No Saara mauritano, uma cidade histórica convive com o avanço da areia sobre casas, ruas e bibliotecas familiares, em meio a um cenário que pressiona a vida cotidiana e desafia a preservação de um patrimônio reconhecido internacionalmente.
No coração do Saara mauritano, a cidade histórica de Chingueti convive com o avanço contínuo da areia.
No local, ruas estreitas, casas antigas e bibliotecas familiares têm sido afetadas pelo acúmulo de dunas sobre portas, quintais e telhados, em um processo que pressiona a rotina dos moradores e ameaça parte do patrimônio arquitetônico da cidade.
Chingueti, na Mauritânia, integra o conjunto dos antigos ksour reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1996.
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Fundada entre os séculos 11 e 12 no contexto das rotas caravaneiras do Saara, a cidade se consolidou ao longo dos séculos como ponto de comércio, circulação religiosa e produção intelectual islâmica.
Hoje, além do desgaste natural sobre a arquitetura tradicional, o local enfrenta o avanço das dunas e os efeitos de um ambiente cada vez mais seco.
Cidade histórica de Chingueti enfrenta avanço da areia
Durante séculos, Chingueti esteve ligada à travessia de caravanas e à circulação de saberes religiosos e científicos no deserto.
O traçado urbano, formado por construções de pedra e barro, foi adaptado às condições do Saara e serviu de abrigo a comerciantes, estudiosos e peregrinos.
Essa herança ainda aparece na malha urbana e nas edificações preservadas, embora parte da cidade já tenha sido alcançada pela areia ao longo do tempo.
Nos últimos anos, o problema deixou de ser apenas patrimonial.
De acordo com a Associated Press, tempestades de areia passaram a atingir com mais frequência áreas habitadas da cidade, cobrindo vias e moradias.

Em trechos mais estreitos, moradores fazem a retirada manual dos depósitos de areia, já que veículos maiores não conseguem circular.
Em alguns casos, quando o acúmulo se intensifica, a alternativa tem sido erguer novas paredes sobre estruturas antigas para tentar adiar o soterramento.
A rotina local passou a exigir intervenções constantes.
A areia avança, os moradores removem o material e, em seguida, o vento volta a alterar a paisagem.
Para muitas famílias, deixar Chingueti significa também romper um vínculo direto com a história da cidade e com gerações que viveram no local.
Bibliotecas familiares e manuscritos antigos no deserto
Entre os elementos mais conhecidos de Chingueti estão as bibliotecas privadas e familiares que guardam manuscritos antigos.
Segundo a Associated Press, a cidade abriga mais de uma dezena de bibliotecas com milhares de documentos, incluindo textos corânicos e manuscritos sobre áreas como direito e matemática.
O acervo ajuda a explicar por que o município é associado à tradição escrita no oeste islâmico africano.
Em vez de grandes edifícios públicos, muitas dessas coleções permanecem em espaços mantidos por famílias que, há gerações, assumem a guarda do material.
As condições do ambiente impõem riscos permanentes aos documentos.
Calor, poeira, secura extrema e problemas estruturais exigem cuidados contínuos e medidas de preservação adotadas no dia a dia pelos responsáveis pelos acervos.
Esses manuscritos têm relevância não apenas religiosa.
Os documentos também registram parte da circulação de conhecimento em uma região que, por séculos, conectou o norte da África a áreas ao sul do Saara.
O conjunto reforça o papel histórico de Chingueti como ponto de passagem e de produção intelectual em uma área marcada pela mobilidade de caravanas e pela vida no deserto.
Desertificação altera paisagem e rotina na Mauritânia
O avanço das dunas em Chingueti é associado a mais de um fator.
Moradores ouvidos pela Associated Press relataram que a redução das chuvas ao longo da última década enfraqueceu a vegetação que ajudava a fixar o solo.
Com menos cobertura vegetal, a areia se desloca com mais facilidade, alcança áreas habitadas e modifica a configuração da cidade.

Segundo esses relatos, árvores morreram por falta de água, enquanto outras foram cortadas para lenha ou para alimentação de rebanhos, o que reduziu barreiras naturais contra o vento.
Esse cenário também afeta a economia local.
O cultivo de tâmaras, tradicional na região, enfrenta dificuldades com a alteração das condições ambientais, enquanto a poeira levada pelo vento amplia preocupações relacionadas à saúde dos moradores.
Ao mesmo tempo, parte da população mais jovem tem deixado a cidade em busca de outras oportunidades, o que reduz a disponibilidade de pessoas para manter casas, ruas e bibliotecas.
Tentativas de conter as dunas ao redor de Chingueti
Uma das medidas buscadas na região é o plantio de árvores para formar cinturões verdes no entorno da cidade.
A iniciativa aparece tanto em ações locais quanto em projetos ligados à proposta da Grande Muralha Verde africana.
O objetivo é recuperar parte da cobertura vegetal para reduzir a movimentação da areia e proteger áreas urbanas e acervos documentais.
Até o momento, porém, os resultados relatados são limitados.
A Associated Press informou que, mesmo com replantios, ainda há poucos sinais de interrupção do avanço das dunas.
Espécies adaptadas a esse tipo de terreno podem levar anos para desenvolver raízes profundas o suficiente para acessar água subterrânea.
Enquanto isso, o controle do soterramento continua sendo feito de forma manual em diferentes pontos da cidade.
Patrimônio da UNESCO sob risco no Saara
O caso de Chingueti ajuda a dimensionar a pressão enfrentada por cidades históricas localizadas em regiões áridas.
A UNESCO reconhece o conjunto dos antigos ksour mauritanos como testemunho de uma forma de ocupação ligada às rotas transaarianas e à difusão da cultura islâmica.
Nesse contexto, a preservação do local envolve não apenas a manutenção de edificações antigas, mas também a proteção de vestígios de uma rede histórica de comércio, fé e produção de conhecimento.
Atualmente, Chingueti segue habitada, as bibliotecas continuam preservando manuscritos e moradores ainda retiram areia das portas com frequência.
Ao mesmo tempo, o ambiente impõe dificuldades contínuas à conservação da cidade histórica e de seus acervos.
O avanço das dunas, somado à pressão climática e às limitações locais de preservação, mantém sob risco um dos mais conhecidos centros históricos do deserto.

