Estruturas subterrâneas gigantes, abertas por animais da megafauna extinta, atravessam diferentes regiões do país, permanecem ocultas sob o solo e revelam pistas raras sobre a pré-história brasileira, enquanto cientistas ainda buscam compreender sua origem, suas funções e os desafios para preservar esses túneis milenares.
Espalhados por áreas rurais, encostas de morros e terrenos aparentemente comuns, túneis subterrâneos com metros de altura vêm sendo identificados em diferentes regiões do Brasil.
Escavadas por animais da megafauna hoje extinta, essas estruturas continuam a desafiar pesquisadores, tanto pela escala quanto pelas dúvidas sobre como foram abertas, por que existiram e de que forma devem ser protegidas.
Chamadas de paleotocas, elas se concentram principalmente no Sul e no Sudeste e já somam mais de 1,5 mil registros documentados ao longo das últimas décadas.
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Em muitos casos, as passagens passam despercebidas, ocultas pela vegetação densa ou pelo relevo irregular.
Quando surgem, porém, chamam atenção pelo tamanho e pelas marcas profundas nas paredes, compatíveis com o uso de garras, e não com ferramentas humanas.
À medida que novos achados se repetiram em estados como Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rondônia, o interesse científico cresceu e passou a ganhar maior visibilidade.
O que são as paleotocas e por que elas intrigam pesquisadores
Do ponto de vista científico, paleotocas são cavidades interpretadas como túneis ou câmaras escavadas na rocha por animais pré-históricos de grande porte.
Diferentemente de vazios formados pela ação da água ou por processos geológicos naturais, muitos desses corredores apresentam sulcos longos, paralelos e profundos, compatíveis com arranhões repetidos.
Esses vestígios reforçam a hipótese de escavação biológica e afastam a possibilidade de origem puramente natural.
Mais do que identificar o autor das escavações, os estudos tentam explicar como foi possível abrir estruturas tão amplas e duráveis.
Em alguns pontos, os corredores permitem que um adulto caminhe sem se curvar. Em outros, surgem ramificações e câmaras alargadas, sugerindo um uso prolongado ou múltiplas funções ao longo do tempo.
Descoberta acidental revelou túneis sob áreas habitadas

Boa parte das paleotocas conhecidas veio à tona de forma inesperada, após desabamentos ou aberturas repentinas no solo.
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 2009, quando um agricultor trabalhava em uma lavoura e o trator afundou ao romper o teto de uma cavidade subterrânea.
Ao investigar o local, ele encontrou um túnel que seguia sob a própria casa.
A estrutura apresentava cerca de dois metros de altura, largura semelhante e mais de dez metros de extensão.
No interior da cavidade, pesquisadores identificaram marcas profundas nas paredes. O padrão observado indicava que o espaço não havia sido aberto por máquinas modernas nem por escavações humanas antigas.
A partir da análise geológica, os estudos passaram a atribuir o túnel a animais extintos, como preguiças-gigantes ou tatus-gigantes, que habitaram a região há pelo menos 10 mil anos.
Animais gigantes são os principais suspeitos das escavações
As principais hipóteses apontam para preguiças-gigantes terrestres e grandes tatus pré-históricos.
Esses animais tinham proporções muito diferentes das espécies atuais.
Descritas por pesquisadores como “hamsters do tamanho de elefantes”, algumas preguiças-gigantes podiam alcançar até quatro metros de comprimento.
Enquanto certas espécies se locomoviam sobre quatro patas, outras conseguiam se erguer parcialmente como bípedes.
Já os tatus-gigantes, com porte comparável ao de automóveis, teriam força suficiente para abrir corredores extensos e manter passagens altas.
Apesar dessas evidências, a identificação definitiva de qual espécie escavou cada estrutura ainda não foi estabelecida.
Onde estão as maiores paleotocas já mapeadas no país
Os registros mais numerosos se concentram nas regiões Sul e Sudeste. Santa Catarina e Rio Grande do Sul reúnem a maior parte das estruturas já catalogadas.
Ainda assim, há ocorrências relevantes em Minas Gerais e em Rondônia.

