México eleva tarifas, amplia tensões comerciais e pressiona exportadores brasileiros em múltiplos setores estratégicos da indústria e do agronegócio
O mercado internacional voltou suas atenções ao México após o Congresso mexicano aprovar, na quarta-feira (10), um tarifaço sem precedentes que chegam a 50% sobre 1.463 produtos importados de 12 países. A medida, que entra em vigor em 1.º de janeiro, afetará de forma direta as exportações brasileiras e ameaça um volume anual de US$ 7,1 bilhões, segundo dados oficiais. A estratégia batizada popularmente de “tarifaço mariachi” estabelece uma tarifa mínima de 35% e já preocupa empresários de diversos segmentos.
A iniciativa faz parte do chamado Plano México, programa da presidente Claudia Sheinbaum voltado a fortalecer a produção doméstica e combater a triangulação de produtos chineses que entram nos Estados Unidos via território mexicano. A medida também busca proteger 320 mil empregos, pressionados pela concorrência externa e pela desaceleração econômica do país.
Conforme dados divulgados pela Gazeta do Povo — usados como referência na elaboração deste conteúdo —, o tarifaço foi aprovado com facilidade nas duas casas do Parlamento e já movimenta autoridades brasileiras e entidades industriais. A preocupação é crescente, principalmente porque mais de 70% do comércio bilateral entre Brasil e México não possui proteção tarifária.
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Impacto direto nas exportações do Brasil e risco para setores automotivo, têxtil e eletroeletrônico
O México é atualmente o sexto maior destino das exportações brasileiras, superado apenas por China, Estados Unidos, Argentina, Holanda e Espanha. Entre janeiro e novembro de 2024, o Brasil enviou US$ 7,1 bilhões em produtos ao mercado mexicano — uma leve retração de 1% em relação ao ano anterior. Apesar da variação marginal, o país ganhou relevância na pauta comercial brasileira.
Entre os produtos mais vendidos, cinco pertencem ao agronegócio: carne de aves, carne bovina, carne suína, soja e café. Outros três fazem parte do setor automotivo, incluindo veículos comerciais, veículos de passageiros e autopeças. Completam a lista os aviões comerciais e os produtos semimanufaturados de ferro ou aço não ligado.
O tarifaço mexicano atinge com força justamente esses segmentos. As novas tarifas se aplicam a produtos têxteis, siderúrgicos, eletrodomésticos, autopeças, eletrônicos, plásticos, químicos e semimanufaturados de alumínio e aço. Portanto, setores que já sofrem com margens estreitas podem enfrentar quedas ainda mais agressivas nos próximos meses.
A informação foi divulgada pela Gazeta do Povo e reforçada por análises setoriais que apontam risco de perda de competitividade e retração nas exportações brasileiras caso não haja uma renegociação tarifária.
Brasil pressiona por acordo comercial para evitar perdas estruturais no comércio bilateral
Diante do novo cenário, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) intensificou os esforços para acelerar as negociações de um acordo de livre comércio entre Brasil e México. Segundo Ricardo Alban, presidente da entidade, “é preciso acelerar a negociação de um acordo de livre comércio” para evitar prejuízos significativos a setores estratégicos da economia brasileira.
Atualmente, apenas uma parte do comércio bilateral está protegida por acordos setoriais, envolvendo segmentos como automotivo, borracha, plásticos, máquinas, sabões e cremes dentais. Entretanto, mais de 70% das transações entre os dois países permanecem sem qualquer blindagem, deixando os exportadores vulneráveis ao tarifaço recém-aprovado.
A situação é ainda mais delicada porque os produtos com maior crescimento nas exportações brasileiras para o México entre janeiro e novembro de 2024 — aviões comerciais, carne bovina (alta de 235%) e carne suína (81,1%) — podem ser diretamente afetados pela falta de acordos formais de proteção.
Assim, o governo brasileiro avalia uma ofensiva diplomática para evitar perdas estruturais no comércio bilateral e impedir que setores de alto valor agregado sejam comprometidos nos próximos anos.
Tarifaço surge em meio a crise interna no México, PIB em queda e informalidade acima de 55%
As tarifas elevadas foram impostas em um momento de turbulência econômica no México. O país registrou uma contração do PIB de 0,3% no terceiro trimestre de 2025 e deve encerrar o ano com crescimento pífio de apenas 0,7%. A demanda doméstica também apresenta fraqueza, marcada pela queda do consumo privado devido à desaceleração da massa salarial.
A formação bruta de capital fixo — indicador central para medir investimentos — apresentou retração severa de 7,3% no acumulado do ano. Esse cenário é agravado pela incerteza gerada por reformas judiciais internas e pela volatilidade da política internacional.
O mercado de trabalho vive o pior ciclo desde 2010 (exceto 2020, devido à pandemia), com a informalidade ultrapassando 55%. Segundo analistas, a economia mexicana funciona como um carro tentando subir uma ladeira com o freio de mão puxado: as exportações para os EUA seguem impulsionando o motor, mas o investimento interno e o ambiente jurídico limitam qualquer avanço mais robusto.
Um relatório do banco BBVA, divulgado no mesmo dia da votação do tarifaço, projetou uma recuperação lenta, com crescimento de 1,2% em 2026, mas alertou para riscos fiscais crescentes. A dívida pública pode chegar a 58% do PIB até 2030, ameaçando a manutenção do grau de investimento.
Todo esse contexto ocorre às vésperas da revisão do acordo de comércio entre México, Estados Unidos e Canadá (USMCA), prevista para 2026 — etapa que tende a ser turbulenta diante das ameaças de endurecimento tarifário feitas pelo presidente norte-americano Donald Trump.


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