Serra da Cangalha, no Tocantins, é uma cratera de meteorito de 13 km formada há 220 milhões de anos e considerada a mais preservada do Brasil.
No meio do cerrado tocantinense, entre plantações de soja e uma paisagem plana que se estende até o horizonte, três cadeias de serras concêntricas se erguem formando um arco quase perfeito. Vista do solo, a Serra da Cangalha, localizada no município de Campos Lindos, pode parecer apenas mais uma formação rochosa típica do interior brasileiro. Segundo reportagem da Pesquisa FAPESP sobre estudos geológicos realizados na região, o conjunto se destaca justamente por surgir em meio a uma área plana do Tocantins, próximo à divisa com o Maranhão, onde as serras alcançam cerca de 400 metros de altura e formam uma estrutura circular rara no território brasileiro.
Vista do espaço, no entanto, a formação revela uma estrutura completamente diferente: uma cratera circular de aproximadamente 13 quilômetros de diâmetro, com anéis concêntricos e um núcleo interno em forma de coroa com cerca de 3 quilômetros de diâmetro, características típicas de uma cratera de impacto meteorítico. Segundo análises publicadas pelo Earth Observatory da NASA, a estrutura mostra uma série de anéis concêntricos claramente visíveis em imagens orbitais, com diâmetro de cerca de 13 quilômetros, enquanto estudos científicos publicados no Journal of South American Earth Sciences descrevem a Serra da Cangalha como uma estrutura complexa de impacto com diâmetro aparente de 13,7 quilômetros.
Localizada no município de Campos Lindos, a Serra da Cangalha é considerada por estudos científicos e pela própria NASA como a cratera de impacto mais bem preservada do Brasil, embora ainda seja pouco conhecida pela maior parte da população. A publicação do Earth Observatory afirma que, apesar da idade estimada em cerca de 220 milhões de anos, a cratera permanece como o exemplo brasileiro mais preservado desse tipo de estrutura, assentada sobre sedimentos amplamente intactos da Bacia do Parnaíba.
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Impacto de meteorito há 220 milhões de anos no período Triássico moldou a Serra da Cangalha
Há aproximadamente 220 milhões de anos, durante o período Triássico, um meteorito com cerca de 1,4 km de diâmetro atravessou a atmosfera terrestre a uma velocidade estimada de 43.200 km/h, equivalente a cerca de 12 km por segundo.
O impacto liberou uma energia calculada em 2,74 × 10²⁰ joules, magnitude milhares de vezes superior à de armas nucleares modernas.
Em frações de segundo, rochas foram pulverizadas, derretidas e lançadas para a atmosfera. A onda de choque gerou estruturas geológicas conhecidas como shatter cones, formações que só ocorrem sob pressões extremas e são consideradas evidências diretas de impactos meteoríticos.
O material expelido retornou à superfície formando brechas de impacto, rochas compostas por fragmentos fundidos e compactados após o choque.
O resultado foi uma cratera complexa, com múltiplos anéis estruturais e um núcleo central elevado devido ao rebote da crosta terrestre após o impacto.
Descoberta da Serra da Cangalha envolveu Petrobras, Radam Brasil e confirmação científica pela Unicamp
A estrutura foi inicialmente identificada em 1960 por geólogos da Petrobras durante atividades de prospecção na Bacia do Parnaíba.
Na época, a formação foi interpretada como um domo geológico, sem relação com impacto extraterrestre.
Nos anos 1970, durante o projeto Radam Brasil, o padrão circular voltou a chamar atenção. Já na década de 1980, o pesquisador John McHone sugeriu a possibilidade de origem meteorítica, mas sem evidências conclusivas.
A confirmação definitiva ocorreu apenas em 2012, com a tese de doutorado do geólogo Marcos Alberto Rodrigues Vasconcelos, desenvolvida na Unicamp sob orientação de Álvaro Penteado Crósta.
O estudo identificou shatter cones e brechas de impacto no local, confirmando a natureza da estrutura como astroblema — termo técnico para crateras antigas formadas por impactos e modificadas pela erosão ao longo de milhões de anos.
Imagens de satélite da NASA mostram anéis concêntricos e núcleo central elevado na cratera
A Serra da Cangalha é claramente visível em imagens do programa Shuttle Radar Topography Mission (SRTM), da NASA.
Os dados mostram três anéis estruturais distintos:
O anel externo, com cerca de 11 km de diâmetro, delimita a cratera original. Um segundo anel interno apresenta colinas suaves entre 5 e 6 km. No centro, um núcleo elevado de aproximadamente 3 km representa o ponto de maior deformação geológica.
A rodovia TO-226 atravessa a região e passa dentro da estrutura, sem que a maioria dos motoristas perceba que está dentro de uma cratera de impacto.
Brasil possui diversas crateras de meteorito, incluindo o Domo de Araguainha e outras estruturas pouco conhecidas
A Serra da Cangalha faz parte de um conjunto de pelo menos oito crateras de impacto confirmadas no Brasil.
A maior delas é o Domo de Araguainha, com cerca de 40 km de diâmetro, localizado na divisa entre Goiás e Mato Grosso.
Outra estrutura relevante é o Riachão Ring, no Maranhão, com aproximadamente 4,5 km de diâmetro, situado a cerca de 45 km da Serra da Cangalha.
A proximidade entre essas formações levanta hipóteses de impactos múltiplos, possivelmente causados por fragmentação de um único corpo celeste. Apesar da relevância científica, muitas dessas estruturas permanecem pouco conhecidas pela população.
Interior da cratera abriga mata preservada, rios, cavernas e biodiversidade isolada
O interior da Serra da Cangalha apresenta características ecológicas únicas. A região central é coberta por vegetação nativa praticamente intacta, protegida pelas bordas elevadas da cratera.
Rios, como o Manoel Alves Grande, atravessam a estrutura, formando cachoeiras e áreas propícias para atividades como canoagem.
Cavernas identificadas nos anéis internos apresentam formações rochosas associadas às pressões do impacto, tornando o local relevante também para estudos geológicos.
Proposta de criação de parque estadual tenta garantir proteção da Serra da Cangalha
Apesar de sua importância científica e ambiental, a área ainda não possui proteção formal definitiva. Existe proposta para criação do Parque Estadual da Serra da Cangalha, com área estimada de 16.617 hectares.
Instituições como Iphan, Unicamp e UnB já realizaram estudos no local, e a cratera está registrada em bases internacionais de dados geológicos, incluindo publicações científicas especializadas.
Estruturas como a Serra da Cangalha funcionam como arquivos naturais que registram eventos extremos da história do planeta. Impactos meteoríticos podem influenciar mudanças climáticas, alterações geológicas e até processos de extinção em massa.
O estudo dessas formações contribui para a compreensão da evolução da Terra e da dinâmica de impactos cósmicos ao longo do tempo.
Agora queremos saber: você já conhecia essa cratera de 13 km no Tocantins visível apenas do espaço?
A Serra da Cangalha permanece como uma das formações geológicas mais impressionantes e menos conhecidas do Brasil.
Mesmo sendo visível por satélite e estudada por pesquisadores, ainda é ignorada pela maior parte da população. Você já tinha ouvido falar dessa cratera de meteorito no Tocantins?


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