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Na borda do Saara, moradores do Chade fincam muralhas de palha no deserto para tentar conter dunas móveis que já avançam sobre os últimos oásis, reduzem áreas férteis e empurram centenas de famílias para longe da terra onde sempre viveram

Escrito por Ana Alice
Publicado em 18/04/2026 às 22:50
Atualizado em 18/04/2026 às 22:52
Dunas avançam sobre os últimos oásis na borda do Saara e revelam como clima, água e desertificação ameaçam áreas vitais no Chade. (Imagem: Ilustrativa)
Dunas avançam sobre os últimos oásis na borda do Saara e revelam como clima, água e desertificação ameaçam áreas vitais no Chade. (Imagem: Ilustrativa)
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Entre palmeiras, hortas e areia em movimento, o avanço das dunas sobre os oásis do Chade revela como clima, água e trabalho se cruzam em uma das áreas mais frágeis da borda do Saara.

No oeste do Chade, o avanço de dunas móveis sobre oásis no oeste do Chade já afeta áreas férteis, pressiona a agricultura e ameaça a permanência de famílias que dependem da água subterrânea para viver na borda do Saara.

Em Kaou, na província de Kanem, a paisagem reúne areia, palmeiras e hortas em um trecho de vegetação que resiste em meio ao deserto.

É nesse espaço estreito, sustentado por reservas de água no subsolo, que centenas de famílias mantêm plantações, colhem tâmaras e tentam preservar uma forma de vida que há muito depende da existência do oásis.

Oásis no Saara sustentam água, cultivo e permanência humana

O funcionamento de um oásis depende da presença de água em uma região onde a chuva é escassa e o calor limita a produção agrícola.

Quando essa água chega à superfície ou alimenta áreas mais baixas do terreno, a vegetação consegue se manter e cria condições para o cultivo e para a presença humana.

No caso de Kaou, segundo o The Guardian, o oásis segue como base de sobrevivência para mais de 500 famílias.

Cerca de 100 agricultores dependem diretamente da área para plantar alimentos e colher frutos das palmeiras remanescentes.

Esse equilíbrio, porém, se tornou mais frágil com o avanço da areia e com a perda gradual de cobertura vegetal.

Sem árvores, sombra e umidade, o solo fica mais exposto ao vento e as dunas avançam com menos barreiras naturais.

Oásis no deserto do Saara, Chade - Imagem: Reprodução
Oásis no deserto do Saara, Chade – Imagem: Reprodução

Em Kaou, a faixa verde encolhe à medida que a areia se aproxima

O chefe local Mahamat Souleymane Issa, de 51 anos, relatou ao The Guardian que o wadi, vale que organiza a vida agrícola na região, era muito maior quando ele era criança.

Segundo ele, a área tinha mais árvores, mais pasto e maior presença de rebanhos nas aldeias do entorno.

Hoje, a faixa cultivável é menor e a vegetação aparece comprimida entre as dunas.

Ao jornal britânico, ele resumiu essa dependência em uma frase direta: “Sem este wadi, não podemos viver.”

A declaração sintetiza o peso que esse espaço ainda tem para a comunidade.

Em regiões áridas como essa, a perda de um oásis não representa apenas queda na produção agrícola.

Ela atinge também a permanência das famílias, a oferta de água e a própria possibilidade de continuar vivendo no território.

Moradores erguem barreiras de palha para tentar frear as dunas

Para tentar conter o avanço da areia, moradores de Kaou montam barreiras com folhas e talos de palmeira fincados no solo.

Segundo o The Guardian, a comunidade recebeu apoio da ONG SOS Sahel para instalar um sistema de irrigação movido a energia solar, receber sementes, ampliar o uso da água subterrânea e construir estruturas de contenção nas áreas mais vulneráveis.

A proposta era reduzir o deslocamento da areia e dar mais estabilidade ao cultivo.

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Ainda assim, as barreiras exigem manutenção frequente e precisam ser refeitas após ventos mais fortes.

