Em Thorne, na Inglaterra, o casal Gwyn ap Harri e Kate comprou um cinema dos anos 1920 abandonado por 90 mil libras e gastou 450 mil para virar a antiga sala de projeção em casa. A plateia deu lugar a um jardim, conectado à sala por uma janela hidráulica de cerca de 4 metros.
Poucos olhariam para um cinema abandonado e enxergariam ali um lar. Foi o que fez um casal inglês ao comprar o velho cinema da cidade de Thorne, no norte da Inglaterra, por 90 mil libras e transformá-lo em uma casa moderna para a família. A história ficou famosa no programa de arquitetura Grand Designs e foi detalhada pela Grand Designs Magazine.
O projeto foi tão ousado quanto o ponto de partida. Da estrutura original dos anos 1920, o casal manteve apenas a fachada e reconstruiu todo o interior em concreto, numa reforma que custou 450 mil libras, bem acima do previsto. O resultado é uma casa que quase ninguém imagina existir atrás de uma antiga marquise de cinema.
Os dois detalhes mais impressionantes resumem a audácia da obra. A plateia onde antes ficavam as poltronas virou um amplo jardim, e a sala de estar se abre para esse quintal por uma janela hidráulica de cerca de 4 metros de altura, que funciona como uma porta de hangar. É uma moradia improvável que nasceu de um prédio condenado ao esquecimento.
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Como o casal achou o cinema abandonado em Thorne
A descoberta começou em casa, na cidade natal do casal. O empreendedor Gwyn ap Harri e a esposa, Kate, procuravam um imóvel maior em Thorne, em South Yorkshire, na Inglaterra, e queriam principalmente um quintal espaçoso e um espaço de convivência aberto. Em vez de uma casa comum, repararam que o velho cinema da cidade tinha um potencial enorme.
O prédio carregava história e abandono em partes iguais. Tratava-se do antigo Kensington Palace Cinema, que vivera seu auge nos anos 1920 e depois caíra no esquecimento, como tantas salas de bairro pela Inglaterra. Comprá-lo significava, ao mesmo tempo, salvar um marco local e resolver o desejo da família por mais espaço.
A negociação resultou em um preço de oportunidade. Segundo a Grand Designs Magazine, o casal arrematou o cinema por apenas 90 mil libras, em fevereiro de 2011. Para um imóvel daquele tamanho, era um valor baixo, justamente porque o prédio estava degradado e exigiria uma intervenção pesada para virar qualquer coisa habitável.
A motivação ia além do dinheiro. De acordo com o jornal YorkshireLive, a ideia de transformar o velho cinema em casa também tinha o sabor de resgatar um pedaço da memória da cidade e oferecer aos filhos um quintal grande, algo difícil de achar em imóveis tradicionais. O risco, porém, era proporcional à ambição.
De cinema dos anos 1920 a casa moderna

A primeira grande decisão foi sobre o que preservar. O casal contratou o designer Jeremy Southgate, um velho amigo de escola de Gwyn, baseado em Londres, para conduzir o projeto. A proposta dele era radical: manter apenas a fachada original dos anos 1920 e demolir e reconstruir todo o interior do cinema.
O conceito apostava em um visual minimalista e contemporâneo. Southgate idealizou uma casa de linhas modernas, dominada pelo concreto aparente, em forte contraste com a fachada antiga preservada na frente. Por fora, o prédio ainda lembra o velho cinema; por dentro, é uma construção totalmente nova e cheia de personalidade.
Esse tipo de aposta divide opiniões, mas tem lógica. Aproveitar a fachada histórica mantém a identidade do imóvel e a ligação com a rua, enquanto o miolo reconstruído permite criar exatamente os ambientes que a família queria. A reforma, nesse sentido, foi quase uma cirurgia: conservar a casca e refazer o coração do edifício.
O antigo saguão ganhou nova função logo na entrada. O foyer, por onde o público comprava ingresso e entrava para as sessões, virou um hall amplo que distribui a circulação para a cozinha, a sala de jantar e a sala de estar. Cada espaço que um dia serviu ao cinema foi reinterpretado para a vida doméstica.
A plateia que virou jardim

O coração do projeto está onde antes ficava o público. A área da plateia, com suas fileiras de poltronas voltadas para a tela, foi completamente esvaziada e transformada no quintal da casa. Onde a cidade um dia assistiu a filmes, hoje a família de Gwyn e Kate cultiva um jardim ao ar livre.
