Órgão aponta indícios de publicidade abusiva após canal de Casimiro Miguel incentivar apostas em odds improváveis durante partidas; Fazenda também notifica a Bet365 por possíveis irregularidades
A Copa do Mundo trouxe holofotes não apenas para os gols dentro de campo, mas também para uma polêmica que vinha crescendo silenciosamente nas transmissões: a forma como apostas esportivas são divulgadas ao vivo, em tempo real, durante os jogos. Agora, essa discussão saiu das redes sociais e chegou oficialmente ao radar do governo federal.
A Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça (MJ) abriu, nesta quarta-feira (24), uma investigação formal contra a CazéTV. O objetivo é apurar se o canal de streaming, comandado pelo influenciador Casimiro Miguel, praticou publicidade irregular de casas de apostas durante as transmissões dos jogos da Copa do Mundo.
Segundo apurou o ICL Notícias, que teve acesso ao documento oficial, o corpo técnico do MJ identificou indícios de violação ao Código de Defesa do Consumidor, além de possíveis infrações à regulação que rege a operação de casas de apostas no Brasil.
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O que motivou a abertura da investigação
De acordo com o texto assinado por Daniel Carnaúba, diretor substituto do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor do MJ, a forma como a CazéTV divulgava as apostas durante os jogos pode configurar publicidade abusiva, nos termos do artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor.
O documento destaca que estratégias promocionais associadas a eventos esportivos de grande apelo popular, somadas a mensagens que estimulam a realização imediata de apostas, podem se aproveitar emocionalmente do torcedor. Ainda segundo o texto, a vinculação entre apostas, paixão esportiva e identidade cultural é um ponto que exige análise mais profunda, já que pode reduzir a percepção de risco do consumidor.
Nesse sentido, o que preocupa as autoridades não é simplesmente a existência de publicidade de apostas — prática já comum em diversas transmissões esportivas —, mas sim o modo como essas oportunidades eram apresentadas ao público: como recomendações quase certeiras, em vez de simples possibilidades de jogo.
Além disso, a apuração também investiga a divulgação de odds, as cotações em tempo real oferecidas pelas casas de apostas. Conforme o documento, esse tipo de prática, feita durante o próprio andamento da partida, pode violar diretamente as normas específicas que regulam a operação dessas plataformas no país.
O episódio que viralizou: a aposta improvável no jogo Canadá x Catar
Um dos episódios que ajudou a colocar o tema em evidência aconteceu durante a partida entre Canadá e Catar. Na ocasião, os canadenses já venciam por 3 a 0 e ainda contavam com um jogador a mais em campo, depois da expulsão de um atleta catari.
Ainda assim, no intervalo do confronto, foi divulgada uma odd que pagava R$ 4,20 para cada real apostado caso as duas seleções terminassem a partida marcando gols — uma possibilidade estatisticamente remota diante do cenário em campo.
O narrador Fernando Nardini chegou a comentar, ao vivo: “o Canadá tá pressionando demais. Se empolgar e for pro ataque, pode deixar desguarnecido lá atrás. É a chance do Catar no jogo”. O comentarista Bruno Magalhães complementou a fala, sugerindo que ainda havia “uma esperançazinha” para os cataris, mesmo jogando com um homem a menos.
A partida, contudo, terminou com uma vitória categórica do Canadá, por 6 a 0. Os telespectadores que seguiram a sugestão feita ao vivo pela equipe de transmissão perderam o valor apostado.
Fazenda também entra na jogada e notifica a Bet365
Paralelamente à investigação do Ministério da Justiça, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (MF) também identificou possíveis irregularidades nas transmissões da CazéTV.
O órgão notificou formalmente a empresa responsável pela Bet365 — uma das três casas de apostas que anunciam nas transmissões do canal, ao lado da Betnacional e da KTO — em razão das possíveis infrações constatadas.
Conforme o ofício, a Fazenda solicitou que a Bet365 se abstenha de divulgar peças publicitárias nos moldes observados durante os jogos, “ainda que por terceiros”. O documento também exige que a controladora da casa de apostas comprove se houve alinhamento prévio com a CazéTV, de modo a garantir que a publicidade tenha sido realizada em conformidade com a legislação vigente, incluindo as regras previstas no Anexo X do CONAR.
A Bet365 tem um prazo de dez dias, a partir da notificação, para apresentar sua resposta oficial ao Ministério da Fazenda.
Casimiro rebate críticas durante live
Em meio à repercussão, o próprio Casimiro Miguel, rosto da CazéTV, comentou o assunto durante uma transmissão ao vivo nesta semana. Ele reconheceu a quantidade expressiva de anúncios de apostas no canal, mas defendeu a prática como parte do modelo de negócio atual do entretenimento esportivo.
“Eu vi a galera falando em vídeo: ‘Oh meu Deus, não aguento mais tantos ads de bets. Tem bet pra tudo quanto é lado, tem 20 bets no jogo’. É fato, né? Não tem muito o que fazer. É o que mais paga hoje. É o que faz girar o negócio”, afirmou o influenciador.
Casimiro foi além e questionou diretamente o impacto negativo apontado por parte do público. “Prejudicou o que? A galera pode se incomodar de ver na tela, mas prejudicar o que?”, declarou.
Procurada pela reportagem do ICL Notícias, a CazéTV não se manifestou até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para que o canal apresente sua versão dos fatos.
Um debate que ultrapassa o futebol
Embora o caso específico da CazéTV tenha ganhado destaque nesta semana, ele se insere em um debate mais amplo sobre a relação entre apostas esportivas, publicidade e vulnerabilidade emocional do consumidor brasileiro — especialmente durante eventos de forte apelo popular, como uma Copa do Mundo.
Portanto, o desfecho dessa investigação pode se tornar um precedente importante. Caso o MJ confirme as irregularidades apontadas, o caso pode abrir caminho para regras mais rígidas sobre como apostas são divulgadas durante transmissões esportivas ao vivo no Brasil — não apenas na CazéTV, mas potencialmente em qualquer veículo que opere no mesmo modelo.
A informação foi divulgada originalmente pelo portal ICL Notícias, em reportagem assinada por Igor Mello, publicada em 25 de junho de 2026, às 6h07, com atualização às 8h42 do mesmo dia.
