizmente, Elvis teve pouco tempo para desfrutar dessa nova aquisição. Menos de um ano depois da compra, em agosto de 1977, o mundo perdeu o Rei do Rock, e seus aviões dourados perderam seu piloto mais ilustre.

Após a morte prematura de Elvis, o destino do JetStar tornou-se incerto.

Ainda em 1977, o jato foi vendido a uma empresa da Arábia Saudita, e dali por diante iniciou-se uma longa odisseia de abandono.

Por razões pouco documentadas, a aeronave acabou estacionada em Roswell, no estado norte-americano do Novo México – local famoso por abrigar um extenso cemitério de aviões no deserto.

Os motores e muitas peças do cockpit foram removidos. 
Cortesia da Mecum Auctions

Ali, sob o sol impiedoso e os ventos arenosos, o reluzente jato de Elvis foi gradualmente perdendo o esplendor.

A pintura externa vermelho-e-prata desbotou e descascou, expondo o alumínio por baixo.

Os motores haviam sido retirados – duas das turbinas originais chegaram a ser enviadas para exibição em um museu do Tennessee – e muitos componentes do cockpit desapareceram com o tempo, seja por remoção para reaproveitamento, seja pelo simples desgaste de décadas a céu aberto.

O interior, surpreendentemente, permaneceu intocado e selado como uma cápsula do tempo. Trancado no deserto, o jato de Elvis resistiu por quase quarenta anos estacionado no Roswell International Air Center, tornando-se uma curiosa relíquia à espera de seu destino.

imagtem interior abandonado

Nas décadas seguintes, o avião de Elvis abandonado se tornou lenda entre fãs e colecionadores.

Alguns aventureiros se arriscavam a espiar pelas janelas empoeiradas e vislumbrar o veludo vermelho ainda brilhando ao sol do Novo México.

De tempos em tempos, surgiam tentativas de dar um novo rumo à aeronave. Por volta de 2017, empresas de leilão passaram a oferecer o jato ao mercado, alimentando esperanças de que algum entusiasta o resgatasse.

A expectativa inicial era astronômica: falava-se em lances entre 2 e 3,5 milhões de dólares. Mas a realidade foi bem diferente.

No leilão de maio de 2017, o JetStar acabou arrematado por apenas US$ 430 mil – uma pechincha, ainda que ninguém soubesse exatamente o que fazer com aquele colosso de 42 mil quilos sem motores.

O comprador de 2017, declarou planos de exibir o avião como atração temática em sua loja de carros. Contudo, o projeto nunca saiu do papel: o comprador jamais providenciou o transporte do jato e, pasmem, nunca chegou a vê-lo pessoalmente.

Assim, o avião permaneceu esquecido na pista de Roswell, acumulando poeira e dúvidas sobre seu futuro.

A venda

Apenas em janeiro de 2023 veio a virada decisiva dessa história. Aproveitando o que teria sido o aniversário de 88 anos de Elvis Presley, a casa de leilões Mecum Auctions colocou o icônico avião em oferta.

Sob olhares curiosos, os lances começaram em US$ 100 mil e subiram lentamente. No final, um licitante anônimo por telefone deu o lance vencedor de US$ 260 mil, encerrando quatro décadas de espera.

Mal sabia o público presente, mas por trás do telefone estava um personagem inusitado: James Webb, um youtuber aventureiro conhecido pelo canal “Jimmy’s World”.

Webb, ex-mecânico e entusiasta da aviação, decidiu apostar todas as suas fichas naquela relíquia do rock. “Ainda estamos tentando decidir se foi a melhor ou pior decisão financeira da minha vida”, brincou Webb depois, revelando ter pago cerca de US$ 234 mil pelo jato (valor líquido após taxas).

O novo dono do avião

James Webb tinha um plano tão maluco quanto ousado para o JetStar: transformar o jato em um motorhome sobre rodas.

Webb organizou a logística para transportar a fuselagem por via terrestre de Roswell até a Flórida, numa jornada de 2.500 km.

Afinal, voar o jato era impossível – sem motores e com a documentação desativada, restaurá-lo à condição de voo custaria milhões de dólares (estima-se US$ 5,7 milhões só para torná-lo aeronauticamente viável), isso sem falar nas barreiras regulatórias modernas, já que as antigas turbinas JetStar não atendem aos padrões de ruído atuais.

Diante disso, Webb optou por uma solução criativa e radical: acoplar a fuselagem do jato a um chassi de ônibus.

Sua ideia era preservar o interior vintage como um museu itinerante, permitindo que fãs experimentassem a sensação de estar no jato de Elvis – porém em terra firme. Em outras palavras, ele planejava literalmente “dar carona” no jato pelo país.

