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Mistério no Monte Hora: cremação mais antiga da África desafia a ciência

Escrito por Sara Aquino
Publicado em 07/01/2026 às 09:10
Atualizado em 07/01/2026 às 09:11
Cremação mais antiga da África, encontrada no Malawi, revela práticas raras entre caçadores-coletores africanos pré-históricos.
FOTO: IA
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Cremação mais antiga da África, encontrada no Malawi, revela práticas raras entre caçadores-coletores africanos pré-históricos.

Fragmentos de ossos queimados encontrados no norte do Malawi revelam a cremação mais antiga da África, realizada há cerca de 9.500 anos por caçadores-coletores africanos, segundo pesquisadores.

Os pesquisadores identificaram a descoberta no sítio arqueológico Hora 1, aos pés do Monte Hora, após análises detalhadas de ossos e sedimentos.

O achado, divulgado em estudo científico recente, chama atenção porque práticas de cremação eram extremamente raras naquele período, especialmente entre grupos nômades.

Por isso, o caso lança nova luz sobre os rituais funerários pré-históricos e sobre a complexidade cultural de sociedades antigas na região.

Descoberta inédita na arqueologia no Malawi

A descoberta da cremação mais antiga da África ocorreu durante escavações no sítio Hora 1, localizado sob uma grande saliência rochosa na base do Monte Hora, no norte do Malawi.

O local é conhecido há décadas, mas pesquisas mais aprofundadas começaram apenas em 2016, com novas técnicas arqueológicas.

Ao analisar fragmentos de ossos queimados e o solo ao redor, os cientistas concluíram que uma mulher adulta passou por cremação no local há aproximadamente 9.500 anos.

Os restos pertenciam, principalmente, aos ossos dos braços e das pernas, indicando uma queima intensa e controlada.

Segundo a análise forense, a mulher tinha entre 18 e 60 anos e media pouco menos de 1,5 metro de altura.

Esses dados reforçam que o grupo planejou e executou cuidadosamente o ritual, demonstrando domínio de técnicas avançadas para a época.

Por que a cremação mais antiga da África é tão rara?

Entre os caçadores-coletores africanos, o grupo sempre considerou a cremação uma prática incomum.

De acordo com os pesquisadores, construir uma pira funerária exige grande quantidade de madeira, tempo e esforço coletivo recursos preciosos para sociedades nômades.

“A cremação é muito rara entre caçadores-coletores antigos e modernos, em parte porque as piras exigem uma enorme quantidade de trabalho, tempo e combustível”, afirmou a antropóloga Jessica Cerezo-Román, autora principal do estudo.

No sítio Hora 1, esse foi o único caso de cremação identificado, mesmo havendo outros sepultamentos tradicionais no local.

Esse contraste levanta uma questão central da pesquisa: por que apenas uma pessoa recebeu esse tipo de ritual funerário?

Um ritual planejado nos mínimos detalhes

As escavações realizadas entre 2016 e 2019 revelaram um grande monte de cinzas, com tamanho aproximado ao de uma cama queen size.

Dentro dele, havia dois conjuntos de fragmentos ósseos humanos com padrões claros de queima.

Análises indicam que o fogo ultrapassou 500 °C e permaneceu ativo por horas ou até dias.

Isso só seria possível com realimentação constante da pira, o que sugere vigilância e participação contínua do grupo.

Além disso, cerca de 30 quilos de madeira seca foram utilizados.

Evidências de fungos e cupins mostram que o grupo selecionou cuidadosamente a lenha, provavelmente ao longo de um período prolongado de coleta.

Indícios de objetos funerários e gestos simbólicos

Durante a escavação, arqueólogos também encontraram pontas lascadas de ferramentas de pedra misturadas às cinzas.

A presença desses objetos indica que o grupo os depositou intencionalmente como parte dos rituais funerários pré-históricos.

Outro dado surpreendente foi a ausência de fragmentos do crânio e dos dentes da mulher.

Como essas partes costumam resistir à cremação, os pesquisadores acreditam que a cabeça tenha sido removida antes da queima.

Marcas de corte nos ossos mostram que parte da carne foi retirada antes da cremação.

No entanto, os cientistas descartaram a hipótese de canibalismo porque identificaram padrões diferentes daqueles observados nos restos de animais encontrados no mesmo sítio.

Crenças complexas entre caçadores-coletores africanos

Para os especialistas, esses elementos apontam para rituais sofisticados de memória e tratamento dos mortos.

Há evidências crescentes de que antigos grupos do Malawi praticavam a remoção, conservação e até o segundo enterro de partes do corpo.

“Embora nunca possamos conhecer verdadeiramente as motivações dos povos antigos, parece provável que circunstâncias incomuns em sua vida e/ou morte provocaram esse tipo de tratamento cultural incomum”, explicou Elizabeth Sawchuk, coautora do estudo.

Essas práticas indicam que os caçadores-coletores africanos possuíam sistemas de crenças complexos, contrariando visões antigas que os tratavam como culturalmente simples.

O significado do Monte Hora ao longo do tempo

Evidências adicionais mostram que grandes fogueiras foram acesas no mesmo local cerca de 700 anos antes da cremação e, novamente, aproximadamente 500 anos depois.

Curiosamente, essas fogueiras posteriores não continham restos cremados.

Para os pesquisadores, isso sugere que o Monte Hora funcionava como um marco simbólico ou memorial coletivo.

O local pode ter sido revisitado por gerações, mantendo viva a memória do ritual original.

“Parecia que as pessoas haviam retornado, ainda com a memória comunitária do que havia acontecido ali, e reencenado o ritual novamente”, afirmou uma das pesquisadoras envolvidas no projeto.

Uma nova visão sobre os rituais funerários pré-históricos

A cremação mais antiga da África mostra que sociedades nômades, muito antes da agricultura ou das cidades, já eram capazes de coordenar rituais complexos e altamente simbólicos.

No entanto, escolhiam fazê-lo apenas em circunstâncias excepcionais.

Para a arqueologia no Malawi, o achado representa um avanço significativo.

Assim, o achado mostra que os antigos caçadores-coletores africanos possuíam diversidade cultural, crenças elaboradas e relações profundas com seus mortos, uma herança que a ciência moderna ainda começa a compreender.

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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