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Nova bactéria descoberta por pesquisadores brasileiros pode reduzir uso de agrotóxicos e fortalecer a agricultura familiar no Brasil

Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 02/02/2026 às 08:42
Fotos de Kelly Saraiva e ASCOM Uemasul.
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Pesquisa no Maranhão identifica bactéria capaz de reduzir o uso de agrotóxicos, diminuir custos e fortalecer a agricultura familiar em regiões pressionadas pelo agronegócio.

Produzir alimentos sem comprometer a saúde das pessoas nem o equilíbrio ambiental ainda é um dos maiores desafios da agricultura brasileira. Em regiões onde o uso de agrotóxicos se intensificou nos últimos anos, como o Maranhão, uma descoberta científica pode representar um ponto de virada.

Pesquisadores da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL) identificaram uma bactéria capaz de reduzir a dependência de fertilizantes químicos e venenos agrícolas, oferecendo uma alternativa especialmente promissora para a agricultura familiar.

O estudo foi conduzido no contexto do MATOPIBA — área que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — conhecida pela rápida expansão do agronegócio.

Embora essa fronteira agrícola concentre grandes investimentos, ela também acumula relatos frequentes de contaminação ambiental e humana por agrotóxicos, o que torna a pesquisa ainda mais relevante.

Números revelam a urgência de alternativas aos agrotóxicos

O avanço do uso de agrotóxicos no Maranhão tem deixado marcas cada vez mais visíveis. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que, entre os 182 registros de contaminação por esses produtos no Brasil durante o primeiro semestre de 2024, 156 ocorreram no estado.

O salto é expressivo quando comparado ao mesmo período de 2023, com um crescimento de quase dez vezes.

Esse cenário ajuda a entender por que pesquisadores, agricultores e comunidades locais passaram a buscar soluções capazes de reduzir a dependência de insumos químicos, especialmente em regiões onde a pressão do agronegócio se intensificou nos últimos anos.

Bactérias para reduzir uso de agrotóxicos: Uma descoberta que surgiu fora do roteiro original

Embora o debate sobre agrotóxicos esteja no centro da pesquisa, a bactéria não foi identificada em um estudo inicialmente voltado para esse objetivo.

A descoberta aconteceu durante experimentos com biofertilizantes orgânicos utilizados na produção de palmeiras destinadas ao sequestro de carbono.

Foi nesse contexto que os pesquisadores observaram a atuação de um microrganismo até então desconhecido.

Após uma sequência de análises microbiológicas, agronômicas e genéticas, a equipe confirmou que se tratava de uma bactéria não patogênica, sem risco à saúde humana ou animal.

A nova cepa recebeu o nome de Mycobacterium Agroflorensis.

Funcionamento natural e impacto direto no solo

Ao contrário dos fertilizantes químicos convencionais, a Mycobacterium Agroflorensis atua respeitando os processos naturais do solo.

Sua principal função é facilitar a disponibilidade de nutrientes essenciais ao desenvolvimento vegetal, como nitrogênio, fósforo, potássio, ferro e vitaminas.

Testes realizados em vasos, estufas agrícolas monitoradas por sensores e simulações ambientais indicaram ganhos significativos.

Entre os resultados observados estão o aumento da clorofila, maior retenção de água no solo, crescimento mais equilibrado das plantas e ampliação da capacidade de sequestro de carbono.

Segundo o professor de Ciências Biológicas e coordenador da pesquisa, Zilmar Timóteo Soares, os dados apontam para uma possível mudança no modelo de manejo agrícola.

“A germinação com fertilizante químico é mais rápida, mas o crescimento com a microbactéria é mais saudável.

A planta cresce mais, fica mais verde, consome menos água e não carrega resíduos químicos”, explica.

Pesquisa no Maranhão identifica bactéria capaz de reduzir o uso de agrotóxicos, diminuir custos e fortalecer a agricultura familiar em regiões pressionadas pelo agronegócio.
Pesquisa no Maranhão identifica bactéria capaz de reduzir o uso de agrotóxicos, diminuir custos e fortalecer a agricultura familiar em regiões pressionadas pelo agronegócio. Fotos de Kelly Saraiva e ASCOM Uemasul.

