A Austrália está erguendo do zero, no meio de uma área pouco povoada a oeste de Sydney, um aeroporto internacional inteiro, com a aposta ousada de que uma cidade nova, com metrô, ferrovia e bairros planejados, vai nascer e crescer ao redor dele: é urbanismo ao contrário, em que primeiro se constrói o grande equipamento e depois se espera a cidade aparecer.
A maioria dos aeroportos nasce para servir uma cidade que já existe. O Western Sydney International, batizado em homenagem à aviadora Nancy-Bird Walton, faz o caminho inverso: ele está sendo construído numa região de campos e poucas casas, com a ideia de que ele próprio seja o motor de uma cidade futura. É uma das maiores obras de infraestrutura da história da Austrália.
A lógica por trás disso tem nome: aerotrópole, a cidade organizada em torno de um aeroporto, como um coração que bombeia gente, carga e negócios. Sydney, sufocada por um aeroporto antigo e sem espaço para crescer, decidiu apostar que o oeste da região metropolitana, mais barato e com terra de sobra, é o lugar para construir o futuro.

Uma obra de proporções gigantescas
Os números impressionam. A obra movimentou milhões de metros cúbicos de terra para nivelar o terreno, ergueu uma pista capaz de receber os maiores aviões do mundo e construiu um terminal moderno do zero. Empresas de engenharia de peso, como a americana Bechtel, tocaram o projeto, que emprega milhares de trabalhadores e deve entrar em operação ainda em 2026.
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Mas o aeroporto é só o começo. Junto com ele, a Austrália está construindo uma nova linha de metrô para ligar o terminal ao resto de Sydney, além de estradas e da infraestrutura básica de uma futura cidade. A ideia é que viajar, morar e trabalhar ali seja prático desde o primeiro dia, para atrair empresas e moradores.
É uma aposta de longuíssimo prazo, do tipo que poucos países têm coragem de fazer.
A cidade que vai nascer do nada
O plano prevê que, ao redor do aeroporto, surja a chamada Bradfield, uma cidade inteiramente nova, planejada para abrigar centros de tecnologia, indústria, moradia e serviços. Em vez de deixar o crescimento acontecer de forma desordenada, como em tantas metrópoles, os australianos querem desenhar tudo do zero, com transporte público, áreas verdes e bairros pensados desde a prancheta.

A aposta é que o aeroporto funcione como um ímã econômico. Onde há voos internacionais, carga e conexões, costumam aparecer centros de distribuição, fábricas, hotéis e escritórios. Se der certo, o oeste de Sydney deixa de ser periferia esquecida para virar um polo econômico de primeira grandeza, aliviando a pressão sobre o centro tradicional.
Há riscos, claro. Construir uma cidade do zero é caro e incerto, e nem sempre as pessoas aparecem como o planejamento previa. O mundo tem exemplos de cidades planejadas que demoraram décadas para vingar, ou que nunca encheram. Apostar tanto dinheiro numa promessa de futuro exige fôlego e paciência.
Bilhões em jogo e milhares de empregos
O custo da empreitada é colossal, na casa de dezenas de bilhões somando aeroporto, metrô, estradas e a futura cidade. Mas o governo australiano aposta que o retorno econômico compensa: a obra já gera milhares de empregos na construção e deve criar dezenas de milhares quando o aeroporto e o polo ao redor estiverem em pleno funcionamento, com hotéis, galpões e fábricas.
A escolha de mirar o oeste de Sydney também tem lógica social. É uma região com população crescente, mas historicamente carente de empregos de qualidade perto de casa, o que obriga muita gente a longas viagens diárias até o centro. Levar um polo econômico para perto desses moradores pode reduzir o trânsito e espalhar melhor a riqueza pela metrópole, em vez de concentrá-la num único centro saturado.
Um modelo para o mundo
O experimento australiano é observado de perto por urbanistas do mundo todo. Num planeta cada vez mais urbano, em que as grandes cidades incham e sufocam, a ideia de planejar um novo polo a partir de um aeroporto pode virar modelo, ou servir de alerta, dependendo do resultado. É um laboratório urbano em escala real.
Para o Brasil, que conhece bem a experiência de uma capital planejada como Brasília, o caso desperta comparações. Construir cidades do zero é parte da nossa história, com acertos e erros, e ver a Austrália tentar algo parecido em pleno século 21, agora em torno de um aeroporto, é um espelho interessante sobre os limites e as possibilidades do planejamento urbano.

Por enquanto, o que se vê é um aeroporto tomando forma no meio do nada, com a aposta bilionária de que ali, em poucos anos, haverá uma cidade pulsando. É a infraestrutura tentando criar a demanda, e não o contrário, num dos experimentos urbanos mais audaciosos em andamento no mundo.
Vale acompanhar os próximos anos com atenção. O verdadeiro teste não é inaugurar o aeroporto, e sim ver se a cidade prometida realmente nasce ao redor dele, com gente morando, empresas se instalando e o polo econômico ganhando vida. É aí que se saberá se a aposta de construir a infraestrutura antes da demanda foi visão de futuro ou otimismo caro demais.
Se a aposta vingar, a Austrália terá mostrado um caminho para crescer de forma planejada. Se falhar, terá deixado uma lição cara sobre os limites de tentar adivinhar o futuro das cidades.
Construir um aeroporto gigante para só depois criar a cidade ao redor é visão de futuro ou aposta arriscada demais?