A escolha resolveu o principal desejo do casal. Era justamente o quintal espaçoso que faltava nos imóveis comuns de Thorne, e a generosa área da antiga plateia ofereceu esse espaço de sobra. O vazio deixado pela demolição das arquibancadas internas se converteu em um amplo terreno verde, raro em casas urbanas.
Há também uma simbologia bonita nessa virada. O lugar feito para reunir pessoas no escuro, diante de uma tela, passou a ser um espaço aberto, iluminado pelo sol, voltado para a convivência da família. O cinema não desapareceu: ele se transformou em outro tipo de ponto de encontro, agora privado e ao ar livre.
Esse aproveitamento do espaço é o que dá sentido à obra. Em vez de espremer um quintal pequeno em algum canto, o projeto usou a própria lógica do prédio, a enorme caixa da sala de cinema, para criar o jardim. A casa, assim, herdou as proporções generosas que só um antigo cinema poderia oferecer.
A janela de 4 metros que abre a sala

O elo entre a casa e o jardim é a estrela da reforma. A sala de estar se conecta ao antigo espaço da plateia por uma imensa janela de vidro hidráulica, de cerca de 4 metros de altura, que a própria publicação compara a uma porta de hangar de avião. Ao ser acionada, ela apaga a fronteira entre dentro e fora.
O efeito é tão prático quanto impressionante. Segundo a Grand Designs Magazine, a janela é aberta na maioria dos dias, integrando totalmente a sala ao jardim e criando um único grande ambiente de convivência. Em vez de uma parede com uma janela comum, a família ganha uma fachada interna que some quando quer.
Esse tipo de solução é uma marca da arquitetura contemporânea. Grandes panos de vidro móveis borram os limites entre a casa e a área externa, trazem luz natural para o interior e dão sensação de amplitude. No caso do antigo cinema, a janela gigante ainda dialoga com a escala monumental que o prédio sempre teve.
Não por acaso, é esse detalhe que mais marca quem conhece a casa. Uma janela de 4 metros que se move como uma porta de hangar é o tipo de elemento que transforma uma boa reforma em um projeto memorável. Ele traduz, em uma única peça, toda a ambição de converter um cinema em moradia.
Quanto custou a reforma e os perrengues do projeto
O orçamento foi o grande vilão da empreitada. A compra do cinema saiu barata, por 90 mil libras, mas a reforma consumiu 450 mil libras, cerca de 100 mil acima do previsto inicialmente. Transformar uma ruína em casa moderna quase sempre custa mais do que o planejado, e ali não foi diferente.
A burocracia também cobrou seu preço em tempo. Conseguir a autorização para as obras levou cerca de oito meses, em vez das oito semanas que o casal esperava. Esse tipo de atraso, comum em prédios antigos e marcos locais, pressiona o cronograma e costuma empurrar os custos para cima.
Reformas desse porte exigem fôlego financeiro e emocional. Quem compra um imóvel degradado para reconstruir precisa estar preparado para surpresas estruturais, mudanças de projeto e gastos extras que aparecem no caminho. A história do cinema de Thorne é, nesse aspecto, um retrato realista do que envolve uma grande reconversão.
Ainda assim, o investimento criou algo difícil de comparar. Por um total de 540 mil libras somando compra e obra, o casal não ganhou apenas uma casa, mas um imóvel único, com história, escala incomum e soluções que dificilmente existiriam em uma construção convencional. O resultado ajuda a entender por que tanta gente se arrisca nesse tipo de projeto.
O que o Grand Designs e Kevin McCloud disseram
A ousadia do casal chamou a atenção da televisão britânica. O projeto foi acompanhado pelo programa Grand Designs, do canal britânico Channel 4, referência mundial em arquitetura e reformas ambiciosas, em episódio exibido em 2013. A presença das câmeras transformou a obra de Thorne em um caso conhecido muito além da cidade.
O apresentador resumiu bem o tamanho do risco. Kevin McCloud, rosto do Grand Designs, descreveu o casal como “notavelmente corajoso” por confiar na visão radical do designer e apostar em manter só a fachada do velho cinema. A frase captura o nervosismo de quem aposta alto em um imóvel cheio de incógnitas.
A estética escolhida tem inspirações claras. O interior em concreto aparente, com marcas das fôrmas de madeira na superfície, foi comparado ao visual brutalista do National Theatre, em Londres. Até o antigo piso de terrazzo do cinema foi substituído por um revestimento de agregados, reforçando o caráter cru e moderno da casa.