Em território mineiro, pesquisadores identificaram um conjunto formado por seis túneis que chegam a 40 metros de extensão e conduzem a câmaras com cerca de 10 metros de largura e quatro metros de altura.
Na Serra do Gandarela, região de Caeté, está localizada a maior paleotoca já registrada no estado.
O túnel possui 340 metros de comprimento e passou a integrar disputas judiciais por envolver uma área de interesse ambiental e econômico.
Proteção judicial e disputas em torno da preservação
A necessidade de preservar essas estruturas levou o tema ao Judiciário em Minas Gerais. Em junho de 2023, uma decisão determinou medidas de proteção para a paleotoca da Serra do Gandarela.
O reconhecimento do valor cultural e científico da cavidade reforçou a urgência de evitar danos irreversíveis.
Com o avanço do debate, órgãos federais também passaram a acompanhar o caso.
O Ministério Público Federal cobrou providências do Iphan para garantir a preservação da área diante de riscos associados à atividade minerária.
Marcas nas paredes funcionam como registros do passado
Grande parte do interesse científico está concentrada nas marcas deixadas nas paredes das paleotocas.
Essas ranhuras ajudam a indicar direção do movimento, tipo de garra e intensidade da força aplicada durante a escavação.
“Você encontra um livro aberto. Você observa, você sente que isso não foi feito por seres humanos”, afirmou o geólogo Heinrich Theodor Frank.
Para aprofundar a análise, pesquisadores passaram a utilizar técnicas de documentação mais precisas.
Luiz Carlos Weinschutz desenvolve trabalhos de mapeamento em 3D para identificar padrões de escavação e buscar vestígios que ajudem a confirmar as espécies envolvidas.
“Este estudo ainda é novo, temos anos e anos de pesquisa à nossa frente nesta área”, disse ele.
Para que serviam os túneis ainda não tem resposta definitiva
Mesmo com a atribuição mais provável a animais extintos, o uso das paleotocas permanece em debate.
Entre as hipóteses discutidas estão abrigo para filhotes, proteção contra predadores e regulação da temperatura corporal.
Em alguns contextos, considera-se também o uso durante períodos de repouso prolongado. A principal dificuldade está na escassez de material orgânico preservado.

Sem ossos, pelos fossilizados ou outros vestígios biológicos, as análises dependem sobretudo das marcas e do contexto geológico.
Presença humana e impactos ao longo do tempo
Durante muito tempo, moradores e até pesquisadores acreditaram que algumas dessas passagens fossem obras humanas antigas.
Em certos locais, há registro de arte rupestre associada às paleotocas.
Quando os desenhos estão gravados diretamente na rocha, a datação se torna especialmente complexa.
Relatos orais indicam que povos indígenas já conheciam esses túneis antes da ciência moderna. Algumas narrativas os relacionam a enchentes e a passagens subterrâneas.
Por outro lado, crenças sobre tesouros escondidos atraíram curiosos e caçadores. Escavações desordenadas acabaram comprometendo o solo e possíveis evidências arqueológicas.
Outras descobertas reforçam riqueza pré-histórica do Brasil
As paleotocas integram um conjunto mais amplo de achados que ajudam a reconstruir a pré-história brasileira.
No interior de São Paulo, pesquisadores identificaram ovos fossilizados de dinossauros carnívoros, com idade estimada entre 60 e 80 milhões de anos.
O material pode indicar a preservação de estruturas embrionárias.
Também em território paulista, estudos revelaram fósseis de crocodilos pré-históricos, ampliando o conhecimento sobre predadores que viveram na região.
Com túneis gigantes ainda sem explicação definitiva e novas estruturas surgindo em áreas ameaçadas por obras e mineração, o que falta para que essas marcas da pré-história sejam tratadas como patrimônio científico prioritário no Brasil?

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