A fuselagem principal do JetStar foi instalada sobre o chassi de um caminhão Freightliner 1999, escolhido pela resistência e compatibilidade com o peso do avião.

Webb e sua equipe uniram metal com metal, adaptando suportes e rodas. Foram 18 meses de trabalho intenso – e de todas as economias de Webb investidas – para dar vida ao inusitado veículo híbrido.

Durante a reforma, o interior do jato foi mantido exatamente como Elvis o deixou. “Só passamos o aspirador e limpamos a madeira, só isso. Tudo está como era 40 e poucos anos atrás”, explicou Webb, maravilhado com a preservação.

A eletricidade de bordo foi restabelecida e, surpreendentemente, todos os aparelhos voltaram a funcionar após décadas parados: a televisão de tubo acendeu, o videocassete roncou, as luzes internas brilharam e até o micro-ondas Kenmore apitou, prontos para uso.

“Fiquei de queixo caído”, confessou o youtuber, referindo-se ao “estado de cápsula do tempo” do jato.

No meio de 2024, a metamorfose estava completa. Webb apelidou carinhosamente a criação de “Elvismobile”, o automóvel de Elvis.

Onde antes existiam asas e turbinas, agora havia rodas e um motor diesel. Chegara a hora do velho jato voltar à estrada – literalmente. Em julho de 2024, James Webb deu a partida no Elvismobile.

O jato sobre rodas percorreu cerca de 2.575 km, partindo da Flórida e atravessando vários estados até o Meio-Oeste americano.

A cada parada nos postos de gasolina e a cada ultrapassagem nas rodovias, a cena surreal chamava atenção: um jato “dirigindo” na estrada, como se tivesse feito um pouso errado numa highway.

Webb relatou que a viagem teve momentos tensos, especialmente por causa do assédio curioso de motoristas: “As pessoas emparelhavam, pisavam no freio, tiravam o celular para filmar e começavam a ziguezaguear na minha frente… Foi como uma parada de trânsito ambulante”.

Apesar de andar a meros 65 mph – “bem mais lento do que voando num jato de verdade”, brincou Webb – o veículo teve um desempenho sólido e fez cerca de 5 km por litro de diesel, o que ele considera “bem mais econômico que um jato de verdade”.

Quando enfim adentrou o recinto do festival em Oshkosh no dia 20 de julho de 2024, o Elvismobile foi recebido como celebridade.

Como está em 2025

Agora, em 2025, o Elvismobile continua sua jornada pelas estradas dos Estados Unidos, mantendo viva a memória do Rei de forma itinerante. A programação da turnê inclui um retorno triunfal a Oshkosh no verão de 2025, para mais uma vez encantar os fãs de aviação e rock ’n’ rol.

Novos destinos estão sendo avaliados – museus, encontros de automóveis, eventos temáticos de música – todos interessados em receber a curiosa fuselagem vermelha que um dia cortou os céus com Elvis a bordo. James Webb admite que, depois de tanto esforço, ainda não tem um plano definitivo para o futuro do jato. “Sinceramente não sei o que vem depois… Talvez continuar na estrada para que mais pessoas aproveitem”, disse ele.

Por ora, sua missão tem sido cumprida: onde quer que estacione, o JetStar de Elvis renascido atrai multidões e proporciona uma experiência nostálgica incomparável.

No desfecho desta saga improvável, fica uma reflexão emocionante sobre preservação criativa do legado de Elvis.

Aquele que era apenas um pedaço esquecido da história do rock – um jato enferrujando no deserto – transformou-se em atração cultural itinerante, graças à visão ousada de um fã engenhoso.

Em vez de acabar em partes ou silenciosamente corroer sob o sol, o avião do Rei do Rock agora desliza sobre rodas, levando consigo histórias e memórias.

Fãs de diferentes gerações podem entrar na cabine, sentar nos mesmos estofados onde Elvis relaxou, imaginar os acordes de “Jailhouse Rock” tocando no toca-fitas e sentir, por alguns instantes, a grandiosidade daquele estilo de vida.

De certa forma, Elvis Presley continua “na estrada” – ou melhor, na estrada e não no céu – encantando o público de um jeito totalmente novo.

O projeto de James Webb deu ao Lockheed JetStar uma segunda vida, provando que a criatividade e a paixão podem manter viva a herança de um ícone. Quase meio século após a última decolagem de Elvis, seu jato vermelho voltou a rodar, lembrando a todos que a lenda do Rei ainda tem muito caminho – e estrada – pela frente.

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Telmo Vilela
Telmo Vilela
28/10/2025 05:17

Elvis, eternamente…

Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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