Em um dos relatos reunidos pelo jornal, Hereta Abakar Issa, agricultora e mãe de sete filhos, contou ter começado a plantar vegetais que a família não consumia antes, como quiabo e tomate fresco.

Ela também participou dos mutirões para reconstruir cercas derrubadas pelo vento.

Nessas áreas, a contenção depende de trabalho constante e de materiais simples, usados para tentar proteger a parte produtiva do oásis.

Desertificação e calor agravam a pressão sobre áreas férteis

O que ocorre em Kaou se insere em um contexto mais amplo de desertificação e pressão climática no Chade.

Grande parte do território do país é formada por áreas áridas ou desérticas, e a combinação entre calor, escassez de água, perda de vegetação e degradação do solo torna o cultivo mais instável.

Nesse cenário, os oásis funcionam como pontos de apoio em um ambiente marcado pela limitação de recursos.

Quando a areia avança sobre essas áreas, o impacto não se restringe à paisagem.

A mudança interfere no uso da terra, reduz áreas agrícolas e altera a rotina das comunidades que dependem diretamente desses espaços.

Em Kaou, os moradores já associam o encolhimento do oásis à dificuldade crescente de permanecer na região.

Vila na região de Kanem, Bahr el Ghazal, Chade - Imagem: Reprodução
Vila na região de Kanem, Bahr el Ghazal, Chade – Imagem: Reprodução

Falta de trabalho e avanço da areia empurram jovens para o garimpo

A pressão sobre os oásis também se reflete no mercado de trabalho local.

De acordo com os relatos publicados pelo The Guardian, muitos jovens deixam a região todos os anos e seguem para os garimpos de ouro do Tibesti, no norte do Chade, em busca de renda.

Moradores associam esse movimento à escassez de oportunidades ligadas ao wadi e ao agravamento das condições de vida no deserto.

Souleymane Issa afirmou ao jornal que seu próprio filho fez esse trajeto.

Segundo ele, alguns retornam debilitados, depois de enfrentar condições duras de trabalho e permanência nas áreas de mineração.

A saída desses trabalhadores altera a dinâmica das aldeias e mostra como a perda de capacidade produtiva do oásis afeta também a renda e a permanência da população.

Barkadroussou mostra como projetos contínuos podem ampliar a resistência local

A mesma reportagem do The Guardian apresenta um contraste na região de Barkadroussou, outro oásis da área.

Ali, um projeto iniciado pela SOS Sahel em 2014 ainda aparece como exemplo de ação com efeitos mais duradouros.

Segundo o jornal, uma bomba solar continua apoiando centenas de agricultores e milhares de moradores de forma indireta.

No local, plantações de cebola, alface, beterraba e milheto convivem com palmeiras, bananeiras e um lago no centro da área verde.

O caso é citado como exemplo de como a continuidade do apoio técnico e da infraestrutura pode ampliar a capacidade de resistência em regiões áridas.

A comparação entre Barkadroussou e Kaou evidencia que a água, sozinha, não garante a sobrevivência de um oásis.

A estabilidade dessas áreas depende também de contenção da areia, preservação da vegetação, manutenção da produção agrícola e oferta de trabalho para a população local.

A permanência das famílias depende de solo, água e trabalho

Em Kaou, o avanço das dunas já interfere na relação entre terra produtiva e permanência humana.

A comunidade tenta preservar o que resta do oásis com trabalho manual, irrigação e barreiras feitas com palha e folhas de palmeira.

Mas a continuidade dessas ações depende de apoio técnico, recursos e manutenção regular.

Em áreas como essa, a sobrevivência do oásis está ligada a vários fatores ao mesmo tempo.

Água subterrânea, vegetação, solo produtivo e renda precisam continuar funcionando em conjunto para que a população permaneça no território.

Quando uma dessas bases enfraquece, a pressão sobre as famílias aumenta.

Quando várias se deterioram ao mesmo tempo, a permanência deixa de ser garantida.

No oeste do Chade, essa disputa já é visível na paisagem.

De um lado, seguem as hortas, as palmeiras e a água que ainda sustentam a vida.

Do outro, as dunas continuam avançando sobre um espaço cada vez menor.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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