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No coração do Saara, uma cidade erguida no deserto e marcada por riqueza, fé e conhecimento está sendo lentamente engolida por dunas gigantes, enquanto moradores travam uma corrida silenciosa para impedir que tudo vire ruínas

Escrito por Ana Alice
Publicado em 25/03/2026 às 16:15
Assista o vídeoChingueti, na Mauritânia, enfrenta o avanço das dunas sobre casas, ruas e bibliotecas de uma cidade histórica da UNESCO. (Imagem: Ilustração)
Chingueti, na Mauritânia, enfrenta o avanço das dunas sobre casas, ruas e bibliotecas de uma cidade histórica da UNESCO. (Imagem: Ilustração)
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No Saara mauritano, uma cidade histórica convive com o avanço da areia sobre casas, ruas e bibliotecas familiares, em meio a um cenário que pressiona a vida cotidiana e desafia a preservação de um patrimônio reconhecido internacionalmente.

No coração do Saara mauritano, a cidade histórica de Chingueti convive com o avanço contínuo da areia.

No local, ruas estreitas, casas antigas e bibliotecas familiares têm sido afetadas pelo acúmulo de dunas sobre portas, quintais e telhados, em um processo que pressiona a rotina dos moradores e ameaça parte do patrimônio arquitetônico da cidade.

Chingueti, na Mauritânia, integra o conjunto dos antigos ksour reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1996.

Fundada entre os séculos 11 e 12 no contexto das rotas caravaneiras do Saara, a cidade se consolidou ao longo dos séculos como ponto de comércio, circulação religiosa e produção intelectual islâmica.

Hoje, além do desgaste natural sobre a arquitetura tradicional, o local enfrenta o avanço das dunas e os efeitos de um ambiente cada vez mais seco.

Cidade histórica de Chingueti enfrenta avanço da areia

Durante séculos, Chingueti esteve ligada à travessia de caravanas e à circulação de saberes religiosos e científicos no deserto.

O traçado urbano, formado por construções de pedra e barro, foi adaptado às condições do Saara e serviu de abrigo a comerciantes, estudiosos e peregrinos.

Essa herança ainda aparece na malha urbana e nas edificações preservadas, embora parte da cidade já tenha sido alcançada pela areia ao longo do tempo.

Nos últimos anos, o problema deixou de ser apenas patrimonial.

De acordo com a Associated Press, tempestades de areia passaram a atingir com mais frequência áreas habitadas da cidade, cobrindo vias e moradias.

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Em trechos mais estreitos, moradores fazem a retirada manual dos depósitos de areia, já que veículos maiores não conseguem circular.

Em alguns casos, quando o acúmulo se intensifica, a alternativa tem sido erguer novas paredes sobre estruturas antigas para tentar adiar o soterramento.

A rotina local passou a exigir intervenções constantes.

A areia avança, os moradores removem o material e, em seguida, o vento volta a alterar a paisagem.

Para muitas famílias, deixar Chingueti significa também romper um vínculo direto com a história da cidade e com gerações que viveram no local.

Bibliotecas familiares e manuscritos antigos no deserto

Entre os elementos mais conhecidos de Chingueti estão as bibliotecas privadas e familiares que guardam manuscritos antigos.

Segundo a Associated Press, a cidade abriga mais de uma dezena de bibliotecas com milhares de documentos, incluindo textos corânicos e manuscritos sobre áreas como direito e matemática.

O acervo ajuda a explicar por que o município é associado à tradição escrita no oeste islâmico africano.

Em vez de grandes edifícios públicos, muitas dessas coleções permanecem em espaços mantidos por famílias que, há gerações, assumem a guarda do material.

As condições do ambiente impõem riscos permanentes aos documentos.

Calor, poeira, secura extrema e problemas estruturais exigem cuidados contínuos e medidas de preservação adotadas no dia a dia pelos responsáveis pelos acervos.

Esses manuscritos têm relevância não apenas religiosa.

Os documentos também registram parte da circulação de conhecimento em uma região que, por séculos, conectou o norte da África a áreas ao sul do Saara.

O conjunto reforça o papel histórico de Chingueti como ponto de passagem e de produção intelectual em uma área marcada pela mobilidade de caravanas e pela vida no deserto.

Desertificação altera paisagem e rotina na Mauritânia

O avanço das dunas em Chingueti é associado a mais de um fator.

Moradores ouvidos pela Associated Press relataram que a redução das chuvas ao longo da última década enfraqueceu a vegetação que ajudava a fixar o solo.

Com menos cobertura vegetal, a areia se desloca com mais facilidade, alcança áreas habitadas e modifica a configuração da cidade.

Segundo esses relatos, árvores morreram por falta de água, enquanto outras foram cortadas para lenha ou para alimentação de rebanhos, o que reduziu barreiras naturais contra o vento.

Esse cenário também afeta a economia local.

O cultivo de tâmaras, tradicional na região, enfrenta dificuldades com a alteração das condições ambientais, enquanto a poeira levada pelo vento amplia preocupações relacionadas à saúde dos moradores.

Ao mesmo tempo, parte da população mais jovem tem deixado a cidade em busca de outras oportunidades, o que reduz a disponibilidade de pessoas para manter casas, ruas e bibliotecas.

Tentativas de conter as dunas ao redor de Chingueti

Uma das medidas buscadas na região é o plantio de árvores para formar cinturões verdes no entorno da cidade.

A iniciativa aparece tanto em ações locais quanto em projetos ligados à proposta da Grande Muralha Verde africana.

O objetivo é recuperar parte da cobertura vegetal para reduzir a movimentação da areia e proteger áreas urbanas e acervos documentais.

Assista o vídeo
https://www.youtube.com/watch?v=a80vn1_6BwA

Até o momento, porém, os resultados relatados são limitados.

A Associated Press informou que, mesmo com replantios, ainda há poucos sinais de interrupção do avanço das dunas.

Espécies adaptadas a esse tipo de terreno podem levar anos para desenvolver raízes profundas o suficiente para acessar água subterrânea.

Enquanto isso, o controle do soterramento continua sendo feito de forma manual em diferentes pontos da cidade.

Patrimônio da UNESCO sob risco no Saara

O caso de Chingueti ajuda a dimensionar a pressão enfrentada por cidades históricas localizadas em regiões áridas.

A UNESCO reconhece o conjunto dos antigos ksour mauritanos como testemunho de uma forma de ocupação ligada às rotas transaarianas e à difusão da cultura islâmica.

Nesse contexto, a preservação do local envolve não apenas a manutenção de edificações antigas, mas também a proteção de vestígios de uma rede histórica de comércio, fé e produção de conhecimento.

Atualmente, Chingueti segue habitada, as bibliotecas continuam preservando manuscritos e moradores ainda retiram areia das portas com frequência.

Ao mesmo tempo, o ambiente impõe dificuldades contínuas à conservação da cidade histórica e de seus acervos.

O avanço das dunas, somado à pressão climática e às limitações locais de preservação, mantém sob risco um dos mais conhecidos centros históricos do deserto.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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