Encontrado em 1956 pelo agricultor Hildebrando Alves Pereira na zona rural de Descoberto, o condrito de 15 kg foi levado por engenheiros, dividido no Smithsoniano e só redescoberto cientificamente em 2010 por astrônoma do Museu Nacional
Em 1956, uma pedra escura e pesada apareceu na propriedade de Hildebrando Alves Pereira, morador da zona rural de Descoberto, no interior de Minas Gerais. O agricultor não sabia, mas acabara de encontrar um pedaço do espaço — um meteorito São João Nepomuceno, classificado como condrito ordinário, composto por silicatos e metal formados nos primeiros milhões de anos do Sistema Solar. Hildebrando guardou o maior fragmento em casa. A família não imaginava que aquela rocha estranha atravessaria continentes e décadas antes de ter sua história contada.
Conforme publicou o jornalista Luís Pontes no jornal Voz de São João em abril de 2026, a maior parte do meteorito foi levada por dois engenheiros por volta de 1960. A peça principal, de 15 kg, acabou no Instituto Smithsoniano, em Washington, onde foi dividida em duas partes de aproximadamente 6 kg cada, além de fatias menores para análise científica.

A redescoberta: como uma astrônoma do Museu Nacional rastreou o meteorito até Descoberto
Durante décadas, o meteorito São João Nepomuceno existiu apenas nos registros do Museu Nacional do Rio de Janeiro e do Smithsoniano nos Estados Unidos. Ninguém de fora sabia que a família Pereira ainda guardava fragmentos em Descoberto.
-
O que muita gente trata como erva daninha virou bicicleta nas mãos de um chileno, José Tomás transforma o coligüe, bambu nativo que cresce até cinco vezes mais rápido que o pinheiro, em bikes, bengalas e talheres
-
Com 3,3 milhões de litros de água e esbanjando 23 mil metros quadrados, o AquaFoz está entre os maiores aquários da América do Sul e do mundo
-
Apenas 28% do fundo dos oceanos foi mapeado com precisão, menos do que já se conhece da superfície de Marte e da Lua, e cientistas apontam o tema como estratégico para o Brasil, com meta global de mapear tudo até 2030
-
Japão quer enterrar uma “esteira de carga” de 500 km entre Tóquio e Osaka para substituir até 25 mil caminhões por dia, mover mercadorias por túneis e corredores automatizados sem motoristas e evitar um colapso logístico em país cada vez mais envelhecido
Em 2010, tudo mudou. Heraldo Pereira, filho caçula de Hildebrando, enviou uma amostra para a Dra. Maria Elizabeth Zucolotto, astrônoma do Museu Nacional da UFRJ. A cientista viajou até Descoberto, entrevistou Hildebrando e sua esposa D. Hilda, e filmou o depoimento — registrando pela primeira vez a versão do descobridor sobre a queda e a remoção por engenheiros em 1960.
O novo fragmento tinha massa comparável aos 15 kg da peça original, abrindo pela primeira vez o acesso ao meteorito fora de instituições públicas. Após receber contatos de vendedores e colecionadores brasileiros e estrangeiros, Heraldo aceitou uma proposta — e o fragmento deixou Descoberto permanentemente.

O Brasil tem um acervo de meteoritos que quase ninguém conhece
A história do São João Nepomuceno não é um caso isolado. O Brasil possui um dos acervos meteoríticos mais ricos da América do Sul, espalhado entre museus, instituições e — como no caso de Hildebrando — quintais de famílias que nem sabem o que guardam.
- Bendegó (Bahia, 1784) — 268 kg, o maior meteorito já encontrado no Brasil. Descoberto no sertão baiano, transportado por Dom Pedro II em 1887 para o Rio de Janeiro
- Sanclerlândia (Goiás, 1971) — 267 kg, encontrado por um aluno de geologia da UnB
- Geraisitos (Minas Gerais) — mais de 600 fragmentos de tektitos dispersos por 900 km, formados por um impacto de meteorito há 6,3 milhões de anos
Dessa forma, Minas Gerais concentra alguns dos registros mais importantes de impactos extraterrestres no país. Além do São João Nepomuceno, o estado abriga centenas de fragmentos de vidro formados por colisões cósmicas antigas. No Tocantins, a Serra da Cangalha preserva uma cratera de 13 km de diâmetro formada há 220 milhões de anos que quase nenhum brasileiro conhece.
Recentemente, um objeto “extraterrestre” de 6 milhões de anos encontrado em território brasileiro foi analisado pela Unicamp, levantando hipóteses sobre micrometeoritos que ainda desafiam a ciência.

Entre a ciência e o mercado: o que se perde quando meteoritos saem do país
A venda do fragmento de Hildebrando para um colecionador privado levanta uma questão recorrente na comunidade científica. Quando meteoritos deixam instituições públicas e entram no mercado particular, estudos futuros ficam comprometidos — especialmente em países como o Brasil, onde a legislação sobre patrimônio geológico ainda é ambígua.
Contudo, é preciso reconhecer que famílias como os Pereira guardaram durante décadas o que a ciência levou anos para valorizar. Sem Hildebrando, o meteorito teria desaparecido em 1960 junto com os engenheiros. Sem Heraldo, a Dra. Zucolotto nunca teria chegado a Descoberto.
A história do meteorito São João Nepomuceno é, acima de tudo, uma história de memória. De um agricultor que reconheceu algo estranho numa pedra escura. De uma família que guardou um pedaço do universo sem saber exatamente o que tinha. E de uma astrônoma que, mais de meio século depois, cruzou o estado para registrar o depoimento antes que ele se perdesse para sempre. Conforme notou a Veja, Minas Gerais guarda evidências de impactos cósmicos que a maioria dos brasileiros sequer imagina existirem.

-
-
-
-
-
10 pessoas reagiram a isso.