Ganhos vão além da produtividade

Os testes também envolveram culturas comuns à agricultura familiar, como mamão, mandioca, feijão e milho.

Além do aumento da produção, os pesquisadores identificaram melhorias na qualidade nutricional dos alimentos colhidos.

Para Zilmar, essa diferença é essencial para o debate sobre segurança alimentar.

“Não adianta produzir muito se isso vier acompanhado de doenças causadas por contaminação alimentar. Segurança alimentar é quantidade e qualidade”, afirma.

Agricultura familiar como eixo da transformação

A descoberta ganha ainda mais relevância quando analisada sob a ótica da agricultura familiar.

Dados do Anuário Estatístico da Agricultura Familiar 2024 indicam que o setor responde por cerca de 23% do valor bruto da produção agropecuária e por 67% das ocupações no campo. Além disso, movimenta a economia de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes.

Mesmo ocupando apenas 23% das terras agricultáveis, os agricultores familiares são responsáveis por grande parte dos alimentos consumidos diariamente no país.

No MATOPIBA, porém, esse modelo enfrenta dificuldades crescentes, sobretudo devido ao uso intensivo de agrotóxicos.

“Nosso objetivo é desenvolver uma tecnologia acessível ao agricultor mais simples, que possa ser usada sem riscos ambientais ou à saúde”, reforça o professor Zilmar.

A visão de quem trabalha diretamente no campo

No cinturão verde de Imperatriz, no Maranhão, os impactos do uso prolongado de defensivos já fazem parte da rotina dos produtores.

O horticultor e engenheiro agrônomo Massao Takaoka relata os desafios enfrentados no manejo do solo.

“Eu faço o mínimo possível de uso, mas aqui tem muito problema de nematoide, um verme do solo, talvez por uso de algum tipo de agrotóxico ou porque acabou com inimigos naturais das terras e houve um desequilíbrio”, conta.

Na produção de couve, Massao conseguiu eliminar completamente o uso de defensivos durante a colheita.

Questionado sobre a adoção de soluções biológicas, ele é direto: “Com certeza.”

O que vem pela frente

Apesar dos resultados promissores, a Mycobacterium Agroflorensis ainda passará por mais dois ou três anos de testes em solo aberto, avaliações ambientais e processos de registro de patente antes de chegar ao mercado.

Mesmo assim, a bactéria já é vista como uma das alternativas mais promissoras para reduzir os impactos do agronegócio em regiões sensíveis.

Caso os resultados se confirmem em larga escala, a tecnologia poderá diminuir a contaminação do solo e da água, reduzir custos de produção e fortalecer quem está na base da alimentação brasileira: a agricultura familiar.

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Romualdo
Romualdo
03/02/2026 07:26

Muito importante este tipo de defensivo natural, praticamente elimina o uso daqueles aviões pulverizando as plantações e contaminando propriedades em volta dos grandes produtores. Porém acho que a indústria química vai fazer de tudo para evitar que isso avance. Ainda mais tendo uma boa parte do agronegócio e do congresso com uma mentalidade bem atrasada. Vamos ver no futuro !

Stanislaw Schmidt
Stanislaw Schmidt
03/02/2026 04:27

171. Só ignorante embarca nessa.

João Batista Buzato
João Batista Buzato
02/02/2026 19:26

Matéria mais ****…..agora os micro-organismos só atuam em pequenas produtores. agricultura familiar….esse defensivo microbiana não atua em plantações maiores.

Alguém que observa
Alguém que observa
Em resposta a  João Batista Buzato
03/02/2026 09:09

Faltaram informações importantes nesse artigo, sim, mas o que se deu a entender foi a associação ao pequeno produtor pelo custo x benefício. O grande produtor visa produção à curto prazo, que nem sempre são as mais favoráveis ao solo e à cultura cultivada.

Ruth Rodrigues

Formada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), atua como redatora e divulgadora científica.

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