Esse acompanhamento ajuda a explicar a fama do projeto. Ao mostrar passo a passo as dificuldades e as escolhas de design, o Grand Designs transforma reformas como a do cinema de Thorne em referência para quem sonha em fazer algo parecido. A casa virou um exemplo citado sempre que o assunto é reconversão ousada de prédios antigos.
Por que transformar prédios antigos em casa virou tendência?
O caso de Thorne não é um ponto fora da curva. Pelo mundo, cresce o número de pessoas que compram prédios sem uso, como igrejas, escolas, bancos, torres de água e até subestações de energia, para transformá-los em moradia. Esse movimento tem nome técnico: reúso adaptativo, ou retrofit, a arte de dar nova função a uma construção antiga.
As razões para isso são práticas e afetivas. Imóveis assim costumam ter localização boa, estruturas robustas e uma personalidade que construções novas dificilmente alcançam, com pés-direitos altos, grandes vãos e detalhes históricos. Para muita gente, morar em um antigo cinema ou em uma velha fábrica é também morar dentro de uma história.
Há ainda um argumento ambiental cada vez mais forte. Reaproveitar um prédio existente evita a demolição e o desperdício de toneladas de material, além de poupar boa parte das emissões ligadas a uma construção do zero. Em tempos de preocupação com sustentabilidade, reformar o que já existe virou uma escolha responsável, e não só estética.
Vários desses projetos viraram clássicos da arquitetura mundial. Na Inglaterra, é comum encontrar antigas capelas, estações de trem desativadas e torres de água convertidas em residências de alto padrão, algumas premiadas por seu design. Mundo afora, há bancos que viraram restaurantes, igrejas transformadas em livrarias e galpões industriais que abrigam lofts disputadíssimos. O antigo cinema de Thorne se junta a essa lista de construções que ganharam vida nova em vez de virar entulho, provando que quase qualquer prédio pode ser repensado.
O desafio, claro, está nos custos e nas surpresas. Como mostra a reforma do cinema, transformar uma ruína em lar exige dinheiro, paciência e bons profissionais, porque sempre aparecem problemas escondidos. Quando dá certo, porém, o resultado é uma casa que nenhuma outra no quarteirão consegue copiar.
O que isso tem a ver com o Brasil
O Brasil conhece bem o drama dos cinemas que fecharam. Entre as décadas de 1970 e 2000, milhares de salas de rua encerraram as atividades no país, vencidas pela concorrência da televisão, do vídeo e dos shoppings. Muitos desses prédios, antes orgulho das cidades, ficaram vazios ou foram adaptados às pressas para outros usos.
O destino dessas salas costuma ser bem brasileiro. Pelo país, antigos cinemas viraram igrejas, lojas, estacionamentos, academias e até templos evangélicos, em reformas que nem sempre preservam a memória do lugar. A história de Thorne mostra um caminho diferente: transformar a sala em casa mantendo, ao menos, a fachada e a identidade do edifício.
Existem bons exemplos de reconversão por aqui. Em várias cidades, casarões, fábricas e cineteatros históricos foram recuperados e transformados em centros culturais, restaurantes, hotéis e residências, num movimento de retrofit que ganha força nas grandes capitais. O reaproveitamento do patrimônio antigo é uma tendência também no Brasil urbano.
O tema entra no debate sobre o futuro das cidades. Com tantos imóveis ociosos nos centros urbanos, cresce a discussão sobre transformar prédios vazios em habitação, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde antigos edifícios já foram convertidos em apartamentos. Nesse cenário, o caso inglês do cinema vira um lembrete concreto de que estruturas esquecidas podem voltar a abrigar gente, em vez de apenas acumular poeira no meio da cidade.
Para o brasileiro, a lição é dupla. De um lado, o caso inspira a olhar com outros olhos para prédios abandonados, que podem virar moradia, cultura ou negócio em vez de pó. De outro, lembra a importância de preservar a memória das cidades, encontrando para esses imóveis um novo uso digno, como fez o casal que mora hoje dentro de um antigo cinema.
E você, moraria dentro de um antigo cinema?
A história do casal de Thorne mostra que um prédio condenado pode renascer como lar. Por 90 mil libras na compra e 450 mil na reforma, Gwyn e Kate transformaram um cinema dos anos 1920 em uma casa de concreto onde a plateia virou jardim e uma janela de 4 metros abre a sala para o quintal. Uma moradia improvável que virou referência de arquitetura.
E você, teria coragem de morar dentro de um antigo cinema ou de outro prédio com história? Conta aqui nos comentários o que achou dessa transformação e que tipo de construção abandonada você gostaria de ver virando uma casa por aí.
